domingo, junho 12, 2011

O INACTUAL 61

"Love streams" - John Cassavetes (1984)



Um texto desfigurado pela própria celebridade, como o "Romeo and Juliet" de William Shakespeare, corre o permanente risco do seu vigor polémico ser subjugado pelo folclore de lugares comuns e não-lugares mediáticos que se cristalizam em torno de si. Pois se o drama isabelino costuma ser entendido como uma muito bem contada anedota sobre uma paixão tornada impossível, ele talvez consiga arcar com outros níveis de leitura. Podemos desde logo supor que toda aquela inimizade que rodeia o projecto sentimental dos dois jovens veronenses a despeito da sua própria vontade, é uma alegoria sobre a dificuldade invencível do amor, sobre o combate que se estabelece entre o passado dos amantes quando, teimosos, eles tentam construir um futuro em comum.

Algo semelhante terá tentado o actor-realizador John Cassavetes (normalmente considerado o pai do cinema independente norte-americano, a verdade é que o seu próprio filho deve ser um dos piores realizadores em actividade, e esse cinema que ele gerou costuma comprazer-se na imitação flácida do seu mestre). Em "Love streams", Cassavetes e a sua mulher, a inexcedível actriz Gena Rowlands, representam o papel de dois irmãos. A estratégia parece transparente. Obrigar os intérpretes a representarem uma deturpação da sua relação na vida real equivale à ficção que o próprio amor impõe a quaisquer dois seres que a ele se entreguem: a ficção, claro está, da irmandade a que aspiram os amantes. Os irmãos, como partilham desde sempre um passado, estão protegidos por um hábito e por uma memória comuns que estão ausentes da construção sentimental. A irmandade dos amantes tem de ser construída, ou, usando uma linguagem que seria mais cara ao autor, sofrida dia após dia.

Realizador e actriz representam aqui, portanto, o que seria o seu próprio sofrimento psicológico caso não fossem um casal (poucas vezes no cinema se terá representado uma mútua dependência afectiva de forma tão profunda). Ele estaria entregue à voracidade sexual masculina, ela andaria perdida numa falta patológica de amor: não interessa se as personalidades dos intérpretes correspondem às das personagens da peça teatral que o filme adapta, o que eles querem partilhar é o sentimento de queda que conseguem pressentir na hipótese condicional de não terem sido um par. Que estão falar de si mesmos é, de qualquer modo, evidente (grande parte da rodagem do filme foi feita na sua própria casa, mas basta deixar-se perder na intimidade que eles conseguem criar nas cenas em comum).

Ao mesmo tempo, comentam as dificuldades do seu projecto. Precisamente porque o tempo vai fazendo dos amantes irmãos, coloca-se o problema do sexo entre o casal, que, se não se torna propriamente incestuoso, acaba por pelo menos ceder à monotonia. E há ainda a questão dos filhos, aparentemente idílica na ideologia burguesa, mas que em "Love streams" aparece vibrante de sangue e polémica como tudo aquilo que mais fundo existe nos relacionamentos humanos.

O filme tende para o barroco: são as malas inesgotáveis e a compra descontrolada de animais pela personagem de Rowlands, é a quantidade de mulheres que a personagem de Cassavetes precisa para a sua realização erótica. Também os sonhos são transmutações algo abarrocadas dos géneros de cinema americano: o filme de acção, a comédia, o musical. Tal se deve ao facto deste casal criativo ter decidido assumir nos seus corpos e psicologias toda a hipérbole e toda a variedade da solidão humana. À beira da sua entrega exemplar, que se confunde continuamente com a loucura, o vício e a decadência, os actores do Método parecem birrentas criancinhas de escola. Rowlands e Cassavetes caminham no ecrã como se fossem maiores do que a vida, apenas porque têm, exactamente, o tamanho da vida.

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