domingo, fevereiro 12, 2012

Cadernos cinematográficos: montagem

Li, certa vez, uma entrevista de um escritor brasileiro na qual este assumia que, ao decidir dedicar-se à escrita de haikus, tinha investigado tudo o que podia ser investigado sobre o assunto de modo a conseguir aproximar-se aos poucos do virtuosismo especificamente nipónico na abordagem desta forma poética. Senti-me algo humilhado dada a relativa leviandade com que sempre assumo um "fazer" (subitamente, senti que os meus próprios haikus talvez não pudessem ser classificados enquanto tais), mas a verdade é que não consigo funcionar de uma outra maneira. Não por irresponsabilidade, mas porque me recuso, visceral e profundamente, a tornar-me um virtuoso ou um especialista seja do que for. A prática historicamente informada do haiku é apenas um exemplo. O piano de concerto, o ballet, a ginástica rítmica, a cerimónia do chá, a montagem cinematográfica: ainda que não seja punk ou dadá, a minha costela anárquica não quer que eu contorcione o meu espírito de modo a poder emular na perfeição um gesto de complexidade rigorosamente codificada e vigiada. Retirei do super ego a velhinha inglesa da Royal Academy of Dance que vem avaliar os meus ports de bras e os meus pas de chat. Mais depressa inventava uma ciência como Jarry do que ia estudar para Oxford ou para Harvard.

Uma das coisas que mais me repelem no cinema standard (o que significa sempre "cinema de influência hollywoodiana") é o tipo de montagem que este exige. Não me parece nada uma prática de fácil compreensão ou execução, muito pelo contrário. É preciso aprender com esforço a montar "em continuidade", como se aprende uma língua não natal ou o repertório de movimentos do teatro nô. A liberdade criativa reconhecível num trabalho como o de Thelma Schoonmaker / Martin Scorsese só surge após uma longa conjugalidade com um determinado sistema de regras e de hábitos. Muito francamente, nunca percebi essas regras e esses hábitos (como não percebo futebol ou as virtualidades dos jogos de espelhos). Para os dominar, parece-me que teria de violar parte da minha integridade intelectual (não estou a falar de ética, mas da inteireza dinâmica dos meus processos mentais). O que seria mais violento para mim: emigrar para um país nórdico, casar por dinheiro ou dominar os processos da découpage cinematográfica tradicional? Não sei, não sei mesmo.

Lembro-me de alguém me dizer que, em "Le voyage dans la lune" de Georges Méliès, não havia ainda as preocupações de raccord que viriam a dominar posteriormente, e de modo obsessivo, a gramática da montagem cinematográfica. A história do cinema poderia ter sido outra, portanto: se já se consegue hoje reconhecer um conjunto de padrões que se repetem em quase todas as línguas de todos os tempos e lugares (por exemplo, a diferença entre perfectivo e imperfectivo), não é o pouco mais de um século de cinema que consegue garantir a Verdade de todas as convenções até agora preguiçosa e comummente aceites. Acima de tudo, não precisamos de recorrer todos às mesmas soluções para os mesmos problemas, pois só os problemas são universais.

Apesar de eu ter a perfeita noção de que toda a obra tem de evidenciar elementos de continuidade que a tornem legível e coesa, estou muito mais interessado naquilo que se modifica com o corte de um plano num plano subsequente do que naquilo que se mantém. Talvez seja mais verdadeiro de um ponto de vista filosófico, mas será com toda a certeza muito mais divertido. Não sei onde esta curiosidade me vai levar (se é que me vai levar a sítio algum), mas sei que ela é o princípio fundador da minha relação com o cinema.

Sem comentários: