domingo, maio 20, 2012

O ATUAL 34

"Nana" - Valérie Massadian


Este pequeno filme desprotegido ataca o seu espetador em dois campos de batalhas perdidas. Por um lado, é o mundo rural que é convocado, no momento em que as suas normalidades se afiguram violências ao homem doravante urbano (pelos vistos, a matança do porco que abre a obra tem causado um certo sabor a escândalo). Por outro, Massadian parece querer tratar por tu o atual estado do amor parental, no qual se encontram sofisticação de cultura e perfecionismo afetivo em doses sem humor; dito de outro modo, as crianças do presente tendem a ser super-protegidas. Eu, que odeio touradas e me sinto sufocado pelo excesso de sentimento convocado por uma sobrinha, sei-me público-alvo desta seta certeira.

Sem qualquer sentimentalismo, sem qualquer demagogia (que longe estamos das teorias da iminente selvajaria do humano), a realizadora de "Nana" constrói uma imagem abstrata da infância, na qual sublinha o papel inelutável de uma solidão absoluta no processo de crescimento. De certo modo, não há outra maneira de crescer a não ser a consciencialização, pela criança, da falibilidade da mãe e/ou do pai. O abandono que esta mãe tão reconhecível pratica reduz a anterior violência sobre o suíno a um alegre passeio no campo. Mas o que aqui está em causa não é o caso, a exceção, mas sim a universalidade alegórica que ele exala.

Onde o filme jubila é precisamente no encontro que consegue provocar entre a infância do mundo, a ruralidade, e o peso no coração que a criança provoca no adulto desesperado por proteger. De repente, surge uma equivalência ao mesmo tempo plástica e poética entre uma estética da desarrumação pueril e o documento da vida campestre, tudo servido por densos bosques onde o conto de fadas não precisa de outro production design a não ser a mais honesta atenção da câmara. O Tim Burton dos tempos presentes teria muito a aprender aqui.

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