domingo, abril 15, 2012

Nota "Blue"

Se o cinema é um meio de comunicação estética orientado para dois sentidos, a sua origem está ligada ao império exclusivo da visão. Os trinta anos em que a sétima arte foi muda (sem disso ter consciência) fizeram-na atingir um alto nível de expressividade visual, sem paralelo nas outras artes da imagem (nem a pintura nem a fotografia se definem por um processo de edição distendido numa temporalidade contínua). A expressividade era de tal ordem que era possível dizer-se que a palavra da Joana d'Arc de Dreyer se conseguia fazer "ouvida" por meios exclusivamente visuais.

Essa génese ótica determinou a maneira como nos relacionamos com o cinema. Se um filme como "Branca de neve", de João César Monteiro, deu origem a uma pequena escaramuça social de despeito, "The artist" conseguiu atingir o prémio máximo da Academia de Hollywood. Nunca saberemos onde acaba a essência de um fenómeno e onde começa a sua arbitrariedade cultural, mas a verdade é que toleramos passar uma sessão de cinema na contemplação de imagens (aparentemente) sem som, mas o contrário nos parece uma bizarria insultuosa.

Na verdade, há já muito tempo que o cinema procura inverter as regras do seu próprio jogo. Cineastas como Straub/Huillet ou Manoel de Oliveira foram-se apercebendo de que, ao gerarem imagens torturadas por um elemento de falta, era possível produzirem a ilusão de filmagem da palavra. Esses autores insistiram sobretudo na criação da evidência de um problema ao nível do movimento (a famosa roda da carruagem filmada durante demasiados minutos em "O dia do desespero"), uma espécie de equivalente assimétrico da "falta" de som no cinema mudo (na verdade, o som sempre existiu, seja sob a forma de acompanhamento musical, seja a título do conceito de silêncio de John Cage). As duas faltas não se equivalem de facto (esta minha tese é bastante contestável), mas iluminam-se mutuamente.

Um filme como "Blue", no qual o cineasta Derek Jarman reduz toda a dimensão visual a uma única cor, omnipresente do princípio ao fim da obra, leva a uma espécie de momento limite esta vontade de filmar o som (ao contrário do Dreyer do tempo do mudo que, no seu ensaio sobre a mártir cristã, tentou pôr a imagem a "falar"). "Blue" é tanto mais expressivo quanto resulta da progressiva cegueira que estava a invadir o seu autor (fatalmente infetado pelo vírus da Sida). Não se trata, contudo, de uma performance sonora à qual teria sido acrescentada uma imagem monocromática, mas de um momento de verdadeiro cinema, destinado às peculiares condições de projeção da sala escura. Como é óbvio, a experiência, enquanto limite, não se poderá tornar a norma da produção audiovisual ("Branca de neve", aliás, mostrava algumas imagens ao espetador), mas constitui um gesto de liberdade capaz de influenciar o pensamento futuro sobre a sétima arte.

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