segunda-feira, janeiro 23, 2012

"Adieu, plancher des vaches!" - imagem


O INATUAL 44 (bis)

"Adieu, plancher des vaches!" - Otar Iosseliani (1999)



(Já tinha falado deste filme aqui, mas uma revisão recente fez-me entendê-lo de uma outra forma, e por isso a ele regresso)

A um dado momento de "Adeus, terra firme", o seu jovem protagonista aponta para um helicóptero que o sobrevoa e diz: "É a minha mãe". A cena tanto pode ser freudiana (lembra o segmento de Woody Allen em "New York Stories") como fantasista. Na verdade, os seres que, no filme, coagem a liberdade dos outros não são menos excêntricos do que eles: o superego tem aqui direito a uma representação para-onírica.

Iosseliani é tão distanciado que parece quase promover uma equivalência amoral entre os vários pólos da sua ficção: desejo de fuga, desejo sexual, crime, preguiça, amizade... O georgiano exilado em Paris filma os seres humanos com aquele grau de obliquidade burlesca que faz com que, na aparência dos seus gestos reconhecíveis, se instaure uma camada de estranheza fascinante. A uma dada altura, todos os malucos do filme parecem ser tão aberrantemente coloridos quanto os dois negros que se passeiam pelo bairro.

É o mesmo gesto criativo de "Et la lumière fut", a invenção de uma cultura social ao mesmo tempo plausível e poeticamente jocosa. De facto, frequentemente as pessoas tentam iludir os outros quanto à sua classe social. Mas não o fazem como o operário deste filme, que vive num buraco onde pouco mais tem do que um fato chique, que tem um amigo que lhe empresta uma mota de alto gabarito, um outro que lhe empresta as chaves de um iate de luxo, e assim consegue levar a bom porto as suas investidas de sedução erótica.

Conhecedor do horror soviético, Iosseliani tem noção de que o capitalismo oferece alguns mecanismos de escape àqueles que vivem sob as suas regras. E filma esses mecanismos (o golpe permanente que é o trabalho de mendigo, por exemplo) com a inevitável dose de maravilhoso com que eles se evidenciam. No entanto, gulags à parte, a diferença entre o mundo liberal e a distopia comunista é que aqui, na democracia do ocidente, quem nos fode tem bom ar. A nossa mãe castradora tem cabelo vermelho, canta Schubert, convive com uma ave enorme, desloca-se de helicóptero e não é sexualmente inibida.

Estaremos verdadeiramente na posse da liberdade que nos garantem os arautos da sociedade contemporânea? Quando o protagonista é preso durante algum tempo, algo se altera profundamente nele que o faz abandonar a referência anárquica do pai (representado pelo próprio realizador) a favor da ética de hipocrisia da mãe. O seu mundo parece até ter acabado (as relações sociais descritas ao longo do filme foram em grande parte substituídas por outras). As derrotas são imensas e injustas: a rapariga amada casa com o rival cínico, o assassino fica judicialmente ileso, a criada é despedida... E o rapaz acaba por não aguentar o mundo absurdo dos negócios e das conveniências e torna-se tão alcoólico quanto o pai.

A liberdade talvez não passe de um estado interior (um olhar, aquele que demiurgicamente criara a etnografia da primeira parte do filme). A viagem do velho e do seu amigo vagabundo não tem nenhuma verosimilhança porque é, na verdade, uma metáfora. Mas não tomemos Iosseliani por um louco feliz: em "Chantrapas", a evasão aproxima-se perigosamente da figuração do suicídio.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

"Et la lumière fut" - imagem


O INATUAL 72

"Et la lumière fut" - Otar Iosseliani (1989)



Poderá o homem, no início de cada dia, ter a mesma liberdade de que Deus gozou no início do mundo? Iosseliani assume-se como um demiurgo e inventa a hipotética cultura de uma tribo africana que, dada a resistência da sua superfície aos critérios da modernidade ocidental, pode ser convenientemente assimilada a uma antiguidade originária. Apesar de não ser mais do que um exercício de antropologia inventada, esta liberdade de fantasiar todo um modelo de relações sociais está contudo em íntimo acordo com a antropologia verdadeira, essa ciência cujo trabalho de campo confirmou a eficácia real de outros sistemas de sociabilização do humano.

Ora, se os rituais encenados pelo metteur en scène podem passar por verdades documentais aos olhos do espetador distraído, como podemos acreditar piamente nas normas da religião ou da política a que o mundo civilizado presta culto? Nas mãos de Iosseliani, o "fazer luz" promove a convergência natural entre a pura criatividade e a distância crítica: uma espécie de iluminismo, portanto.

Como nenhum demiurgo pode deixar de criar segundo a verdade, o realizador revoluciona o que é revolucionável (inverte alguns dos papéis normalmente assumidos por homens e por mulheres, flexibiliza a moral sexual) e submete-se àquilo que é fatal: a discórdia. Aliás, Deus himself não conseguiu parir um universo sem mal. Em "Et la lumière fut", a condenação de uma anciã ao exílio (se é que apenas de exílio se trata...) pelo simples facto de que vai um nascer um bebé que terá o seu nome e só pode haver um exemplar de cada nome na aldeia, é um momento de profundíssima crueldade, mas uma crueldade tão natural que chega a parecer bela (só posso dizer isto a propósito de um outro filme, "Il bidone" de Fellini).

Quando, no fim da obra, um casal põe à venda as imagens dos deuses pelos quais a aldeia, finalmente destruída pela fome dos arroteadores de florestas, nutria uma verdadeira fé, o que eles estão a vender é a magia da sua cultura, ou seja, a sua idiossincrasia sociológica. É claro que é também um sinal de que os cineastas estão sempre em processo de prostituição, mas Iosseliani, desiludido com as férreas culturas dos dois lados da cortina ferro que tão bem conheceu, lá foi conseguindo filmar aquilo que sempre lhe interessou: o fim dos mundos. Não há luz que não dê em incêndio: poderia ser um provérbio destes indígenas do cinema que terminam cada um dos seus dias com a contemplação do pôr-do-sol.

Cadernos antropológicos 1

Não vale a pena ter uma conceção teleológica da história.

Basicamente, é assim. Na natureza tudo se passa sem tragédia: predadores, sobreviventes, amantes, viajantes, gregários, cadáveres. Quando o homem adquiriu sapiência, ou seja, quando aprendeu a distanciar-se dos objetos que o sugestionavam para lhes poder modificar o destino (milagre que deverá ter sido mais ou menos contemporâneo da descoberta da "palavra", que é a única tecnologia de ponta a que sempre pudemos recorrer), a partir de então o homem conseguiu domesticar a histeria da sobrevivência (por exemplo, através da agricultura e da pastorícia) ao mesmo tempo que forjou toda uma cultura capaz de criar, para a sua própria espécie, um inferno trágico que permanece desconhecido da natureza.

Talvez a civilização não seja mais do que a bola de neve dos primeiros erros intelectuais que se tornou uma avalancha de cegueira. Não sou, contudo, nada favorável à ideia de regresso à selvajaria. Até porque pressinto que um mundo melhor (não um Paraíso) permanece ao nosso alcance: basta conhecer a verdadeira natureza da linguagem, fazer da filosofia o centro da nossa atividade (ou seja, questionar tudo até ao tutano), apostar naquelas conquistas culturais que estão do lado inequívoco da felicidade, não ter medo de recomeçar (como o sol recomeça todos os dias), etc.

Mas não, o mundo é gerido pela troika.

sábado, janeiro 14, 2012

Partilha 134

voz de cecilia bartoli



(e= 82)


nem sabes o trabalho que te vou dar
se me quiseres pôr nos píncaros

vais ter de me levar ao colo
como se eu fosse uma noiva preguiçosa
(já peso mais de noventa quilos)
em zonas de oxigenação duvidosa
exigirei respiração boca a boca
(tudo o que seja preciso
para fazer espécie
e não fazer o género)
e quando me julgares na crista de um tsunami
verás como é efémero
o branco pré-reverso


 
detesto poetas mariquinhas
que só ficam felizes se lhes fizerem
festinhas
e lhes disserem
"muito bem!"...........................

se ninguém alguma vez ler este poema
espero ao menos que deus não exista
[o que eu quero é ir passar dois dias
com o marky mark
a bora bora:
deixo isso ao cuidado das academias]

domingo, janeiro 08, 2012

"Mon oncle" - imagem


O INATUAL 71

"Mon oncle" - Jacques Tati (1958)



A inadaptação do indivíduo à tecnologia foi um dos temas mais caros aos cineastas que se dedicaram à comédia burlesca. Mas o opinion maker contemporâneo será demasiado apressado se os acusar de reacionarismo. Na verdade, quem se presta ao cinema sabe que a sua matéria de trabalho é uma cereja no topo do bolo da história da técnica. Ainda por cima, esses realizadores sempre foram exímios no congeminar de verdadeiros cenários-máquinas para as suas produções (basta lembrar "The general", "Modern times" ou "Playtime").

O que parece inquietar Buster Keaton, Charles Chaplin ou o mais tardio Jacques Tati, é a tentativa de mutação antropológica que a hipertecnologia tem vontade de descontroladamente infligir à espécie que a engendrou (preocupação expressa de forma mais grosseira nas fantasias populares sobre motins de robôs). Qual a diferença entre o percurso semilabiríntico que o senhor Hulot tem de fazer na sua tosca casa e aquele a que a sua irmã e a vizinha desta são obrigadas na habitação da alta burguesia moderna? Aquele é solidário da poesia, este degenera em absoluto ridículo: algum equilíbrio foi quebrado na cadeia do fazer, da "poiesis". Hulot consegue, com a simples orientação do reflexo da luz solar num vidro da janela da sua casa, pôr um pássaro engaiolado a cantar. Para Tati (para mim também), isto é tecnologia de ponta.

O senhor Hulot é o cão vadio que ladra ao peixe morto no início do filme (peixe que ressurgirá como evidência de sucesso social na mansão da sua irmã). Hulot é uma criança. A encenação que engendrou "Mon oncle" é um prolongamento exato do conceito de patifaria. Note-se como, para responder à vaidade que a senhora burguesa tem no facto de que, na sua casa, tudo comunica, Tati faz o seu irritante repuxo esguichar em vários cantos do jardim durante a garden party: na verdade, tudo comunica! Isto é apenas o exemplo mais exuberante, já que o filme todo se organiza em torno desta atitude.

Se os putos disfarçam a sua traquinice, Hulot nunca é realmente culpado de nada. Ora, sendo o ator que o interpreta a mesma pessoa que realiza o filme, é forçoso notar-se a décalage entre a pureza do personagem e a matreirice do autor. É que se as crianças têm o talento natural para serem crianças, a infantilidade que persiste nos adultos tende a funcionar como uma patologia cujas repercussões não são brincadeira nenhuma. Para manter uma puerilidade saudável durante a vida madura, é preciso reaprender a infância, adaptá-la, selecionar o que faz a sua beleza e a sua verdade: é preciso encená-la. Todo o projeto cinematográfico de Tati, culminando na magistral cena do carrossel de trânsito de "Playtime", gira em torno desse separar das águas entre o bom sentido e o mau sentido dos dentes de leite (dentes que, como se sabe, são os únicos que não caem).

Tati vem trazer um pouco de luz a um mundo aprisionado (no fim do filme, o pai do miúdo aprende a maneira irreverente que lhe permite relacionar-se com ele). Mas não há nenhum paternalismo no seu gesto. Ele é apenas um tio que gostaria que a humanidade sua sobrinha fosse um pouco mais livre.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Coisas que só agora sei

Após o falecimento de alguém, há um conjunto de rituais que têm de ser cumpridos pelos seus próximos. Desde os mais imediatos (o velório, o funeral) aos mais insensíveis (a habilitação de herdeiros, a cessação de contas nos bancos), ninguém parece conseguir escusar-se ao seu cumprimento, independentemente de estado de dor, atitude religiosa ou inquietude anárquica.

Presumo que esses ritos sejam uma herança laica, higiénica e burocrática das reações dos homens primitivos perante o fenómeno da morte. Será fácil concluir que a sobrevivência religiosa se faz à custa de efetivo fervor e haverá mesmo quem esteja convencido da utilidade inequívoca dos procedimentos legais que o Estado moderno impõe aos enlutados relutantes.

No entanto, antes de concluirmos por uma tese de rutura, seria talvez melhor pensarmos que, desde que a nossa espécie tomou consciência da sua condição biológica, os rituais que todas as culturas fazem acontecer no rescaldo de uma morte são menos manifestações de uma metafísica espontânea do que uma forma muito eficaz (e desesperada) que o homem encontrou para não atingir a plena noção emocional da perda que acabou de sofrer. That's entertainment. Depois, o tempo faz o seu trabalho de pirâmide.