domingo, abril 15, 2012

Um passo maior do que a perna

Nas comunidades dos Dou Donggo, um povo da ilha de Sumbawa (na Indonésia), todos os casais ficam a viver em casa dos pais da mulher até ao nascimento do seu primeiro filho, de modo a que a mãe da parturiente lhe possa dar apoio eficaz nessa nova e complexa etapa da sua vida (um hábito que, segundo o antropólogo Peter Just, está a mudar). As crianças não são exclusivamente educadas pelos pais, podendo alimentar-se e pernoitar em todas os lares da comunidade. Os casais envelhecidos são realojados em casas modestas, nas quais passam a viver na companhia dos seus netos, que os ajudam nas tarefas que eles já têm dificuldade em levar a cabo.

Não pretendo de modo algum forjar uma imagem paradisíaca do homem dito primitivo (se bem que podemos sempre defender que o El Dorado que os europeus pretendiam encontrar na América não era uma quimera de metal mas esta prova em carne viva da viabilidade de outros tipos de sociedade), mas mostrar que ele não era "primitivo". Toda a cultura sofisticada que conformava estes pequenos agrupamentos humanos estava destinada a responder às exigências económicas e ecológicas que eles precisavam de enfrentar para garantir a sua sobrevivência.

Ora, nós estamos hoje na posse desse fabuloso instituto jurídico que é a propriedade privada, defendido com unhas e dentes pelos mais destacados doutores das melhores universidades mundiais, mas a verdade é que um idoso que, quando era jovem, tenha comprado uma casa no quarto andar de um prédio sem elevador, vê a sua qualidade de vida diminuir de forma trágica se não conseguir fazer um negócio de venda da sua habitação. O exemplo mais gritante do nosso paradoxo de sofisticação é o desnível vergonhoso entre uma parte do planeta condenada à fome (quando já há suficientes meios tecnológicos para ir contornando as dificuldades da agricultura) e uma outra parte padecendo de obesidade. Dizia-me a minha nutricionista que são necessários muitos séculos para que o nosso corpo aprenda a viver saudavelmente com o tipo de alimentação e de sedentarismo a que a fartura ocidental o habituou.

Nada disto alguma vez aconteceria numa comunidade primitiva. Às vezes parece que o mundo desenvolvido deu um passo maior do que a perna. Como se o cérebro fosse um órgão hiperativo e produzisse objetos de inteligência a uma tal razão que, no jogo com o resto do organismo, ele ocupasse o lugar de um cancro civilizacional. Estaremos certos de que a nossa cultura ainda é uma forma de responder às nossas necessidades? 

Dedico-me à poesia, em parte porque me parece que esta continua a ser uma espécie de fio de prumo em torno da integridade humana. Em todo o caso, quando um político me diz que resolverá os problemas de um país com o controlo do défice e com privatizações, sinto que a sua visão do mundo é de tal modo modesta que se torna perigosa.

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