quinta-feira, março 08, 2012

O ATUAL 33

"Shame" - Steve McQueen


Os universos de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni permanecem dois dos modelos cinematográficos mais produtivos na contemporaneidade. O segundo filme do artista plástico Steve McQueen (definitivamente um cineasta) segue o sueco no seu estudo do bloqueio psíquico (e da necessidade de um choque para o desfazer ou pelo menos atenuar) e segue o italiano enquanto observador da incomunicabilidade sentimental em cenário de beleza urbana.

Apesar de ser uma das facilidades mais antigas do mundo, nem sempre é sem sofrimento que se converte o desejo sexual, por definição prolixo e disperso, numa fé fraternal (ou seja, em amor). O que incomoda Brandon na presença da sua irmã é o facto de ela precisamente lhe fazer lembrar essa dimensão fraternal que, algures no percurso da sua vida, o terá abandonado num deserto de erotismo desenfreado. Quando Sissy canta "New York, New York" (numa versão tristíssima), ela dá, de si e do seu irmão, um retrato de emigrantes, não tanto da Irlanda (embora isso seja verdade), mas da infância comum. Emigrantes fascinados pela cidade que nunca dorme (há apenas duas sequências diurnas de exteriores, e em ambas o simbolismo é evidente), mas que os devorou no seu cocktail explosivo de capitalismo e frieza emocional.

Apesar de este ser um filme empenhado na montagem paralela, o paralelismo mais importante que ele oferece estabelece-se entre uma cena que não se vê (a tentativa de suicídio da irmã) e a descida aos infernos da foda por que passa o protagonista. Na verdade, trata-se de um confronto com a morte que este sofre e, pelas imagens finais da obra, talvez esse confronto tenha tido um papel realmente libertador.

O rigor narrativo do filme é irrepreensível (eu diria que até é demasiado bem comportado perante as regras do storytelling, o que o leva a alguns clichés - mas quantas vezes já não vimos a cena do papa-milhas erótico que fica impotente no momento da foda com ternura?). O trabalho do ator Michael Fassbender joga pela mesma bitola. Mas, acima de tudo, Steve McQueen filma primorosamente, evitando decupagens gratuitas, aproveitando toda a expressividade possível de cada cenário, recuperando figurações pouco frequentes como os planos de costas, etc. Eu diria que ele tentou filmar o bloqueio relacional no seio de uma beleza, não tanto tecnológica (como Antonioni), mas vintage. Tudo é vintage neste filme, desde o prato para discos de vinil ao guarda-roupa de Sissy, dos arranha-céus à sensualidade do ator principal (basta comparar com bonecos de plástico como Brad Pitt ou Tom Cruise), da música de Bach ao azul da noite novaiorquina. Um mundo de bom gosto, onde tudo é sexy, tudo tem classe, mas onde tudo está podre.

Diria que a temática que une este filme à obra de estreia de McQueen ("Hunger") é a observação da degenerescência que acaba por atacar os impulsos mais legítimos da emancipação política moderna. No entanto, se no filme anterior se dava uma imagem ambivalente da militância política (e por isso era uma peça tão surpreendente e inquietante), neste constrói-se um retrato enojado da liberdade sexual. Ora, por muito que esta geração tenha de facto lidado mal com a alforria ética que recebeu, e por muito que haja freaks mórbidos que vão fazer de "Shame" uma obra de culto, a verdade é que não há ninguém que consiga afirmar, sem mentir para si próprio, que o sexo não é um dom bastante satisfatório. McQueen recuou na ambivalência e talvez tenha perdido sinceridade.

Contudo, depois de um filme nulo sobre Margaret Thatcher (com uma interpretação fabulosa de Meryl Streep, de resto), e depois de um "The artist" espertinho mas muito pouco inteligente, é um alívio ver uma coisa feita por gente que sabe o que está a fazer. Steve McQueen será dos pouco cineastas-narradores contemporâneos que talvez possa chegar à obra-prima.

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