segunda-feira, outubro 17, 2011

O amor aos livros (recordações)

1. Com onze anos de idade, parti um pé, o que me fez naufragar no calor das margens da piscina da Granja, enquanto toda a outra gente, absurdamente sem um gesso de castidade, se empanturrava com a água fresca e provavelmente mijada de que os verões da minha infância se alimentavam. Para me entreter, levava para o tédio humilhado uma edição de "Os Lusíadas" do tempo em que os meus pais, forçados pelo estudo, tinham fingido ler "Os Lusíadas".

A minha mãe dizia a toda a gente que eu estava a ler a epopeia da raça com umas magras onze primaveras (quanto mais primavera, mais se lhe rima - diz o povo). Eu não confirmava nem desmentia: lia era as notas do volume, que falavam de deuses, heróis, prodígios, fantasias, toda uma mitologia clássica que foi a minha bd de nerd e a minha decisiva literatura infantil. E era só isso que eu lia, e muito isso contribuiu para o meu amor pelos livros.

Claro que os meus companheiros de pré-parvoeira me achavam uma abécula social. Teriam a sua razão, mas hoje importa-me muito menos o anátema do que a inexatidão do seu teor.


2. Outra aventura foi um "Evangelho" (livro sagrado, diz-se) que havia lá por casa, verde por fora, maduro por dentro. Estava separado da árvore-bíblia. Risquei-o de uma ponta à outra, com palavreado infantil e completamente à margem do assunto em epígrafe civilizacional. Ainda hoje sinto a volúpia de ter escrito (n)um livro comme il faut, e chego a pensar que nesse ato de vandalismo terno (ninguém me chateou) está a primeira pedra das minhas futuras veleidades de auto-edição. Educadores de todo o mundo, desuni-vos.

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