quinta-feira, setembro 29, 2011

Nota "Midnight in Paris"

No seu último filme, Woody Allen coloca o seu esqueleto-de-argumento habitual (relação amorosa, seguida de desfazer dessa relação, seguido de nova relação amorosa) sob a égide da sua já longínqua obra-prima "The purple rose of Cairo", ou seja, sob a égide da fantasia

Sei por experiência própria que não é possível voltar a um lugar criativo aonde se foi feliz. E a verdade é que a genealogia de fantasias sentimentais de Allen vem acusando uma inevitável degenerescência ("Alice" já não é tão encantador quanto "The purple...", "Everybody says I love you" já perde terreno para "Alice"...). Há cineastas de sucesso no espaço da cultura anglo-saxónica que estimo muito menos do que Allen, mas que têm o mérito de, pelo menos, tentarem não se repetir (desde Spielberg a Tarantino, passando por Tim Burton...).

O problema em "Midnight in Paris" é que não se pode fazer o mesmo discurso sobre o cinema escapista do passado hollywoodiano e sobre a cultura dita canónica. Woody Allen pretende partilhar, sob uma forma paródica, a ideia de que a cultura é útil para a ação consciente do indivíduo. A cena (a muito custo) cómica em que o escritor rompe com a sua noiva porque o Hemingway lhe disse isto e o Fitzgerald lhe disse aquilo e etc., está, exatamente como acontecia em "The purple rose...", a tomar à letra uma metáfora (neste caso, a da voz amiga de um Autor). 

Mas reduzir o Hemingway a um conjunto de frases que ele só poderia ter pronunciado a título de cliché póstumo, o Dali a um tolinho, a Gertrude Stein à Kathy Bates, isso equivale ao esforço daquelas pessoas que visitam o Louvre de patins (e nem sequer vêem a Gioconda por causa da enchente de japoneses e suas máquinas fotográficas). "Midnight in Paris" não é apenas um conjunto de postais sobre Paris, é também uma coleção de cromos de alta cultura, que podem ser partilhados pelo turista especializado na Europa em jeito de "falta-me este", "este já há". Venha o Greenaway, venha o Godard, venha o Barthes, venham os Dadaístas, venha o Andy Warhol, venham os irmãos Marx, tudo menos esta preguiça boçal. Pela primeira vez na vida, considerei a hipótese de não voltar a ver nenhum filme novo de Woody Allen.

2 comentários:

Nalitzis Krpan disse...

Parece-me severo esperar-se deste woody allen uma análise coerente e exaustiva de todas as figuras que surgem no filme. parece-me óbvio que só poderiam ser pequenos ícones, sensivelmente caricaturais - só assim se entende o "desplante" de sugerir ao buñuel um filme do buñuel. acho até que é essa uma das essências desta comédia: a pris do woody é quase melosa, tonta, suave, cómica, deliciosamente louca. o woody fez só um filme à imagem da cidade que imagina (digo eu, que posso estar redondamente enganado e afinal o woody só queria mesmo sacar uns dólares com a reciclagem).

fora isso, não me leve a mal mas acho a sua última frase de uma hilariante e involuntária ironia. "Pela primeira vez na vida, considerei a hipótese de não voltar a ver nenhum filme novo de Woody Allen." se calhar até é algum gesto soberbo de meta-ironia da sua parte, mas a temática do antigamente é que era bom é todo o motor do filme. se isso não é o saudosismo de que o woody falava no filme, não sei que será.

Pedro Ludgero disse...

Caro Nalitzis,

Eu não disse que o Woody Allen deveria fazer "uma análise coerente e exaustiva de todas as figuras que surgem no filme". Disse, isso sim, que o discurso sobre cinema de evasão não se pode assemelhar ao discurso sobre Buñuel, Picasso, Hemingway, etc. Se o realizador queria fazer sínteses "estenográficas" das figuras em questão, poderia tê-las feito com a devida propriedade. Da maneira como o fez, isto não passa de um divertimento de burguês com complexos de cultura.

Não acho, contudo, que Allen seja um comerciante. Parece-me antes um preguiçoso em piloto automático e com medo de ser radical. Poderia fazer filmes muito melhores. Era capaz de lho dizer na cara, porque, no fundo, o admiro imenso.

Quanto à sua última acusação, dou-lhe os parabéns pela estratégia de guerrilha, mas não enfio a carapuça. Adoro o cinema dos anos 20, 50, 60 e 70, detesto o cinema dos anos 30 e 80... Acredito em colheitas, só isso. O Woody Allen está um caos, no presente (mas também o Scorsese, o Almodóvar ou o Wim Wenders). De resto, adoro música antiga e ficção científica...

A temática da "idade do ouro" é muito pouco contemporânea e muito pouco interessante. Não sei em que mundo vive o Woody Allen (ou o Nalitzis Krpan), mas eu não conheço,no presente, muita gente nostálgica do passado. Ainda se houvesse aqui uma intenção política, seria interessante. Mas não há, é apenas um "tema" que o Woody Allen resolveu adoptar por capricho.

Convido-o a comentar o meu blogue quando tiver concordado com algum post. Sou mais favorável à convergência do que ao confronto.