quinta-feira, março 03, 2011

O INACTUAL 58

"Prénom Carmen" - Jean-Luc Godard (1983)


O mais provável é que a pulsão heterossexual, inevitavelmente transformada em cultura, tenha obrigado o homem a diferenciar a mulher de si mesmo mais do que aquilo que seria antropologicamente justo. A petite différence ter-se-á tornado uma trop grande différence. No seu retorno ao cinema, Godard parece ter-se apercebido de que ele próprio não era imune a essa prisão fantasmática (ele está xexé, ao fim e ao cabo), e decidiu reencenar a relação heterossexual esticando a mitologia até aos seus extremos: ou a mulher é a Virgem Maria ("Je vous salue Marie") ou é esta Carmen, o protótipo da femme fatale (que é uma maneira francesa de se dizer puta). Em ambos os casos, o que está em causa é o que uma mulher consegue fazer a um homem, a sua capacidade para o desviar da modorra de uma vida cobarde.

Ora, a aposição de um nome a uma mulher, neste caso o lendário nome da cigana de Mérimée-Bizet, cria-lhe um destino cultural que de modo algum ela merece. Carmen não se deveria chamar Carmen, até porque o que existe antes da escravatura de preconceito que todos herdamos com o baptismo é nada menos que o nome de Deus... Na Terra só há paraísos fiscais, e por isso não é possível saber com certeza quem são os inocentes e quem são os culpados. Se Carmen é maldita, se Godard é maldito, é porque eles vêm trazer ao mundo uma luz de verdade terrorista que destrói toda a paz podre da société générale (basta pensar na rapariga armadilhada com livros no muito recente "Notre musique").

Carmen não é Carmen, mas sim Elektra, a luminosa (nomeadamente a Elektra do dramaturgo Jean Giraudoux). E por isso a música da banda sonora não é a insuportável carnavalada de Bizet, mas os quartetos para cordas de Ludwig van Beethoven. Como em "Passion", Godard fragmenta a referência canónica de modo a que esta possa voltar ao vigor do ensaio, ou do improviso. Improviso de cinema (small movie feito por amantes do amadorismo), ensaio do casal (que na casa vazia do tio cineasta aprende a descobrir-se, em todos os sentidos que esta palavra comporta). Claro que o amor é uma questão de fluxo e refluxo (o mar é aqui objecto de uma metáfora muito simples), e não se consegue fundir com a eternidade para que parece apelar (outras metáforas singelas: as duas carruagens que se cruzam na noite, os dois barcos que se cruzam ao crepúsculo: quem disse que Godard é complicado?). Mais do que propriamente acabar, o amor muda.

O cineasta lembra que Van Gogh, quando o sol se punha, continuava a procurar no mundo um pouco de amarelo. É preciso procurar, procurar no meio das trevas que nos cercam (esta é que é a verdadeira ética). E é o que faz este pintor munido de uma câmara-musical com a solidariedade do seu director de fotografia (Raoul Coutard): vejam-se as magníficas imagens dos faróis dos automóveis a dourarem, por instantes, a estrada azul-nocturna, a luz natural sobre os corpos despidos dos amantes (vinda da janela como na arte de Vermeer), ou as cintilações dos candelabros na cena do golpe final. É aliás nessa cena de pura revolta contra as perversões do mundo que Carmen encontra, na morte, o esplendor dourado que se chama "a aurora". Haverá outro Universo no qual a luz seja a regra e não a excepção?

2 comentários:

petit paysan disse...

muito bom e muito belo texto. parabéns!

Pedro Ludgero disse...

eu sei que tu não aprecias muito este filme, mas acho que o devias rever! :)

ab