sábado, agosto 20, 2011

O INATUAL 66

"Los olvidados" - Luis Buñuel (1950)



Tendemos a supor que o onirismo (palavra de costas largas e dada a todo o tipo de equívocos) implica uma recusa ou uma substituição da realidade. Mas não é necessário que assim seja: no final de "Playtime", Jacques Tati enquadra os mastros dos candeeiros de iluminação pública de maneira a que eles pareçam buquês de flores.

Em "Los olvidados", Buñuel assume uma opção política ao nível do enquadramento: a sua câmara não registará a parte limpa, rica e vistosa da cidade do México, mas os bairros onde grassa a miséria. Isso permite-lhe construir um documento no qual é difícil distinguir a denúncia social da estética surrealista: é todo um mundo de brutos, estropiados, cegos, de crendices e violências, com um bestiário impressionante como pano de fundo.

Ao contrário do que normalmente acontece nos discursos cristão e comunista (em "Accattone", Pasolini filma os excluídos como se fossem anjos), o cineasta espanhol não tem contemplações para com a miséria: o miserável é, aqui, um animal. Menos e mais do que uma metáfora, esta visão materializa a impossibilidade e a inutilidade da moral (que não será a moral religiosa mas a de um civismo esclarecido) abaixo de um certo nível de indigência: o bom comportamento de Julian, a perfídia de Jaibo ou a hesitação de Pedro têm todas o mesmo desfecho trágico e prematuro. Quando a o animal é o ponto de chegada de uma sociedade, a sobrevivência confunde-se com a morte.

A possibilidade de sonhar (quando dormimos), pelo contrário, liberta, num dos personagens, a necessidade de maternidade e, por extensão, do erotismo heterossexual (aquele que interessava a Buñuel). Neste caso, o animal (o inconsciente) é um ponto de partida que se identifica com a plena vitalidade. Na cena célebre em que Pedro atira um ovo à própria câmara de filmar, ele está a assumir a sua condição de pintainho abandonado. Parece que, nas entrelinhas, se percebe aqui que o que é verdadeiramente estranho não é o surrealismo...

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