quarta-feira, junho 20, 2012

O ATUAL 35

"A Torinói ló" - Béla Tarr



Friedrich Nietzsche proclamou a morte de Deus e a iminência de um mundo dançante. Mas reza a lenda que, ao dar de caras com um cavalo martirizado pelo seu (S)senhor, o filósofo enlouqueceu de modo irreversível. Na verdade, não só Deus parece não ter morrido, como está alive and KICKING: somos nós que, aqui em baixo, morremos todos os dias da nossa vida.

Não interessa saber se Béla Tarr é ou não um homem de fé, pois o que ele filma é o triunfo absoluto da lenta pulsão de destruição sobre qualquer ímpeto genesíaco. Em "O cavalo de Turim", a morte não é entendida como uma erosão da criação divina, mas como algo que Deus himself se esmerou a criar. Com esmero, portanto, de demiurgo cinematográfico (um formalismo deveras olímpico), o autor húngaro propõe uma contra-criação. Em sete dias (sendo desnecessário, ou talvez mesmo impossível, filmar o sétimo deles). Uma contra-criação que, à total liberdade procriadora de Adão e Eva, opõe o interdito entre um pai e uma filha (a humanidade, enquanto resultado do incesto dos filhos do casal primeiro, acabará por atingir a esterilidade). Uma cena final (mais do que a ruralidade, é uma abstração cronológica que aqui está em causa), na qual o mundo acaba à maneira de T. S. Eliot: "Not with a bang but a whimper".

O contraste entre um vento monolítico (que faz lembrar a ficção científica à maneira de Andrei Tarkovsky) e os pequenos eventos que roem a rotina ("Jeanne Dielman" em doses progressivas) é dado em magistrais planos-sequências. Convém, contudo, notar que esses planos são avessos a uma efetiva estratégia de repetição. Há mesmo uma espécie de découpage-por-planos-sequências, que mostram a rotina sob todos os seus ângulos, visuais e temáticos (basta pensar na refeição de batatas, filmada quatro vezes mas sempre de um ponto de vista distinto, constituindo as primeiras duas e as últimas duas vezes verdadeiros campos-contracampos entre si). É uma espécie de ética gnosiológica, que impõe o tempo como elemento fundador da capacidade de conhecer. Há várias perspetivas sobre um assunto, de facto, mas elas não se revelam sem a crono-escultura. As personagens, incapazes desse recuo-de-montagem, nem se apercebem que o mundo já acabou. Como nós?

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