segunda-feira, abril 25, 2011

Actualidade

Podemos definir um texto primitivo como aquele que, encontrando-se as suas teses desactualizadas, continua todavia a fornecer obliquamente, e a despeito dessas mesmas teses, uma imagem da sociedade no seio da qual foi gerado.

Note-se que o texto primitivo pode ser mais atraente e até mais comovente do que um outro texto de conteúdo mais consensual para o tempo presente (como uma lenda pode ser mais bela do que um artigo científico). Note-se também que, por norma, o texto primitivo costuma apresentar-se, retoricamente, como não-primitivo, ou seja, apresenta-se com todos os pergaminhos superficiais da verdade.

Tomemos o "Crátilo" de Platão. Já nem falo da ideologia do filósofo que, de um modo genérico, refuto, na medida em que, a partir da intuição da unidade conceptual capaz de congregar em si todo um conjunto de fenómenos aparentemente diversos, rapidamente degenerou num misticismo puritano de consequências profundamente nefastas para a história do Ocidente, mas não falo dessa ideologia, dizia eu, pois ela continua a ter admiradores que por certo considerarão (e eventualmente de forma acertada) que a minha recusa é apenas um fenómeno de opinião. Mas falo da secção central do texto, na qual se tenta fazer uma investigação etimológica das principais palavras da cultura ateniense. Está mais do que provado que as etimologias propostas pelo personagem Sócrates são verdadeiramente fantasiosas, e Platão chega ao ponto de inventar neologismos para ir defendendo as suas teorias (a seu favor, diria que isto não é prova de desonestidade sofista, mas o espírito criador do grande dramaturgo que ele foi, já que o "Crátilo" é sobretudo um texto destinado a gerar no leitor um sentimento de aporia que o faça desconfiar das possibilidades epistemológicas da linguagem verbal, e por isso, em respeito da sua inteligência, não coloco de parte a hipótese de que as falsidades do dialogante Sócrates tenham sido dramaturgicamente provocadas para tornar mais forte a necessidade da aporia com que a obra se conclui). Ora, se essas etimologias estão cientificamente erradas (tornando o texto primitivo), o facto é que a escolha das palavras que Sócrates se propõe analisar, e a fundamentação que ele lhes dá com base na ficção dos étimos, constituem um precioso documento sobre a sociedade grega (sobre a sua cultura, sobre o que nela era de facto valorizado).

O mais curioso, e por isso escrevo este pequeno post, é que o texto primitivo não pertence exclusivamente ao passado, como se poderia pensar. O tempo presente, seja ele qual for, continua a propor um amplo leque de textos já-primitivos aos seus leitores. Os artigos de opinião da imprensa cor-de-rosa, os livros de auto-ajuda com fundamentação supostamente filosófica, as crónicas do Pacheco Pereira, os orçamentos de Estado... É só escolher.

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