quinta-feira, junho 09, 2011

Adendas ao post anterior

1. De modo algum eu ponho em causa o valor da tecnologia no cinema (afinal, passo uma boa parte do meu tempo a usar um computador para fazer este blogue onde, entre outras coisas, se fala sobre filmes...). O que eu questiono é o fascínio acrítico a que ela muitas vezes induz.

Veja-se o caso do uso da computer-generated imagery (CGI) para substituir a construção de cenários reais na fase da rodagem. A situação parece-me algo contraditória. Através deste processo, o actor encontra-se emocionalmente colocado numa posição semelhante à que o teatro lhe é capaz de fornecer. No entanto, essa tecnologia é geralmente usada para criar imagens realistas, nas quais o intérprete tem de representar de forma dita natural (ou seja, sem qualquer vestígio de teatralidade). Até o Steven Spielberg já veio dizer que é muito difícil motivar actores perante um ecrã verde...

A tecnologia fará então sentido enquanto processo de criação de mundos possíveis, mas não enquanto substituto do pulsar do real. Naquele que se me afigura como um dos mais belos filmes de sempre, "El sol del membrilo" de Victor Erice, grande parte do impacto afectivo que aí se cria deriva do facto de nele ser quase palpável não só a relação daqueles humanos uns com os outros durante o tempo de rodagem, mas também o seu convívio com um pequeno marmeleiro em torno do qual gira o trabalho do pintor António Lopez. É preciso ir até ao vivo para o conseguir captar.



2. Uma prova de como a tecnologia não é sinónimo imediato de qualidade é a situação histórica do conversão do cinema mudo em cinema sonoro. No final dos anos vinte do século passado, cineastas como Carl Dreyer, Fritz Lang, Friedrich Murnau, Sergei Eisenstein, Dziga Vertov, Abel Gance, Charles Chaplin, Buster Keaton, King Vidor, David W. Griffith ou Eric von Stroheim tinham atingido uma sofisticação estética exemplar no seu trabalho, e desenvolvido toda uma ética formal que garantia que o cinema fosse uma arte perfeitamente independente de todas as outras. Com o eclodir do som, a primeira tentação dos produtores de cinema foi recorrer ao chamado teatro filmado, ou seja, a palavra tornou-se vedeta na década de trinta e subjugou toda a fluência visual que havia sido atingida anteriormente. Filmes visualmente sumptuosos como os de Josef von Sternberg ainda devem muito à estética do mudo, mas a palavrosa obra de George Cukor (que aprecio bastante, de resto) já só pode ser entendida através desse novo contexto. Foi preciso esperar por Orson Welles para que o cinema sonoro voltasse a encontrar um território de inovação especificamente visual.

É preciso ser relativamente moderno.

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