terça-feira, abril 19, 2011

O INACTUAL 59

"Ruhr" - James Benning (2009)




Estamos habituados à ideia fácil de que o cinema serve para mostrar coisas, mostrar muito e muitas coisas. Essa euforia ingénua talvez esteja relacionada com a erótica futurista resultante do acelerado desenvolvimento da sociedade industrial, na qual tudo passou a ser submetido a um optimismo de ficção científica. O cineasta americano James Benning parece ter uma noção distinta do significado da máquina para o nosso mundo (a começar pela máquina de filmar).

O que Benning mostra é que o cinema só pode pressentir através do muito pouco que lhe é dado ver: na mesquita que o filma documenta, sempre que os rezadores se levantam, tapam o campo visual; noutra cena, um operário vai apagando os graffiti acumulados sobre a escultura Bramme für das Rurhgebiet de Richard Serra; mas também as casas de uma rua pacata tapam a vida dos humanos que nelas habitam; também um túnel limita a nossa percepção do destino que tomam os veículos que o atravessam; também o fumo hiperbólico que sai de uma chaminé industrial consegue tapar o céu e a própria chaminé (e, de novo, o nosso campo visual). O ascetismo no tratamento da lentidão que Benning propõe ao espectador faz com que este, entre cada dois momentos de apagamento (que podem sublimes, como no plano final), viva a penosa espera com um misto de ansiedade e submissão ao suspense.

Não me parece correcto dizer que o filme é uma sucessão de longos planos não montados. Serão, porventura, planos-sequências sem movimento de câmara e, no limite, planos não encenados (na medida em que é a realidade que se auto-encena). Mas é inegável que há aqui um processo de montagem. Desde logo a um nível semântico: a ordem que contemplamos na fábrica do segundo plano extravasa para os outros domínios que o filme revela, seja essa relação mais evidente (o urbanismo, o horário de um aeroporto, o timing de uma chaminé, a ordem religiosa - veja-se como o ritual da celebração faz lembrar o ritmo de uma linha de montagem fabril) ou nem tanto assim (somos sempre levados a pensar que o trânsito de um lugar é um fenómeno de puro acaso, mas ele talvez acabe por se reduzir a uma lei de probabilidade bem pouco caótica). Será uma ordem bela, lenta (contra todas as evidências da industrialização) e com uma dimensão de contingência, mas é uma ordem.

A montagem também se revela enquanto arquitectura rítmica. Especialmente no plano que sublinha a diferença entre os ritmos da passagem de aviões e o do consequente desfolhar das árvores contíguas ao aeroporto, ou no plano apoteótico da obra (no qual o espectador é sensorialmente submetido), quando Benning compara o ritmo de produção de nuvens-trevas por uma grande chaminé com o movimento de nuvens no céu e com o crepúsculo da tarde. Não haverá optimismo aqui, mas curiosamente também não parecemos estar perante uma observação desesperada: o autor entrevê o fazer humano (a indústria) como um lento mas inexorável apagamento do mundo, ciente de que o próprio mundo também se apaga por ele mesmo, de forma mais lenta, mas com muito mais impacto.

A vanguarda do documentário (este filme é o registo do impacto do sector secundário da economia numa província alemã) atingiu um nível de sofisticação (lembremos momentos cruciais desse percurso como "D'est" de Chantal Ackeman ou "Five" de Abbas Kiarostami) com que a ficção contemporânea não consegue sequer sonhar.

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