domingo, abril 10, 2011

Cadernos Rimbaldianos 5

1. Há um grande consenso académico quanto à singularidade temporal do título do único livro que Rimbaud esteve prestes a publicar em vida por sua própria vontade, "Une saison en enfer" (livro que só não foi distribuído porque o poeta não teve dinheiro para pagar à editora): se a definição de Inferno tem de passar pelo poder de evidência da eternidade do sofrimento que nele se oferece (o que valeu belas páginas a Joyce no seu "Portrait of the artist as a young man"), Rimbaud, que era um campeão da imanência, vem caracterizar o seu inferno privado como uma intensidade temporária (o que constitui uma contradição).

Ora, como diz Yves Bonnefoy, no pensamento do autor das "Illuminations" a lucidez é sempre indissociável de uma vocação para a esperança. Por muito terrível que seja a saison infernal (e Rimbaud viveu as suas decepções com a fúria própria da adolescência), ela não é insuperável. O aforismo que, no texto do próprio livro, dá a resposta simétrica ao problema colocado no seu título, é o célebre "Il faut être absolument moderne". A modernidade pressupõe a relatividade das estruturas de pensamento e acção sobre as quais triunfa através de processos sempre novos de emancipação. Nada será menos absoluto, então, do que a modernidade. No entanto, para que o inferno não se instale, precisamente para que ele não se torne absoluto, é preciso um constante desprezo pelo status quo, é preciso desafiar todos os pontos de chegada, é preciso ser absolutamente moderno.

Tenho quase a certeza de que, se Rimbaud tivesse escrito poesia no fim da sua vida (ele que termina "Une saison en enfer" fascinado por uma paciência que visivelmente não possuía), teria confessado o falhanço de não sei quantos mais delírios proporcionados pelo continente africano. Falhanços, sim, mas também a luta pela sua superação, como um bravo paysan perante a realidade rugosa.



2. Os estudos recentes sobre a vida rimbaldiana não sabem mais sobre a sua putativa actividade heterossexual do que a menção que Verlaine faz, numa carta a uma amigo seu, à mania que o jovem tinha de estourar dinheiro com mulheres (referência provável a prostitutas). Em compensação, é quase impossível negar a índole erótica do seu relacionamento com o autor de "Poèmes saturniens": convenhamos que o facto de Rimbaud e Verlaine terem escrito em conjunto um "(...) sonnet du Trou du Cul" não ajuda a dissipar as suspeitas...

Se havia, de facto, um bloqueio edipiano à interacção sexual do poeta com o sexo oposto, julgo que isso não seria de modo algum aceite por si mesmo de forma pacífica. Mesmo que o século XIX não permitisse a sinceridade com que hoje enfrentamos as diversas orientações sexuais, parece-me difícil que um autor que tanto lutou por exprimir nos seus textos uma verdade bem mais profunda do que aquela permitida pelo lirismo convencional (numa espécie de antecipação da psicanálise) tenha cometido o mesmo logro de Proust quando transformou Albert em Albertine... Textos como "Au Cabaret-Vert (...)" ou "Enfance" apresentam-se tão genuínos na sua celebração do feminino, que só podemos supor que Rimbaud terá tido grande sofrimento psicológico por não ter conseguido construir uma relação sentimental heterossexual.

Rimbaud foi um "caso", como diria José Régio (e a poesia é a arte por excelência dos "casos" psíquicos...). Aliás, por muito que os modernos se tenham esforçado por abolir a dimensão mais imediatamente subjectiva da sua poesia, a verdade é que muitas vezes a sua singularidade como homens se impôs com um estardalhaço que nenhum romântico confessional poderia sequer conceber: basta lembrar o "caso" Ezra Pound. No entanto, parece-me que não há, no corpo poético rimbaldiano, uma preocupação directa em polemizar em torno das suas eventuais dificuldade sexuais, o que faz com que uma excessiva obsessão por esse tópico da sua biografia-obra possa degenerar em curiosidade mundana. Mesmo que as preocupações políticas de Rimbaud possam ter uma componente de sublimação da sua frustração nesse campo, a verdade é que, de tudo isto, o que podemos retirar de mais seguro é o evidente feminismo pelo qual esta literatura militou. O bravo soneto "Vénus anadyomène" não é a descrição de uma repulsa pelo corpo da mulher, como já se defendeu, mas a denúncia do aviltamento que esta pode sofrer no seio dos valores da sociedade ocidental. O que Rimbaud conseguiu dizer (e dizer é bem difícil) é que a mulher voluntária e orgulhosamente submetida ao cárcere burguês nunca poderia ter sido sua companheira.

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