sexta-feira, agosto 26, 2011

Cromos de qualidade

A BBC produziu recentemente uma série de reportagens que acompanham o percurso de milionários britânicos enquanto eles experimentam a vida dos sem-abrigo durante alguns dias. Vi algumas sequências, não o devia ter feito e tenho raiva de quem assistiu à coisa até ao fim.

Em primeiro lugar, a imaginação humana é suficiente para que, quem pretender ter uma intervenção ao nível da cidadania, o possa fazer com razoável consciência da gravidade da situação na qual está a intervir.

Depois, o tom da experiência é o de umas férias super-radicais, com pano de fundo caritativo (esta inversão de posições é, aliás, um tema clássico da comédia). A moralidade aqui investida é, pelo menos, ambígua.

Mais importante ainda, toda a nossa experiência existencial está indexada ao fator "esperança". Pelo que não é possível sabermos de facto o que é determinado tipo de vida se, no horizonte do curto prazo, tivermos a certeza de que podemos regressar ilesos ao nosso conforto prévio. Os senhores milionários não aprenderão nada, porque nada se pode aprender sem o sofrimento pelo futuro.

Haverá, com toda a certeza, ilhas por comprar, quadros por leiloar ou iates por afundar, para que suas excelências se entretenham com mais propriedade.

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