sábado, agosto 20, 2011

Adenda a "O INATUAL 64"

Quando, a propósito do filme "RR" de James Benning, eu afirmo que a temporalidade distendida trabalhada pelo cineasta liberta o olhar do espetador dos condicionalismos que lhe são impostos pelo movimento dos comboios na imagem, eu estou a referir duas operações concretas:


1.
Como a maior parte dos comboios filmados são muito compridos, e o realizador só aceita terminar o plano quando a última carruagem de cada veículo abandona o enquadramento, os planos tendem a ter uma duração excessiva por comparação com a ação única que os compõe. A partir do momento que o espetador já se apercebeu do conteúdo da imagem, e da relativa monotonia que compõe a sua emoção, o olhar pode começar a divagar pelo quadro cinematográfico para desvendar pormenores (aparentemente) secundários. Isto é impossível na maioria dos filmes.

2.
Bastante mais importante ainda, quando o espetador sente a dimensão de esforço que lhe é requerida pela atenção, toma consciência das especificidades da sua faculdade visual (dos seus ritmos, hábitos, desejos). Ou seja, o olhar passa a olhar-se a si mesmo, num processo de distanciação que permite aquele tipo de lucidez que pode estar na génese de um processo libertário: logo que eu tomo consciência do meu olhar, eu posso pensá-lo, eu posso emancipá-lo.

Sem comentários: