quinta-feira, setembro 08, 2011

Notas sobre o futuro do haiku

Sou tão favorável à criação de novas formas poéticas como à reinvenção de velharias conceptuais. Com a possibilidade de edição para breve de um livro de pseudo-haikus (de mutações do haiku destinadas a pôr os japoneses de olhos em bico), ressurgiu-me o amor por essa forma breve e idiossincrática.

Considero agora que, assim como um soneto talvez deva conservar o seu travo italiano ou, pelo menos, meridional, também o trabalho de alargamento das possibilidades do haiku se deve manter fiel a alguns elementos da sua essência historicamente consignada.


1. Como é óbvio, não há qualquer semelhança entre uma sílaba métrica portuguesa e uma sílaba métrica japonesa. A famosa tripartição do haiku (cinco, sete, cinco sílabas) não precisa de corresponder a igual esquema métrico num poema desse género escrito em português (porque o resultado não se equipara). Curiosamente, a obediência ao espartilho formal obriga a uma tonalidade sintética que pelo menos se aproxima bastante daquela que se derrama dos textos nipónicos. 

No entanto, há que reconhecer a estranha coincidência de essas duas tipologias métricas corresponderem a dois dos versos mais célebres da história da poesia portuguesa: a redondilha menor e a redondilha maior. A escrita de haikus portugueses obedecendo a tal coincidência numerológica poderá eventualmente levar a resultados tão curiosos quanto harmoniosos.


2. A filosofia implícita no haiku pode resumir-se à ideia de que o eterno retorno das realidades naturais-temporais que ultrapassam o humano confere uma serenidade que de algum modo compensa a transitoriedade da vida terrena. O eterno retorno, no haiku, é principalmente sinalizado pelo tema das estações (que, no Japão, são cinco: para além das habituais, o Ano Novo). 

Ora, não é preciso ficarmos presos a esse tipo de rotatividade (embora não precisemos de o abandonar). Há todo um tipo de eventos cíclicos nas nossas vidas (urbaníssimas e moderníssimas) que, mantendo o essencial daquela aceitação filosófica, podem abrir o escopo temático do género (se nem sempre esses eventos ultrapassam o "humano", podem pelo menos estar para lá da força do "indivíduo"). Surgirão haikus agregados em temas como: a festa de São João do Porto, o regresso às aulas, o Natal, o divertimento de sábado à noite, a doença crónica, o movimento das carruagens do metro, a feira da ladra, até coisas bem mais rápidas como o movimento do carrossel ou dos ponteiros do relógio...


3. A palavra "kigo" é obrigatória na escrita de um haiku. É uma palavra escolhida num almanaque que, convencional e aprioristicamente, define a sua relação com uma estação do ano (por exemplo, a "lua" costuma ser associada ao outono). 

Como desafio, o escritor contemporâneo de haikus pode tentar tornar absolutamente explícito o elemento de eterno retorno que fundamenta o seu texto (a primavera, as férias na casa de campo seja em que estação for, os aviões voando em horários previsíveis), mas elidindo a palavra "kigo".


4. Por fim, o escritor de haikus numa língua como o português pode sempre associar-se a um artista plástico para que este crie uma caligrafia inventada e secreta que ornamente o texto e lhe abra inusitadas significações plásticas. Ana Hatherly talvez o fizesse.

Sem comentários: