Algumas das pessoas mais brilhantes e cultas que conheço costumam por vezes demarcar-se das minhas apetências intelectuais declarando-se distantes do campo de estudo das chamadas humanidades. Fazem-no, se não com heroísmo, pelo menos com coquetterie. E, de facto, nada é menos popular na sociedade contemporânea do que esse específico capítulo da cultura.Realmente, as humanidades não são para copinhos de leite. Especialmente porque são actividades espirituais sempre destinadas ao fracasso. Não é aos obesos que se deve dar o nome de biggest losers, mas aos intelectuais das humanidades.
Veja-se, a filosofia nasceu na Grécia enquanto forma de combater o preconceito, ou seja, enquanto reivindicação da reflexão racional como processo de substituir o hábito de uma crença pelo rigor de uma verdade (pelo menos da verdade possível e honesta). Milhares de anos depois, Husserl continuava a defender a desconfiança perante o sentimento de evidência que acompanha certos tipos de conhecimento, e a pugnar por um espírito de crítica constante de todos os achados da filosofia.
Mas também milhares de anos depois, o preconceito permanece como um dos dados mais condicionantes da cultura individual e colectiva. Não adianta dizer a algumas pessoas que está cientificamente provado que não existem raças na espécie humana, e que toda a personalidade do indivíduo é determinada pela educação e cultura em que é criado. Algumas pessoas continuarão a achar que os negros precisam de líderes brancos que os salvem deles mesmos.
Claro que alguns de nós vivem agora numa sociedade com instituições que minimamente controlam a violência que possa surgir do preconceito, e há, de facto, algumas evoluções de mentalidade. Quem é que hoje, no Ocidente, questiona o direito da mulher ao voto? No entanto, o simples facto de, nas comunidades humanas, o preconceito não ter sido substituído pela busca do conceito, milhares de anos depois do nascimento da filosofia, isso parece revelar o óbvio fracasso desta (pelo menos o fracasso relativo). Repare-se na diferença perante a actividade científica: ninguém deixa de receber a sua electricidade se colocar uma ficha numa tomada (a não ser que haja uma avaria perfeitamente explicável). Ora, as principais reivindicações das humanidades não se tornaram lugares-comuns (no sentido nobre do termo).
Ainda por cima, é mais fácil gostar de ciência do que de uma modalidade das humanidades: a ciência é um big mac de atracção imediata e compensação eficaz. No entanto, se é quase impossível haver hoje alguém que, de um modo ou de outro, não beneficie da actividade científica, a verdade é que os homens não são todos cientistas espontâneos e potenciais. Não é preciso ter curiosidade médica para se ser eficazmente curado de uma doença. Não é preciso ter a inquietação do Professor Pardal para beneficiar dos gadgets de um i-Pod. Não é preciso saber como funciona um automóvel para fazer o percurso diário de casa até ao local de trabalho. A ciência activa é uma empresa destinada a especialistas.
Pelo contrário, nenhum homem se livra de ser um pensador espontâneo, um romancista espontâneo (que gere a narrativa da sua própria vida), um político espontâneo, assim como um psicólogo, um antropólogo, um artista, etc., mesmo que disso não se aperceba. Poder-me-ão dizer que esta universalidade do fenómeno torna desnecessária a profissionalização das humanidades. Ao que eu respondo que não é possível passar do preconceito ao conceito sem sistematizar o pensamento à partida espontâneo. Poder-me-ão também dar os exemplos de uma besta como Heidegger, ou do bom gosto musical dos carrascos nazis. Ao que eu respondo que o facto de Mozart ser ouvido nos mesmos espaços em que todo um povo estava a ser sentenciado ao extermínio é, de novo, a prova do falhanço das humanidades (se Heidegger era muito inteligente, não era suficientemente homem para gerir com ética a sua inteligência; nas humanidades, o Q.I. não é sinónimo de sucesso).
No limite, as bombas que caíram sobre Hiroshima e Nagasaki são monumentais triunfos da ciência e monumentais falhanços das humanidades. A atitude cívica de Einstein mostra como os mitos da utilidade, do pragmatismo, do realismo não são suficientes por si mesmos. É sobre isso que, parece-me, temos de pensar quando falamos de economia, essa ciência de peritos que, dizem-nos, nós não entendemos e à qual nos temos de pacificamente submeter.
1 comentário:
Sempre que visito o seu blog, tenho uma sensação de que tem gente alerta por aí.
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