domingo, abril 15, 2012

Nota "É na Terra não é na Lua"

É curioso que, no início do seu documentário sobre a ilha do Corvo, Gonçalo Tocha verbalize a vontade de filmar tudo do lugar que a sua câmara vai tomar de assalto. Curioso, porque, como sempre acontece num documentário (por ex., em "Mur murs", o que Agnès Varda viu em Los Angeles foram as pinturas murais), não há concretização fílmica que não resulte de um processo de seleção.

E, na verdade, o que Tocha filma é sobretudo a memória da ilha, como se estivesse a tentar refazer o diário daquele corvino que, a uma dada altura da sua vida, resolveu destruir os registos que demorara toda essa vida a coligir. São muito poucas as imagens de crianças, jovens ou até de jovens adultos que aparecem em "É na Terra não é na Lua", pois a câmara parece enamorada dos anciãos e da faculdade que eles possuem de definirem a ilha enquanto ilha cultural (um momento antes da aldeia global a destruir como um tsunami?).

Será que é preciso recorrer-se à insularidade profunda para ainda se poder experimentar um sentimento de "comunidade" (no sentido formulado por Ferdinand Tönnies)? Tanto o gorro em torno do qual a montagem do filme se tece, como a sombra da nuvem que engole a sombra do próprio realizador no último capítulo da sua obra, parecem atribuir ao cinema (à sua lentidão, à sua curiosidade, à sociabilidade que é sua condição sine qua non) o poder de (re)inventar o sentido da pertença. A pertença à Terra, com e sem maiúsculas.

De resto, salientaria dois momentos magistrais nesta obra. O comentário em direto, por um conjunto de homens, às características de cada onda que embate na ilha desagua num momento de pura poesia. Mais eloquente ainda é a cena da militante da CDU que, em frente a uma parede onde religião e política partilham a ingenuidade, nos dá um retrato simultâneo da urgência do empenhamento cívico e da pequenez da sua resposta partidária institucional. Um filme a reter.

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