quarta-feira, março 23, 2011

Munditações

(Em breve será publicado o livro "Munditações", com belas fotografias de Carlos Silva acompanhadas por textos de vários escritores. Esta é a minha contribuição:)


Não há homem vivido que não saiba que o obturador é um glory hole. Assim o prova a orgia masculina desta imagem fotográfica. Colecção de revólveres, claro. Mas também selva da qual só vemos a parte de cima do dossel. Ou cidade moderna, onde um qualquer Eduardo Mãos de Tesoura pode, enfim, destoar.

1/30: o tempo tem duas funções. Por um lado, ele é o clique(-claque) do devir que inventa todo o universo. Mas é também a grande ilusão da memória que garante, ao humano, uma relativa inteireza da consciência de ser sujeito. Nenhum outro ente está preso a essa mediocridade, a essa gloríola: o EU é uma revelação exclusivamente antropológica.

Por isso é suportável que se fotografe multidões de tudo, menos de humanos. A estes se deve aplicar sempre o famoso dito: "Dois são companhia, três são multidão". A partir do toque da trindade, não há EU que resista à matematização. Os fascistas sabiam-no. E, de resto, quem se interessa por orgias? No estetismo que elas propõem, perde-se a intensidade erótica.

Quanto a tudo o resto, venha Busby Berkeley e congele as suas danças. Aí está, a geometria dos lápis, prometendo uma infinidade de textos, de velocidades, de buracos-soturnos. O tempo prestes a descolar.

Favos para uma nova série de Tàpies, NASA dos Pequenitos...



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