domingo, junho 05, 2011

O INACTUAL 60

"Roma, città aperta" (1945), "Paisà" (1946), "Germania anno zero" (1948) - Roberto Rossellini



Em 1945, era preciso mostrar o continente europeu como zona (saída) de guerra, era preciso ir para as ruas e filmá-las, com ou sem dinheiro, com maior ou menor garantia de película para continuar a filmar, com profissionais ou com amadores: o neo-realismo teve um fundamento histórico mais convincente do que o seu próprio fundamento teórico.

Em "Roma, città aperta", encontram-se esboçados alguns dos principais temas do cinema posterior de Roberto Rossellini (o martírio do cristão rebelde, o papel secular da confissão, a continuidade entre amor sentimental e amor teológico). No entanto, é um filme bastante singular pois nele parece estar documentada toda a energia de resistência que terá atravessado a capital italiana durante o período da sua ocupação. É mesmo um filme algo aventuroso, e Ingrid Bergman não terá sido indiferente a essa dimensão espectacular (ela, a star que não sabia nada de como se fazia realmente o cinema pobre do seu futuro companheiro e Pigmalião).

No entanto, o mais profundo elemento rosselliano deste filme de grande sucesso na sua época é o facto de as três mortes que pontuam a sua narrativa, apesar de constituírem derrotas momentâneas, serem o sinal inequívoco de que os nazis não conseguiriam levar até ao fim os seus intentos totalitários. Precisamente por não serem capazes de perceber a importância da derrota, por não saberem que a maior contribuição da Grécia para a civilização ocidental talvez tenha sido, afinal, a tragédia (esse ganhar perdendo de que Cristo também se reclamaria), os seguidores de Hitler não conheciam quais as reais possibilidades da espécie humana e o seu fracasso era, portanto, inevitável.

"Paisà" mostra como toda a libertação física é indissociável da libertação intelectual que a ela se segue (o que é por demais evidente mas ainda hoje continua ausente do discurso mediático). Rossellini não era afinal o action man que poderia a princípio ter parecido, e o que ele tenta agora registar é as dificuldades de um regresso à paz. Os seis episódios que narram momentos do processo de libertação italiana pelas tropas aliadas continuam a bater na tónica da derrota, embora cada vez mais esta seja mostrada como condição sine qua non do crescimento espiritual. Itália, enquanto país de uma sociologia vulcânica a que os nortenhos têm dificuldade de adaptação (como será mostrado magistralmente em "Stromboli"), parece oferecer o pulsar real adequado a toda esta atitude de recusa de uma moral edificante.

Nos dois filmes, encontramos retratos de crianças que a guerra tornou órfãs e que se encontram educacionalmente (e não só) deixadas ao deus-dará. É claro que elas são sempre a esperança do mundo (como se vê na última imagem de "Roma, città aperta", na qual os miúdos caminham com a cidade como pano de fundo e de regresso), mas uma didáctica nascida de condições tão radicais tem de ser, ela mesma, radical. É isso que Rossellini faz em "Germania anno zero", sua primeira obra-prima, e seu primeiro desencontro com a crítica e com o público.

"Germania anno zero" revela as ruínas da Berlim pós-bélica, essencialmente porque os humanos que se têm de debater com as condições económicas e morais que resultaram do conflito são, eles também, autênticas ruínas. O filme parece mais desajeitado do que os seus antecessores na trilogia neo-realista. É mais fragmentado, mais bruto, mais inacabado, não há ênfase que lhe valha: o realizador encontra-se muito mais ocupado com uma questão moral do que com o fazer bem cinema (seja lá o que isso for).

Apesar da obra ser francamente chocante (narra a história de uma criança que, deseducada pelos restos do delírio nacional-socialista que resistem à sua volta, mata o seu próprio pai doente para facilitar os processos de sobrevivência familiar, ou seja, uma criança que cria a sua própria orfandade), ela mostra como uma tragédia pode ser o único recurso viável de retorno à normalidade. O ano zero só pode ser contabilizado a partir de uma dor horrível: Rossellini é um dos cineastas mais adultos que alguma vez pegou numa câmara de filmar. Se em "Roma, città aperta", as mortes ainda tinham um aspecto demasiado cinematográfico (ou seja, hollywoodiano), a esperança irreal que se desprende do filme alemão resulta de a morte ter recuperado o seu estatuto de escândalo.

Para se ganhar uma guerra, é preciso perder as batalhas decisivas.

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