domingo, julho 01, 2012

Economia dos autores

Uma das advertências que normalmente se faz à chamada "política dos autores" que foi formulada pelos críticos dos "Cahiers du cinéma" é a perversão a que uma tal teoria parece levar: a partir do momento em que, por princípio, se valoriza sempre mais o realizador que faz filmes pessoais do que o chamado tarefeiro, podemos chegar ao cúmulo de preferir o mau filme de um autor ao bom filme do profissional. A advertência parece ser direcionada contra a forma como a sétima arte viveu o seu período moderno (embora todas essas etiquetas e correspondências sejam normalmente forçadas e pouco exatas) e acaba por servir tanto o pós-dito-cujo como o crente na dimensão industrial/comercial do cinema.

Tudo se quer, contudo, com bom senso. A adesão à obra de um determinado autor não é uma profissão de fé na qualidade ininterrupta das partes com que o tempo vai constituindo essa obra. Essa adesão tem a ver com a continuidade de pensamento conceptual, temático e formal que um criador investe em todos os filmes que vai fazendo. Tal continuidade, em devir, com momentos de rutura ou de surpresa, remando a favor ou contra a corrente de expectativas que o próprio autor consegue gerar, providencia uma alucinação de unidade que nos convida a contemplar o cinema como processo de materialização múltipla e diacrónica de um espírito pessoal. Às vezes, a coisa falha, é certo. Há autores que se tornam caricaturas de si mesmos. Em todo o caso, acompanha-se um autor como se acompanha um amigo a quem dizemos a verdade e de quem exigimos a verdade. E esse prazer, mais do que um avatar da fidelidade, é uma resistência baseada no desejo de diálogo.

Ainda para mais, nem sempre é líquido que o grande filme feito pelo modesto profissional (mas tenho as minhas dúvidas de que no cinema haja alguém modesto...) tenha ganho essa sua grandeza à custa do talento do seu realizador. Tendo em conta a impressionante mediocridade da obra de Ridley Scott, como não pensar que a beleza de "Blade Runner" talvez seja da responsabilidade do argumentista e do production designer? Nem sempre é fácil descobrir de quem é a alma de um filme. Ora, no caso de um autor, mesmo tomando em consideração a riqueza imensa de todos os contributos para que a sua visão se possa concretizar, é precisamente esse ser-pessoa que o devir-obra nos faz acompanhar em torno da figura do realizador.

Tudo se quer com bom senso. A quantidade de grandes filmes que se fizeram a si mesmos em regime de maquinismo industrial é, na minha opinião, ínfima quando comparada com a quantidade de obras-primas feitas por aqueles realizadores que resolveram dar a cara e o coração nos seus filmes. E prefiro, de longe, ler o entusiasmo morno de Luís Miguel Oliveira pelo péssimo (último) filme do seu Tim Burton do que a suposta irreverência de Vasco Câmara cruelmente cego para a grandeza de "O cavalo de Turim" de Béla Tarr. Questões de público tornado privado.

2 comentários:

petit paysan disse...

gosto muito. e registo uma possível evolução da Teoria: Da "Política" à "Economia". Mais tarde ou mais cedo, sinto que acabará na "Finança do Autor"(já aí estamos, na verdade). o Cinema insiste em acompanhar o Mundo, against all odds. e se calhar um dia (ou uma noite) desaparecem juntos, e depois, estrelinhas, só no céu (ou no Planetário)
;) abraços

Pedro Ludgero disse...

obrigado.

mas não acho que seja um texto assim muito interessante. não ando com cabeça para formular nada com relevância.

abraço