sábado, março 31, 2012

Da originalidade

Não é assim tão raro quanto isso encontrar-se hoje a opinião (do criador ou do crítico) que postula o anacronismo ou a inutilidade do conceito de "originalidade". O conceito é normalmente remetido para o dogmatismo das estéticas de ascendência romântica, e defende-se que um autor como Camões, imitador severo de Petrarca, nunca se teria revisto num tal ideário.

Contudo, em vez de entendermos a originalidade como uma característica passageira de determinado "ismo" histórico, podemos assumi-la da mesma maneira que assumimos, por exemplo, o evolucionismo de Darwin. Ou seja, o romântico não teria inventado um valor que só possuiria significado no seu próprio tempo e no seu quadro cultural, mas teria antes descoberto uma característica definidora de todo o trabalho artístico, característica essa que anteriormente não estava consciencializada pelos criadores.

Na verdade, se Camões não fosse um autor original, seria ilegível no presente. É claro que, à semelhança do que aconteceu com o impressionismo na pintura (a descoberta de que toda a imagem é uma apropriação subjetiva dos dados oferecidos à visão levou a uma espécie de cientifização das técnicas destinadas a sugerir a impressão ótica), a passagem da originalidade à vanguarda saldou-se frequentemente por uma excessiva racionalidade programática. É também verdade que, quando uma lei é descoberta, há sempre a tentação de a cumprir por obediência ideológica e não por espontaneidade natural. Em todo o caso, o conceito de originalidade não tem uma definição fácil (haverá quem o considere apenas sinónimo de idiossincrasia).

No entanto, parece-me inevitável que a capacidade de comoção e comunicação que qualquer arte possui está dependente da constante renovação dos meios expressivos que ela tem ao seu alcance. E, como já escrevi uma vez neste blogue, quando todos os cientistas, médicos, empresários, militares, criminosos, filósofos ou publicitários tentam ser originais, seria notável que só os artistas estivessem isentos de aumentarem o campo de conhecimento das suas disciplinas específicas.

segunda-feira, março 26, 2012

domingo, março 25, 2012

Cadernos cinematográficos: prazer

A minha boa amiga Lina Marques Carvalho diz-me que, por vezes, vai ao cinema para se divertir e, outras vezes, cede à curiosidade de ver cinema de autor. Gosto muito da minha boa amiga, mas não consigo perceber o seu ponto de vista.

Ponto de vista que é, de resto, consensual. Manoel de Oliveira, odiado em terras lusas por fazer cinema sem concessões (se bem que, quando não fazia concessões nenhumas, o seu cinema era muito mais divertido - hoje, ele seria incapaz de fazer um filme de sete horas porque um determinado texto exigiria tal duração), Manoel de Oliveira, dizia eu, acha que há lugar para um cinema de entretenimento e para um cinema artístico. E numa entrevista recente, o também austero Aki Kaurismaki defendia que o cinema comercial era algo aceitável, pelo menos para a situação de ressaca após uma noite de copos.

Esta especialização do consumo estético não é mais do que uma variação do sonho antigo que todo o macho acalentava de casar com uma dama na mesa e uma puta na cama. Em termos que todos hoje possamos entender, digamos que a nossa cultura nos exige que sejamos sérios e competitivos no trabalho mas uns ganda-malucos na diversão noturna, promíscuos na adolescência mas fiéis no casamento, praguejadores entre rapazes mas elegantes entre raparigas, etc. A recusa da unidade do comportamento humano é um dado universal, pacificamente aceite e praticado. Com franqueza, tenho alguma dificuldade em adaptar-me a tal etnologia.

Tudo o que eu sempre esperei do cinema tem a ver com prazer. Desde a infância. Aliás, eu diria que o facto de o público em geral zurzir contra o cinema de autor é um elemento sociológico que deve ser entendido com otimismo: pelo menos, as pessoas continuam a esperar algo de genuíno do cinema, ao contrário do que acontece nas artes plásticas (para quando o documentário sobre Serralves mostrando os turistas a passearem-se por entre obras-primas e obras-tias como se fossem palácios a olharem para bois?).

O único fator de distinção da minha cinefilia tem a ver com a desmesura com que eu assumo esse prazer. Não faço o menor sacrifício para ver "La passion de Jeanne d'Arc" de Dreyer (e muito menos regresso ao filme para me cultivar intelectualmente). Simplesmente, sinto um prazer imenso em ver todos os passos que um ser humano tem de dar para se manter fiel ao seu sonho. Espero que não me tomem por um sádico: o prazer não me vem da dor estampada no rosto da Falconetti mas irradia do próprio sonho e da delícia inconsútil que uma ética rigorosa sempre serve àqueles que com ela são agraciados. Do mesmo modo, o que me dá prazer em "Il vangello secondo Matteo" de Pasolini é a beleza do rosto do protagonista, a sensualidade da cidade de Matera, o verbo bíblico, a grandeza certamente polémica de algumas ideias, etc. Diria mesmo que, à semelhança do que acontece no teatro de Tchékhov, só um filme que nos mostre uma luz tem o direito (e o dever) de revelar também a inevitável sombra que ela implica.

Dir-me-ão que o "Ocean's Eleven" e o "Rosetta" são exemplos muito diferentes de sétima arte. Mas o que neles é diferente é a gravidade do universo humano que abordam, e não o "tipo de cinema" que praticam. Pelo menos assim o entendo. Nunca me passaria pela cabeça (pelo menos nesta fase da minha vida) ir ver um filme por razões éticas, culturais ou de diferenciação social. Penso que, assim como há melhores maneiras de javardar do que a trip de pipocas e efeitos especiais, há também modos mais relevantes, úteis e nobres de praticar a cidadania do que fechar-se numa sala escura que se parece mais com o quarto de dormir e foder do que com o ágora onde a democracia se debate.

Não vale a pena estar sempre a bater na vista grossa de autores como Hitchcock ou Almodóvar, porque não são só eles que conseguiram unificar seriedade e prazer. Todo o cineasta digno de nota me parece almejar essa fusão inquieta e imperfeita. Não há "Persona" sem a beleza de Bibi Andersson, nem "Pickpocket" sem fascínio pela coreografia do carteirista. Simplesmente, como "a filmmaker gotta do what a filmmaker gotta do", nem todos estes amantes das imagens em movimento conseguiram tornar-se modelos de box office. Mas isso é uma questão de sociologia (e de contabilidade capitalista), não de cinema.

Nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado, filmes como "A splendor in the grass", "Jules et Jim", "La dolce vita", "Mon oncle" ou "Blow up" pareciam conseguir equilibrar a seriedade absoluta dos seus propósitos e a função social do cinema. Hoje, o cinema não tem essa função social. Quando vou ver os chamados filmes de entretenimento (que me aborrecem de morte), sinto que me estão a piscar o olho à la José Rodrigues dos Santos, como quando um chato de um vendedor aborda um potencial seu cliente tentando-o fazer-se sentir parte de uma generalidade vaga e inquestionável. Quando os espetadores começarem a ir ao cinema com o desejo de que os filmes falem deles mesmos, dos seus prazeres, sonhos, medos, falhanços e memórias, vão mandar à merda tanto o Weerasethakul como Hollywood. Há quem se divirta com pipocas, há quem exija nada menos que um banquete.

domingo, março 18, 2012

Partilha 136

voz de jeremy irons



(e=71)

tenho todo um tempo de juventude
polido no vazio
(em deserto)..........................

talvez tal exceção
me dê direito a um voucher
com um temporada num hotel
do lido de veneza
um desses
com praias exclusivas
onde até o clima deve ser mais fresco
e as brisas aquecidas

em todo o caso
esse tempo assim precioso
pretendo usá-lo no céu
como um diamante de sangue

não porque os sofrimentos sejam comparáveis
é mas é o céu
que é bem menor do que o mediterrâneo
e os que nele se perdem não conhecem
a raça da sua infância
a classe do seu anseio
[ou orientação de dor]

quinta-feira, março 08, 2012

"Shame" - imagem


O ATUAL 33

"Shame" - Steve McQueen


Os universos de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni permanecem dois dos modelos cinematográficos mais produtivos na contemporaneidade. O segundo filme do artista plástico Steve McQueen (definitivamente um cineasta) segue o sueco no seu estudo do bloqueio psíquico (e da necessidade de um choque para o desfazer ou pelo menos atenuar) e segue o italiano enquanto observador da incomunicabilidade sentimental em cenário de beleza urbana.

Apesar de ser uma das facilidades mais antigas do mundo, nem sempre é sem sofrimento que se converte o desejo sexual, por definição prolixo e disperso, numa fé fraternal (ou seja, em amor). O que incomoda Brandon na presença da sua irmã é o facto de ela precisamente lhe fazer lembrar essa dimensão fraternal que, algures no percurso da sua vida, o terá abandonado num deserto de erotismo desenfreado. Quando Sissy canta "New York, New York" (numa versão tristíssima), ela dá, de si e do seu irmão, um retrato de emigrantes, não tanto da Irlanda (embora isso seja verdade), mas da infância comum. Emigrantes fascinados pela cidade que nunca dorme (há apenas duas sequências diurnas de exteriores, e em ambas o simbolismo é evidente), mas que os devorou no seu cocktail explosivo de capitalismo e frieza emocional.

Apesar de este ser um filme empenhado na montagem paralela, o paralelismo mais importante que ele oferece estabelece-se entre uma cena que não se vê (a tentativa de suicídio da irmã) e a descida aos infernos da foda por que passa o protagonista. Na verdade, trata-se de um confronto com a morte que este sofre e, pelas imagens finais da obra, talvez esse confronto tenha tido um papel realmente libertador.

O rigor narrativo do filme é irrepreensível (eu diria que até é demasiado bem comportado perante as regras do storytelling, o que o leva a alguns clichés - mas quantas vezes já não vimos a cena do papa-milhas erótico que fica impotente no momento da foda com ternura?). O trabalho do ator Michael Fassbender joga pela mesma bitola. Mas, acima de tudo, Steve McQueen filma primorosamente, evitando decupagens gratuitas, aproveitando toda a expressividade possível de cada cenário, recuperando figurações pouco frequentes como os planos de costas, etc. Eu diria que ele tentou filmar o bloqueio relacional no seio de uma beleza, não tanto tecnológica (como Antonioni), mas vintage. Tudo é vintage neste filme, desde o prato para discos de vinil ao guarda-roupa de Sissy, dos arranha-céus à sensualidade do ator principal (basta comparar com bonecos de plástico como Brad Pitt ou Tom Cruise), da música de Bach ao azul da noite novaiorquina. Um mundo de bom gosto, onde tudo é sexy, tudo tem classe, mas onde tudo está podre.

Diria que a temática que une este filme à obra de estreia de McQueen ("Hunger") é a observação da degenerescência que acaba por atacar os impulsos mais legítimos da emancipação política moderna. No entanto, se no filme anterior se dava uma imagem ambivalente da militância política (e por isso era uma peça tão surpreendente e inquietante), neste constrói-se um retrato enojado da liberdade sexual. Ora, por muito que esta geração tenha de facto lidado mal com a alforria ética que recebeu, e por muito que haja freaks mórbidos que vão fazer de "Shame" uma obra de culto, a verdade é que não há ninguém que consiga afirmar, sem mentir para si próprio, que o sexo não é um dom bastante satisfatório. McQueen recuou na ambivalência e talvez tenha perdido sinceridade.

Contudo, depois de um filme nulo sobre Margaret Thatcher (com uma interpretação fabulosa de Meryl Streep, de resto), e depois de um "The artist" espertinho mas muito pouco inteligente, é um alívio ver uma coisa feita por gente que sabe o que está a fazer. Steve McQueen será dos pouco cineastas-narradores contemporâneos que talvez possa chegar à obra-prima.

sexta-feira, março 02, 2012