quarta-feira, abril 25, 2012

Quem faz um filme, acrescenta um ponto

No seu processo de conversão ao catolicismo, os mixtecas, um antigo povo da América Central, identificaram a figura de Jesus Cristo (descrita pelos padres missionários como a luz do mundo) com a imagem do Sol, que era uma das suas mais importantes divindades. Sincretismos à parte, a verdade é que esses indígenas do Novo Mundo passaram a localizar a cidade de Belém, onde Cristo nasceu, no oriente, e a cidade de Jerusalém, geografia da morte do Messias, no ponto cardeal onde o sol se põe.

O que eu e um conjunto de bravos colaboradores vamos tentar fazer em "Checkpoint Sunset" é algo de semelhante. Ou seja, vamos catalisar um determinado cliché cultural para lhe revelarmos uma (in)coerência capaz de o iluminar para além dos seus limites usuais.

A ideia é simples: se o fogo é o elemento viril e a água a sua contraparte feminina, quando o máximo expoente do fogo (o sol) se deita sobre o máximo expoente da água (o mar), a cópula tem um resultado crepuscular.

Adenda para evitar más interpretações

Neste post que escrevi a propósito do filme "Blue", do realizador Derek Jarman, não pretendi insinuar que a imagem cinematográfica cara às estéticas do casal Straub-Huillet ou de Manoel de Oliveira se encontra numa posição de fragilidade perante a dimensão textual em torno da qual as suas obras se constroem. Pelo contrário, faço parte do grupo daqueles que acreditam que esses autores inventaram uma expressividade visual completamente nova, baseada na premissa do verbo-tornado-imagem. Reconheço a impopularidade do gesto e assumo que essa estética nem é propriamente aquela em que me revejo enquanto criador, mas muito mais reconheço a eficácia e a liberdade eufórica de toda essa originalidade.

terça-feira, abril 17, 2012

Nota "Tabu"

No seu último filme, Miguel Gomes retoma parte do gesto que o tinha motivado a realizar "Aquele querido mês de agosto". O lado maldito do amor incestuoso que incendiava a ficção estival encontrava um subtil eco no universo cultural escolhido para o ilustrar, o cancioneiro pimba, maldito por razões absolutamente diversas. Ora, em "Tabu", a maldição sentimental (algo tão simples como um adultério) articula-se em torno de um cancro ainda mais desconcertante e polémico: o imaginário de direita (note-se que não se trata apenas de evocar o passado colonial visto pelos olhos dos colonizadores; na mesma linha se situa a atenção dada ao cristianismo, à vida de casino, à relação patroa-criada, e temos até direito à aparição de uma espécie de skinhead). A frase-chave de toda a fita é aquela em que Ventura diz que Aurora, a mulher casada que lhe ensinou o sentimento da verdadeira paixão, se lhe impôs como uma realidade absoluta e totalitária. E quando o assassinato do ex-seminarista é reclamado pelas forças rebeldes africanas, a libertação que aí está em jogo é sobretudo aquela que permite a Ventura afastar-se de tão pouco venturoso amor.

O parti pris é, francamente, arriscado. Não tanto pela defesa de um imaginário incómodo (ainda que, ao contrário do que acontecia na obra pimba, Miguel Gomes não assuma diretamente a sua posição de gosto), mas sobretudo porque esse imaginário parece ser instrumentalizado enquanto motivo sociológico e esvaziado da sua (inevitável) dinâmica política. É um partido, contudo, que se revela ganho, por três razões:

1. O episódio meramente vocal das cartas de amor é sobreposto a imagens lírico-documentais do continente africano com a força de quem acredita que esse continente possa voltar a ser olhado como um continente desconhecido.

2. A decisão de retirar os diálogos da banda sonora da segunda parte, e de a fazer brotar da voz encantatória do ator que interpreta o papel de Ventura, decisão formal muito simples e clara, dá a toda a sequência um poder onírico como há muito eu não via no cinema (de certo modo, toda a história poderia ter sido inventada).

3. O esmero dado aos aspetos secundários do filme (aos personagens que rodeiam os amantes, ao sabor do romanesco, à estilística de um português serôdio) faz-nos acreditar que estamos perante uma jóia, polida até poder ser lágrima de crocodilo.

domingo, abril 15, 2012

Um passo maior do que a perna

Nas comunidades dos Dou Donggo, um povo da ilha de Sumbawa (na Indonésia), todos os casais ficam a viver em casa dos pais da mulher até ao nascimento do seu primeiro filho, de modo a que a mãe da parturiente lhe possa dar apoio eficaz nessa nova e complexa etapa da sua vida (um hábito que, segundo o antropólogo Peter Just, está a mudar). As crianças não são exclusivamente educadas pelos pais, podendo alimentar-se e pernoitar em todas os lares da comunidade. Os casais envelhecidos são realojados em casas modestas, nas quais passam a viver na companhia dos seus netos, que os ajudam nas tarefas que eles já têm dificuldade em levar a cabo.

Não pretendo de modo algum forjar uma imagem paradisíaca do homem dito primitivo (se bem que podemos sempre defender que o El Dorado que os europeus pretendiam encontrar na América não era uma quimera de metal mas esta prova em carne viva da viabilidade de outros tipos de sociedade), mas mostrar que ele não era "primitivo". Toda a cultura sofisticada que conformava estes pequenos agrupamentos humanos estava destinada a responder às exigências económicas e ecológicas que eles precisavam de enfrentar para garantir a sua sobrevivência.

Ora, nós estamos hoje na posse desse fabuloso instituto jurídico que é a propriedade privada, defendido com unhas e dentes pelos mais destacados doutores das melhores universidades mundiais, mas a verdade é que um idoso que, quando era jovem, tenha comprado uma casa no quarto andar de um prédio sem elevador, vê a sua qualidade de vida diminuir de forma trágica se não conseguir fazer um negócio de venda da sua habitação. O exemplo mais gritante do nosso paradoxo de sofisticação é o desnível vergonhoso entre uma parte do planeta condenada à fome (quando já há suficientes meios tecnológicos para ir contornando as dificuldades da agricultura) e uma outra parte padecendo de obesidade. Dizia-me a minha nutricionista que são necessários muitos séculos para que o nosso corpo aprenda a viver saudavelmente com o tipo de alimentação e de sedentarismo a que a fartura ocidental o habituou.

Nada disto alguma vez aconteceria numa comunidade primitiva. Às vezes parece que o mundo desenvolvido deu um passo maior do que a perna. Como se o cérebro fosse um órgão hiperativo e produzisse objetos de inteligência a uma tal razão que, no jogo com o resto do organismo, ele ocupasse o lugar de um cancro civilizacional. Estaremos certos de que a nossa cultura ainda é uma forma de responder às nossas necessidades? 

Dedico-me à poesia, em parte porque me parece que esta continua a ser uma espécie de fio de prumo em torno da integridade humana. Em todo o caso, quando um político me diz que resolverá os problemas de um país com o controlo do défice e com privatizações, sinto que a sua visão do mundo é de tal modo modesta que se torna perigosa.

Nota "É na Terra não é na Lua"

É curioso que, no início do seu documentário sobre a ilha do Corvo, Gonçalo Tocha verbalize a vontade de filmar tudo do lugar que a sua câmara vai tomar de assalto. Curioso, porque, como sempre acontece num documentário (por ex., em "Mur murs", o que Agnès Varda viu em Los Angeles foram as pinturas murais), não há concretização fílmica que não resulte de um processo de seleção.

E, na verdade, o que Tocha filma é sobretudo a memória da ilha, como se estivesse a tentar refazer o diário daquele corvino que, a uma dada altura da sua vida, resolveu destruir os registos que demorara toda essa vida a coligir. São muito poucas as imagens de crianças, jovens ou até de jovens adultos que aparecem em "É na Terra não é na Lua", pois a câmara parece enamorada dos anciãos e da faculdade que eles possuem de definirem a ilha enquanto ilha cultural (um momento antes da aldeia global a destruir como um tsunami?).

Será que é preciso recorrer-se à insularidade profunda para ainda se poder experimentar um sentimento de "comunidade" (no sentido formulado por Ferdinand Tönnies)? Tanto o gorro em torno do qual a montagem do filme se tece, como a sombra da nuvem que engole a sombra do próprio realizador no último capítulo da sua obra, parecem atribuir ao cinema (à sua lentidão, à sua curiosidade, à sociabilidade que é sua condição sine qua non) o poder de (re)inventar o sentido da pertença. A pertença à Terra, com e sem maiúsculas.

De resto, salientaria dois momentos magistrais nesta obra. O comentário em direto, por um conjunto de homens, às características de cada onda que embate na ilha desagua num momento de pura poesia. Mais eloquente ainda é a cena da militante da CDU que, em frente a uma parede onde religião e política partilham a ingenuidade, nos dá um retrato simultâneo da urgência do empenhamento cívico e da pequenez da sua resposta partidária institucional. Um filme a reter.

Nota "Blue"

Se o cinema é um meio de comunicação estética orientado para dois sentidos, a sua origem está ligada ao império exclusivo da visão. Os trinta anos em que a sétima arte foi muda (sem disso ter consciência) fizeram-na atingir um alto nível de expressividade visual, sem paralelo nas outras artes da imagem (nem a pintura nem a fotografia se definem por um processo de edição distendido numa temporalidade contínua). A expressividade era de tal ordem que era possível dizer-se que a palavra da Joana d'Arc de Dreyer se conseguia fazer "ouvida" por meios exclusivamente visuais.

Essa génese ótica determinou a maneira como nos relacionamos com o cinema. Se um filme como "Branca de neve", de João César Monteiro, deu origem a uma pequena escaramuça social de despeito, "The artist" conseguiu atingir o prémio máximo da Academia de Hollywood. Nunca saberemos onde acaba a essência de um fenómeno e onde começa a sua arbitrariedade cultural, mas a verdade é que toleramos passar uma sessão de cinema na contemplação de imagens (aparentemente) sem som, mas o contrário nos parece uma bizarria insultuosa.

Na verdade, há já muito tempo que o cinema procura inverter as regras do seu próprio jogo. Cineastas como Straub/Huillet ou Manoel de Oliveira foram-se apercebendo de que, ao gerarem imagens torturadas por um elemento de falta, era possível produzirem a ilusão de filmagem da palavra. Esses autores insistiram sobretudo na criação da evidência de um problema ao nível do movimento (a famosa roda da carruagem filmada durante demasiados minutos em "O dia do desespero"), uma espécie de equivalente assimétrico da "falta" de som no cinema mudo (na verdade, o som sempre existiu, seja sob a forma de acompanhamento musical, seja a título do conceito de silêncio de John Cage). As duas faltas não se equivalem de facto (esta minha tese é bastante contestável), mas iluminam-se mutuamente.

Um filme como "Blue", no qual o cineasta Derek Jarman reduz toda a dimensão visual a uma única cor, omnipresente do princípio ao fim da obra, leva a uma espécie de momento limite esta vontade de filmar o som (ao contrário do Dreyer do tempo do mudo que, no seu ensaio sobre a mártir cristã, tentou pôr a imagem a "falar"). "Blue" é tanto mais expressivo quanto resulta da progressiva cegueira que estava a invadir o seu autor (fatalmente infetado pelo vírus da Sida). Não se trata, contudo, de uma performance sonora à qual teria sido acrescentada uma imagem monocromática, mas de um momento de verdadeiro cinema, destinado às peculiares condições de projeção da sala escura. Como é óbvio, a experiência, enquanto limite, não se poderá tornar a norma da produção audiovisual ("Branca de neve", aliás, mostrava algumas imagens ao espetador), mas constitui um gesto de liberdade capaz de influenciar o pensamento futuro sobre a sétima arte.

quarta-feira, abril 11, 2012

Nota "A vingança de uma mulher"

Quando se fala sobre casas de putas, o mais terno que se consegue dizer é que há muitos homens que recorrem aos serviços das profissionais do prazer só para poderem conversar.

É terno, de facto. Mas ainda assim opressor, e machista. Este filme dá à prostituta a possibilidade de ser ela a falar. Se toda a foda contém em si latente uma narração, a foda prostituída é capaz de trazer consigo toda a tristeza de uma civilização que, tantos milénios mal passados, não sabe o que fazer nem com a alegria do sexo nem com a alegria do amor (o que, de resto, talvez seja bom).

Nota "Ordet"

Gosto muito do filme "A palavra". Muito mesmo. Cada vez mais.

Ainda que seja um agnóstico fervoroso. Pelo menos a um nível negativo (e figurado), a obra funciona na perfeição: se, no nosso uso quotidiano da palavra, decretarmos que um determinado ser está morto, o mais certo é que ele acabe por morrer.

(Não falarei de fé em ressurreições profanas, pois tenho medo de que me internem num asilo: nos tempos que não correm, ninguém fica seguro quando reivindica um sopro de vida)

segunda-feira, abril 09, 2012

Prosaísmo

O problema não é o capitalismo, o comunismo, o cristianismo, o islamismo, o sexismo, o chauvinismo, o racismo, a homofobia, etc (castelos de cartas). O problema, menos sublime, é a teimosia e a arrogância intelectual que faz com que os seres humanos defendam histericamente determinadas ideias, mesmo quando essas ideias causam sofrimentos insuportáveis a outros seres (humanos ou não).

sábado, abril 07, 2012

Multiplicando e seguindo

O poema do post anterior (que, entre outras aventuras, se interroga sobre a possibilidade de uma mais justa configuração do enigmático na vida adulta) é o último que escreverei para a recolha "quarenta graus à sombra".

Partilha 137

voz de judy dench



(e=117)


está a mona lisa posta em sossego
numa parede lá de casa

isto é tanto mais evidente
quanto não é costumeiro ver-se-me andar
com um bando de japoneses
pela frente

mas eu gostava mais de ter
como um poder privado
exposto o chão que a japoneira pisa
não há nada de mais caro
do que o chão que a japoneira pisa
(como um bigode que se apara
quando o inverno já termina)

e sou tão rico
(tão próspero)..............................
que tenho uma coleção de pedras de roseta
não há praia que não se me revele
a epopeia tão verbal da sua areia
nem cordilheira que não se eroda
na narrativa
do seu passado dromedário
(ideário lírico)

mas que saudade, pobre coitado, tenho eu
de ser analfabeto entre perfumes
de passear como mero turista
na plenitude do mero enigmático

e após ter visto os filmes do harry potter
decidi mesmo a alma minha repartir
pelos mais valiosos sete horcruxes
a saber:
o meu primeiro bilhete de identidade
(ai deus, e u é?)
o pas de chat da esfinge de gizé...

mas eu não gosto de truques
[além do mais
o que se leva desta vida
são os horcruxes]

domingo, abril 01, 2012