domingo, maio 22, 2011

Notas sobre linguagem

Recentemente, tenho vindo a informar-me sobre os desenvolvimentos da chamada Filosofia da Linguagem (que foi um ramo proeminente do pensamento durante o século XX). Ainda a procissão vai no adro, e já eu me sinto parcialmente enjoado.

O hype parece ter sido gerado pelas conclusões do filósofo Bertrand Russell, que se terá apercebido de que a revelação da estrutura lógica das proposições de linguagem entrava em rota de colisão com a sua semântica, caso defendêssemos a tese de que as palavras só contribuem com a indicação do seu referente real para o sentido dessas proposições. Ou seja, Russell verificou que um nome não é uma mera etiqueta convencional para um ser que existe na realidade, mas que contribui ele mesmo com uma porção de sentido para as frases nas quais ocorre. Por exemplo, eu não posso pegar na seguinte frase "João pensava que Adolfo Correia da Rocha tinha um metro e meio de altura" e trocar o nome próprio que aí existe por "Miguel Torga", se João não souber que os dois nomes têm como referente a mesma pessoa e ainda por cima ele pensar que Miguel Torga tinha dois metros de altura (basta fazer a substituição, e a falsidade da frase torna-se patente).

Esta separação entre o lado referencial da linguagem e o seu lado semântico terá sido, claro, uma pequena revolução. No entanto, humildemente me pergunto se esta recusa da mera referencialidade não será contraditória com o facto de Russell querer fazer a linguagem submeter-se ao império da lógica e da verdade positiva. Ou seja, se há na linguagem uma faculdade de criar sentido relativamente independente da sua função referencial, por que razão há-de esse sentido estar preso às regras matemático-lógicas que regem o mundo físico? Ao lermos as conclusões de todos estes pensadores, ficamos com a sensação de que eles só falam para fazer filosofia, que continuam cheios de medo de para-sofismos, que não reconhecem que a linguagem também serve para mentir e que, no âmbito da psicologia humana, muitas vezes só se consegue dizer a verdade através da mentira (ou seja, da ficção). Às vezes parece mesmo que a linguagem não faz parte da realidade (o que é um absurdo) e que as suas criações (o cavalo Pégaso ou o Sherlock Holmes) não merecem nenhum grau de ontologia.

Saul Kripke veio trazer problemas modais à discussão, ou seja, fez a questão da linguagem confrontar-se com a possibilidade do(s) mundo(s) a que essa linguagem se refere ser(em) outro(s) mundo(s). Terá sido outra pequena revolução, mas talvez demasiado ancorada ao condicional ("o primeiro ministro de Portugal" poderia ser outra pessoa num mundo alternativo; no entanto, o nome "José Sócrates" referiria a mesma pessoa nesse mundo alternativo, mesmo não sendo ela o primeiro ministro de Portugal - aparentemente, isto vem revalorizar a função referencial da linguagem).

Eu começo a ver que a possibilidade (que deveremos ligar mais ao futuro do que ao condicional) é o elo de ligação entre a referencialidade e o significado. A palavra "água" refere um elemento natural de que todos temos consciência. O seu sentido científico é inequívoco (em todos os mundos possíveis, a água terá de ser H2O, ou então não é água). No entanto, o seu sentido político (a forma como distribuímos a água, os cuidados ecológicos com que a utilizamos, a maneira como tratamos os seus habitantes) não está pré-definido à partida, e é a linguagem, enquanto instrumento de emancipação humana, que nos permite ir construindo esse sentido. Não interessa o que o mundo poderia ter sido, mas o que ele pode vir a ser. E a linguagem, que é suja, equívoca, imperfeita, é precisamente o meio anti-totalitário que vai possibilitando as formulações com que vamos falando esse por-vir.