sexta-feira, junho 08, 2012

Isto anda tudo ligado

Há uns dias atrás, o deputado Paulo Rangel (que em tempos conheci pessoalmente) elogiou a versão "para gente nova" que Vasco Graça Moura fez de "Os Lusíadas" porque, segundo ele, já ninguém vai à versão original.

Em primeiro lugar, cumpre-me deixar aqui registada a impressão sincera que eu tenho de que, ao Vasco Graça Moura, com quem de resto antipatizo profundamente, nunca lhe terá passado pela cabeça que a escrita camoniana se tivesse tornado não-visitável para o tempo presente. Os seus propósitos serão certamente outros, bem mais nobres.

Devo lembrar ao Paulo Rangel que a matéria mais relevante de um texto é o conjunto de soluções verbais (do ritmo à rima, das imagens à sintaxe, etc) com que esse texto foi composto. Não estou aqui a desvalorizar a narrativa ou a temática, mas a defender que a beleza do livro "Os Lusíadas" é inseparável do trabalho linguístico em sentido amplo que o poeta nele investiu. Que seja necessária alguma pedagogia para aproximar o leigo de uma obra distante dos códigos do português atual, isso é verdade. Mas ninguém percebe o sabor da carne de javali através do sabor da carne de avestruz.

No entanto, o que eu gostaria de realçar é que esta visão do recetor cultural como condenado à infantilidade (é tudo gente nova, para os mercadores da arte), associada ao desprezo da verdade do objeto a favor do sucesso da sua circulação (nem que seja em versão adulterada), não é dissociável da ideologia política e económica que o PSD de Passos Coelho trouxe para a nação que no dia 10 de Junho cometeu o erro de cruzar poesia com patriotismo.

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