sábado, agosto 11, 2012

Cadernos cinematográficos: semântica


Durante a preparação da rodagem de "Checkpoint Sunset", algumas pessoas confessaram-me o seu pressentimento de que grande parte do continente de sentido com que eu havia construído o filme não iria ser transmitido, por via das imagens criadas, para o futuro espetador. Na verdade, concebo a imagem como o mínimo denominador comum entre criador e recetor da obra cinematográfica. A imagem é a ponta de um duplo icebergue cujas partes imersas crescem em direções contrárias: por um lado, a imensa parafernália espiritual de que o autor se socorre para erguer uma forma concreta muito simples e condensada, por outro, o delírio de hipóteses com que, a partir dessa forma muito simples e condensada, o espetador aprofunda o sentido que lhe convém. Se tal sentido for completamente contrário àquele que o realizador sonhou, este terá de reconhecer a sua incompetência. Em todo o caso, nunca os dois "icebergues imersos" se equivalem na plenitude, só a imagem é o ponto de encontro e o nó de desencontro.

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