sábado, março 12, 2011

Nota sobre "cinema literário"

Num recente programa televisivo, o cantautor Sérgio Godinho, por quem tenho a mais imaculada estima, defendia que o filme "Jules et Jim" de François Truffaut, apesar de baseado em material eminentemente literário, estava invadido por uma grande vitalidade. Sei que Godinho é cinéfilo mas não estou a par das suas preferências concretas nesse campo, por isso o que vou discutir é esta ideia em si, retirada do contexto da cultura do seu formulador, uma vez que ela me parece exemplar daquilo que normalmente os apreciadores de cinema pensam.

O cinema é uma arte composta (prefiro esta expressão à sua variante vazia "arte total"). Praticamente não tem nenhuma dimensão formal a que possa chamar essencialmente sua. Mesmo o movimento das imagens é, como Deleuze argumentou, acima de tudo um fenómeno de temporalidade (e há outras artes que também trabalham o tempo), e a montagem está implícita em todas as actividades criativas. Desde o seu início que ele tem uma inevitável relação de dependência com a literatura (mais a ficção e o texto teatral do que a poesia e o ensaio, o que é, desde já, criticável), mas também com a pintura, a fotografia, a música e até a dança.

Más relações, em todo o caso. Ainda hoje a maioria dos filmes dão preferência a bandas sonoras que não passam de requentadas sopas pseudo-sinfónicas, a pintura é quase sempre usada como caução cultural, etc. Com a literatura, a relação não é menos fértil em equívocos. Ao ponto de a crítica ter acabado por acolher a ideia de que raramente um grande texto dá origem a um grande filme, e de haver cineastas muito lúcidos que trabalham geralmente a partir de material literário considerado menor. Ideia que se tornou algo dogmática, mas que não surgiu sem fundamento.

Por exemplo, nunca li o romance "To have and have not", de Hemingway, mas diz quem o conhece que a sua adaptação para cinema dirigida por Howard Hawks (um filme curioso, de resto) é, enquanto adaptação strictu sensu, um desastre. Aliás, é de tal modo leviana a relação dos cineastas com a literatura que o mesmo realizador pode ser responsável por uma das piores ("Under the volcano") e uma das melhores ("The dead") adaptações da história da sétima arte: falo de John Huston. O inacreditável rol de disparates que têm sido as adaptações de Saramago só nos pode obrigar a pensar e a agir com cautela neste campo.

Normalmente, o conceito de adaptação de um livro costuma ser entendido como sinónimo de uso da sua narrativa para construção de um argumento (com eventual cuidado colocado na definição psicológica dos personagens de acordo com o espírito do escritor). O estilo literário é raramente tomado em consideração, e mesmo quando é (como em "Les herbes folles" de Alain Resnais), o resultado fílmico pode ser um pouco desarmante.

Ora, é só a partir do momento em que se começa a tratar literatura e cinema de igual para igual (o que implica uma total seriedade no tratamento de todas as dimensões do texto, mas também a consciência de que o objecto visual tem uma profunda independência da sua fonte) que os resultados começam, obviamente, a ser justos para ambas as artes. Isso já está presente no Shakespeare de Orson Welles, mas acaba por se aperfeiçoar no Resnais de "L'année dernière à Marienbad", no Rohmer de "Die Marquise von O", no Oliveira de "Amor de perdição", no "Othon" de Straub/Huillet ou no "Querelle" de Fassbinder (em todos estes casos é notória a diferença de visão, de fundo e de forma, entre o autor do texto original e o autor do filme). Claro que há todo um conjunto de evoluções formais (o artificialismo da encenação, o estilo declamatório, a tentativa de materialização visual da palavra, etc.) que foram essenciais nessa gesta de emancipação tanto do cinema como da literatura. No entanto, é lógico que não existe uma essência do cinema literário, e que a continuidade da relação entre as duas artes só pode ter um fundo experimental, de descoberta contínua. O cinema literário não é uma caricatura de cinema português ou francês.

Acima de tudo, na expressão de Godinho está implícita a ideia de que, no cinema não nos podemos aborrecer, enquanto que a literatura pressupõe um certo tédio (não estou a afirmar que ele pense de facto isto, apenas que foi isso que deixou transparecer). Isto afigura-se-me absolutamente inaceitável. Não vou ao cinema para andar na montanha russa (para isso, vou à montanha russa), mas também não abordo um livro com o espírito do produtor Paulo Branco, que diz que, para que um filme seja bom, temos de dormitar uns minutos na cadeira da sala de projecção... O que me move, tanto numa criatividade como noutra, é um misto de paixão e reflexão sobre a vida que é tudo menos compatível com histerias de feira ou snobismos de intelectual.

O trabalho de relação com a literatura é tão delicado e difícil como todos os outros trabalhos que o cinema implica (e por vezes, quão magistrais são os resultados: "Sayat Nova" de Paradjanov!). Fico sempre espantado quando alguém sem grande relação com a literatura anda à procura de um contozinho para fazer uma curta-metragem: mais vale filmar os gestos do seu bebé, um jogo de futebol, uma conversa entre amigos. Tenho, na minha arca de projectos delirantes, a noção exacta de como gostaria de filmar, caso pudesse, "As cidades invisíveis" de Italo Calvino. Mas já não faço a menor ideia (pelo menos por enquanto) de como poderia encenar outras obras que muito estimo, e que até gostaria de ver num ecrã: "Finisterra" de Carlos de Oliveira, os diários de Llansol, "A gaivota" e o "O cerejal" de Tchékhov, "O artista da fome" de Kafka ou "O nadador" de John Cheever... Nesse caso, mais me vale estar quieto. O amor sem vacilação pelas duas artes a tal me obriga.

Sem comentários: