domingo, junho 24, 2012

Três quadras de São João...

... para o movimento "Manifesto em defesa da Cultura":

"Já dizia o São João:
Um por cento de trabalho,
E eu cultivo a inspiração
Com martelo e com bugalho."

"Exceção o alho-francês?
Todo o martelo é porreta.
Cultive o meu fim do mês
Que eu não me vou pôr na alheta."

"Ó milagroso São João,
Vê lá se alteras este clima:
Como a orvalhada no verão,
Cultura põe na economia."

quarta-feira, junho 20, 2012

"A Torinói ló" - imagem


O ATUAL 35

"A Torinói ló" - Béla Tarr



Friedrich Nietzsche proclamou a morte de Deus e a iminência de um mundo dançante. Mas reza a lenda que, ao dar de caras com um cavalo martirizado pelo seu (S)senhor, o filósofo enlouqueceu de modo irreversível. Na verdade, não só Deus parece não ter morrido, como está alive and KICKING: somos nós que, aqui em baixo, morremos todos os dias da nossa vida.

Não interessa saber se Béla Tarr é ou não um homem de fé, pois o que ele filma é o triunfo absoluto da lenta pulsão de destruição sobre qualquer ímpeto genesíaco. Em "O cavalo de Turim", a morte não é entendida como uma erosão da criação divina, mas como algo que Deus himself se esmerou a criar. Com esmero, portanto, de demiurgo cinematográfico (um formalismo deveras olímpico), o autor húngaro propõe uma contra-criação. Em sete dias (sendo desnecessário, ou talvez mesmo impossível, filmar o sétimo deles). Uma contra-criação que, à total liberdade procriadora de Adão e Eva, opõe o interdito entre um pai e uma filha (a humanidade, enquanto resultado do incesto dos filhos do casal primeiro, acabará por atingir a esterilidade). Uma cena final (mais do que a ruralidade, é uma abstração cronológica que aqui está em causa), na qual o mundo acaba à maneira de T. S. Eliot: "Not with a bang but a whimper".

O contraste entre um vento monolítico (que faz lembrar a ficção científica à maneira de Andrei Tarkovsky) e os pequenos eventos que roem a rotina ("Jeanne Dielman" em doses progressivas) é dado em magistrais planos-sequências. Convém, contudo, notar que esses planos são avessos a uma efetiva estratégia de repetição. Há mesmo uma espécie de découpage-por-planos-sequências, que mostram a rotina sob todos os seus ângulos, visuais e temáticos (basta pensar na refeição de batatas, filmada quatro vezes mas sempre de um ponto de vista distinto, constituindo as primeiras duas e as últimas duas vezes verdadeiros campos-contracampos entre si). É uma espécie de ética gnosiológica, que impõe o tempo como elemento fundador da capacidade de conhecer. Há várias perspetivas sobre um assunto, de facto, mas elas não se revelam sem a crono-escultura. As personagens, incapazes desse recuo-de-montagem, nem se apercebem que o mundo já acabou. Como nós?

terça-feira, junho 19, 2012

domingo, junho 10, 2012

Haiku

Se não consegues vencer os teus inimigos, aceita a tua própria destruição.

sexta-feira, junho 08, 2012

"Sherlock Jr" - imagem


O INATUAL 73

"Sherlock Jr" - Buster Keaton (1924)


"Le cinéma c'est l'art de faire faire de jolies choses à de jolies femmes", disse o Truffaut. E, na verdade, para não se confundir com esta sobranceria do prazer, o Godard (que se zangou com o outro) tentou um cinema isento da sua função mítica de "fazer sonhar". Mas que o Truffaut se tenha tornado uma caricatura de si mesmo (basta confrontar "Les 400 coups" com "L'amour en fuite") ou que as "Histoire(s) du cinéma" acusem a sétima arte de complacência perante o Holocausto nazi, isso não impede que o chato do JLG continue a fazer filmes como quem faz elogios ao amor. Podemos contornar esta fricção que talvez seja ficção se nos juntarmos ao Buster Keaton de "Sherlock Jr".

O Pamplinas, nesta comédia singular, é um projecionista de cinema que projeta ser um detetive à maneira do personagem de Conan Doyle. Tudo gira, sem o parecer, em torno de uma paixão sua por uma menina ameninada ao jeito do cinema mudo. A paixão, para a qual o cinema foi desde sempre uma espécie de modelo, permite a fantasia de algum heroísmo (quanto mais não seja enquanto sublimação do instinto de eliminar o rival). Em consonância, a montagem cinematográfica baseada na continuidade (ou seja, a montagem que elide a natureza fraturante dos cortes que se estabelecem entre os vários planos de um filme) permite que o espetador perca qualquer sentimento de distância perante a matéria fílmica. É o princípio do cinema de massas: durante duas horas, todos podemos ser Sherlock Holmes (ou Indiana Jones ou Romeu ou Mahatma Ghandi ou...). A sensação de poder que assim se atinge (grande parte do burlesco deste filme constrói-se como um jogo de falso acaso que elimina todos os riscos que se atravessam no percurso do Pamplinas-tornado-personagem-de-cinema) é também paralela à sensação de poder que aqueles que fazem o filme têm sobre a sua matéria criativa.

No entanto, a montagem não é só negação-de-si-mesma. Numa cena absolutamente brilhante (cena na qual a simplicidade se conjuga na perfeição com o poder de evidência), o Pamplinas projetado no ecrã tenta agir de acordo com o cenário que o contextualiza, mas quando de facto age, o plano muda subitamente e o cenário torna-se outro (o que provoca o riso). A montagem é aqui entendida como arte da elipse espácio-temporal, e agora o seu efeito é próximo de uma estratégia de distanciamento (esta conclusão é inequivocamente pretendida pelo realizador). O poder do super-apaixonado revela-se assim um logro, na medida em que um discurso baseado no Tempo permite que Pamplinas compreenda que toda a paixão, quando continuada, se muda em conjugalidade. É o sentido do didático campo-contracampo final, entre a sala de projeção e o ecrã de cinema.

Não me parece que Buster Keaton nos obrigue a escolher entre o tédio de uma vida burguesa e a excitação superficial dos delírios aventurosos. Não é isso que está em causa (pelo menos no verdadeiro amor). Em causa está o cinema, que funciona tanto como catalisador de projeções (dos sonhos, dos pesadelos, dos desejos, dos medos) tanto quanto serve de revelador da mais criminosa realidade. O cinema (private eye) é a arte de pôr belas mulheres a fazerem e a desfazerem belas coisas.

Isto anda tudo ligado

Há uns dias atrás, o deputado Paulo Rangel (que em tempos conheci pessoalmente) elogiou a versão "para gente nova" que Vasco Graça Moura fez de "Os Lusíadas" porque, segundo ele, já ninguém vai à versão original.

Em primeiro lugar, cumpre-me deixar aqui registada a impressão sincera que eu tenho de que, ao Vasco Graça Moura, com quem de resto antipatizo profundamente, nunca lhe terá passado pela cabeça que a escrita camoniana se tivesse tornado não-visitável para o tempo presente. Os seus propósitos serão certamente outros, bem mais nobres.

Devo lembrar ao Paulo Rangel que a matéria mais relevante de um texto é o conjunto de soluções verbais (do ritmo à rima, das imagens à sintaxe, etc) com que esse texto foi composto. Não estou aqui a desvalorizar a narrativa ou a temática, mas a defender que a beleza do livro "Os Lusíadas" é inseparável do trabalho linguístico em sentido amplo que o poeta nele investiu. Que seja necessária alguma pedagogia para aproximar o leigo de uma obra distante dos códigos do português atual, isso é verdade. Mas ninguém percebe o sabor da carne de javali através do sabor da carne de avestruz.

No entanto, o que eu gostaria de realçar é que esta visão do recetor cultural como condenado à infantilidade (é tudo gente nova, para os mercadores da arte), associada ao desprezo da verdade do objeto a favor do sucesso da sua circulação (nem que seja em versão adulterada), não é dissociável da ideologia política e económica que o PSD de Passos Coelho trouxe para a nação que no dia 10 de Junho cometeu o erro de cruzar poesia com patriotismo.

quarta-feira, junho 06, 2012

NEXT!

Já houve tempo suficiente para se perceber que o governo Passos Coelho não está a tentar remediar a imensa cagada socrática, mas a aproveitar a confusão para realizar uma agenda ideológica demasiado perigosa.

sábado, junho 02, 2012

No post anterior...

... começou a partilha de um conjunto (presumivelmente extenso) de poemas, que se agrupará num (projeto de) livro que neste momento se intitula "poemíssimos".

Partilha 138

(passando em revista as superfícies)


Era uma vez uma rosa cor-de-rosa sobre a qual corriam incertos rumores: homossexualidade? divórcio? depressão? Não. Era apenas o vento na sua qualidade (e na sua delicada quantidade) de espavento. Fosse a rosa uma laranja cor de laranja e talvez não tivesse direito à modernidade de um hyphen. Quentes assuntos do horto, onde o vento passa e agita como desde o início passou e agitou.
Está a flor à flor de si mesma quando nela não bate uma cor heterónima. Isso foi, e só a memória o saberá amar. Há agora um mar sinistro e celeste que tudo esfria na sua profundidade. Homo, sapiens ainda usar tua língua para dizer "caneça, caneçae", sem ter esmaecida a evidência de que a cedilha é o pé de um cálice de rosê?