terça-feira, abril 17, 2012

Nota "Tabu"

No seu último filme, Miguel Gomes retoma parte do gesto que o tinha motivado a realizar "Aquele querido mês de agosto". O lado maldito do amor incestuoso que incendiava a ficção estival encontrava um subtil eco no universo cultural escolhido para o ilustrar, o cancioneiro pimba, maldito por razões absolutamente diversas. Ora, em "Tabu", a maldição sentimental (algo tão simples como um adultério) articula-se em torno de um cancro ainda mais desconcertante e polémico: o imaginário de direita (note-se que não se trata apenas de evocar o passado colonial visto pelos olhos dos colonizadores; na mesma linha se situa a atenção dada ao cristianismo, à vida de casino, à relação patroa-criada, e temos até direito à aparição de uma espécie de skinhead). A frase-chave de toda a fita é aquela em que Ventura diz que Aurora, a mulher casada que lhe ensinou o sentimento da verdadeira paixão, se lhe impôs como uma realidade absoluta e totalitária. E quando o assassinato do ex-seminarista é reclamado pelas forças rebeldes africanas, a libertação que aí está em jogo é sobretudo aquela que permite a Ventura afastar-se de tão pouco venturoso amor.

O parti pris é, francamente, arriscado. Não tanto pela defesa de um imaginário incómodo (ainda que, ao contrário do que acontecia na obra pimba, Miguel Gomes não assuma diretamente a sua posição de gosto), mas sobretudo porque esse imaginário parece ser instrumentalizado enquanto motivo sociológico e esvaziado da sua (inevitável) dinâmica política. É um partido, contudo, que se revela ganho, por três razões:

1. O episódio meramente vocal das cartas de amor é sobreposto a imagens lírico-documentais do continente africano com a força de quem acredita que esse continente possa voltar a ser olhado como um continente desconhecido.

2. A decisão de retirar os diálogos da banda sonora da segunda parte, e de a fazer brotar da voz encantatória do ator que interpreta o papel de Ventura, decisão formal muito simples e clara, dá a toda a sequência um poder onírico como há muito eu não via no cinema (de certo modo, toda a história poderia ter sido inventada).

3. O esmero dado aos aspetos secundários do filme (aos personagens que rodeiam os amantes, ao sabor do romanesco, à estilística de um português serôdio) faz-nos acreditar que estamos perante uma jóia, polida até poder ser lágrima de crocodilo.

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