domingo, março 27, 2011

RTPs

Em breve, ser-nos-á vendida a ideologia da privatização como panaceia para os males todos do país. Mas a desconfiança de uma ideologia não implica a cegueira diante da sua suposta alternativa. Ainda recentemente, uma deputada do Partido Socialista representava, na televisão, uma cena de baixa tragédia com a fábula da ameaça da privatização da RTP que será supostamente levada a cabo pelo Partido Social Democrata quando este deitar as suas esfomeadas mãos na grelha do poder.

De facto, em teoria, sou contra a privatização de um serviço público de televisão. No entanto, não sei é se esta RTP, movida pela cenoura dos shares, tentando vencer as suas congéneres privadas no jogo sujo da competição, mais Malato menos Herman-Envelheceste-José, menos golo mais celebridade, merece ser financiada pelo Estado. Começo a formar a opinião de que um serviço público é aquele que garante os direitos e a dignidade daqueles que se encontram numa posição de fragilidade no tecido social. Crianças (educação universal), doentes (saúde universal), idosos impossibilitados de trabalhar, desempregados, miseráveis, injustiçados, minorias da mais variada ordem. Parece um paradoxo, mas o serviço público deveria ser uma estratégia de protecção dos indivíduos que o individualismo fatalmente ostraciza (isto para além da organização burocrática da nação, o que aflige muito menos a minha costela anarca).

Que as estações privadas de tv queiram inventar uma ilusão de maioria com a sua genérica cultura da publicidade (tudo é publicidade ali, desde a voz da Júlia Pinheiro ao homem do povo de Pedro Lima), isso é problema deles e de quem quiser ser enganado. O serviço televisivo público deveria, pois, visar todas as actividades legítimas que a sociedade fornece que não se consigam impor através de estratégias mercantis. Teatro experimental, agricultura, artes marciais, cinema de autor, banda desenhada, pesca, artesanato, documentário, história, física, ecologia, jornalismo de investigação, esgrima, literatura, pedagogia infantil, filosofia, tradução, desporto juvenil, etc., etc. Tudo trabalhado com qualidade máxima, com ética, e com dinheiro suficiente mas gerido com contenção e eficácia.

Dir-me-ão que os ordenados das celebridades mediáticas deixariam de ser tão chorudos. Ao que eu respondo que trabalhariam na televisão pública pessoas interessadas na qualidade intrínseca do seu trabalho e na possibilidade de arriscar sem chantagens mercantis (ao que se teria de juntar uma inevitável liberdade de acção). Ainda haverá tal géneros de homúnculos.

Dir-me-ão que seria uma tv menos glamourosa, uma seca. Ao que eu respondo que seria uma televisão sem ambições de share universal, comprometida com interesses específicos e minoritários, e que nada impediria um esforço de criação de públicos novos (se não houver o que oferecer, é que não se podem criar esses públicos...).

Na sua presente situação, a RTP é uma empresa financiada pelo Estado, o que constitui, ao mesmo tempo, um atentado ao capitalismo e ao socialismo.

quarta-feira, março 23, 2011

Munditações

(Em breve será publicado o livro "Munditações", com belas fotografias de Carlos Silva acompanhadas por textos de vários escritores. Esta é a minha contribuição:)


Não há homem vivido que não saiba que o obturador é um glory hole. Assim o prova a orgia masculina desta imagem fotográfica. Colecção de revólveres, claro. Mas também selva da qual só vemos a parte de cima do dossel. Ou cidade moderna, onde um qualquer Eduardo Mãos de Tesoura pode, enfim, destoar.

1/30: o tempo tem duas funções. Por um lado, ele é o clique(-claque) do devir que inventa todo o universo. Mas é também a grande ilusão da memória que garante, ao humano, uma relativa inteireza da consciência de ser sujeito. Nenhum outro ente está preso a essa mediocridade, a essa gloríola: o EU é uma revelação exclusivamente antropológica.

Por isso é suportável que se fotografe multidões de tudo, menos de humanos. A estes se deve aplicar sempre o famoso dito: "Dois são companhia, três são multidão". A partir do toque da trindade, não há EU que resista à matematização. Os fascistas sabiam-no. E, de resto, quem se interessa por orgias? No estetismo que elas propõem, perde-se a intensidade erótica.

Quanto a tudo o resto, venha Busby Berkeley e congele as suas danças. Aí está, a geometria dos lápis, prometendo uma infinidade de textos, de velocidades, de buracos-soturnos. O tempo prestes a descolar.

Favos para uma nova série de Tàpies, NASA dos Pequenitos...



(clique na imagem para aumentar)

domingo, março 20, 2011

O Jornal do Cabo 5

Li uma vez numa crónica que, na altura em que caiu o Muro de Berlim, havia um conjunto de intelectuais alemães a defenderem que chegara o momento de construir o verdadeiro socialismo, mas que os destinatários de tão delirante empreitada nem sequer conseguiam ouvir falar de tais esquerdismos após décadas de subjugação à tirania vermelha. Não deixa de ser curioso que, tendo sido a presente crise económica internacional causada pelo funcionamento do capitalismo, quase ninguém esteja disposto sequer a fazer algumas perguntas à economia de mercado.

Perguntar, por exemplo, se dado o desmesurado crescimento demográfico mundial acompanhado pela transformação quase universal dos hábitos de consumo, a libertinagem económica ainda conseguirá ser a resposta correcta à incapacidade que os recursos do planeta mostram em se regenerarem. Ou perguntar se é possível uma globalização económica independente de uma verdadeira globalização política sem que isso leve a sucessivas falências de estados (o que está a acontecer à má empresa Portugal senão isso)?

Os ideólogos de direita dizem sempre que a democracia não é possível a não ser em regime de liberalismo económico. Mas a China responde-lhes com o seu próprio paradoxo: eis uma nação com uma das economias mais competitivas da Terra sem que isso implique as liberdades normais de um Estado de direito. Não será possível tratar a economia com muito mais calculismo de cidadania, sem que isso tenha qualquer interefência nas várias emancipações (a todos os níveis) que a história do Ocidente nos trouxe? Se é verdade que não podemos fugir às leis divinas (da física, da química, da biologia, etc.), a realidade económica é apenas aquela que os humanos querem construir. Pode ser muito difícil de construir, claro, mas, como diria um bom empreendedor, o que é preciso é pensar outside the box. Até para salvaguardar a sobrevivência ética da iniciativa e da criatividade económicas, talvez seja necessário calcular com mais rigor quais são as verdadeiras necessidades dos habitantes do planeta (como diz Godard em "Prénom Carmen", quem é que precisa de copos de plástico ou de bombas atómicas?).

É preciso ouvir toda a gente, claro. Têm razão aqueles que dizem que o Estado precisa de emagrecer (e um dos motivos por que o Partido Socialista deve ser imediatamente afastado do poder em Portugal até reencontrar alguma dignidade é a sua total irresponsabilidade na gestão do Estado, tornando-o tão kafkiano quanto financeiramente monstruoso), mas já não a terão quando o concebem como um biggest loser. O Estado deve emagrecer precisamente para que sectores de indiscutível interesse público como a educação, a saúde ou os transportes não precisem de ser privatizados nem tratados como empresas.

Mas acima de tudo é preciso tomar em consideração uma certeza contemporânea (que no passado apenas poderá ter sido timidamente intuída): a noção de que todo o progresso traz tantos benefícios quanto prejuízos imprevisíveis. Por exemplo, quem poderá negar a vantagem do aumento da esperança de vida no mundo ocidental? Mas quem anteviu que isso iria colidir com a maneira como a sociedade gere o funcionamento dos direitos sociais? Ora, se a esquerda exige e exige direitos como que se já cá estivessem os amanhãs que cantam (lamento não me solidarizar com manifestações enrascadas, mas não me parece que as pessoas pretendam pensar a fundo a civilização a que pertencem, apenas estrebucham por terem sido saneadas de uma determinada genealogia de privilégios), a direita quer deitar fora a água do banho, a criança e os seus progenitores (o ataque aos direitos sociais é uma das maiores cobardias do nosso tempo). Os think tanks deveriam estar a pensar como podemos manter os benefícios do progresso contornando os prejuízos que lhes são paralelos.

Sou um pessimista convicto (acho mesmo que as grandes épocas revolucionárias são fenómenos de moda como muitos outros). Sei que a vida arranja sempre maneira de nos surpreender (veja-se o que aconteceu no Egipto) e que sempre haverá homens de grande pragmatismo que ajudarão a humanidade a dar mais este ou aquele passo para se safar. Não contem comigo: não sirvo para tapar buracos.


(Imagem retirada daqui)

sábado, março 12, 2011

Nota sobre "cinema literário"

Num recente programa televisivo, o cantautor Sérgio Godinho, por quem tenho a mais imaculada estima, defendia que o filme "Jules et Jim" de François Truffaut, apesar de baseado em material eminentemente literário, estava invadido por uma grande vitalidade. Sei que Godinho é cinéfilo mas não estou a par das suas preferências concretas nesse campo, por isso o que vou discutir é esta ideia em si, retirada do contexto da cultura do seu formulador, uma vez que ela me parece exemplar daquilo que normalmente os apreciadores de cinema pensam.

O cinema é uma arte composta (prefiro esta expressão à sua variante vazia "arte total"). Praticamente não tem nenhuma dimensão formal a que possa chamar essencialmente sua. Mesmo o movimento das imagens é, como Deleuze argumentou, acima de tudo um fenómeno de temporalidade (e há outras artes que também trabalham o tempo), e a montagem está implícita em todas as actividades criativas. Desde o seu início que ele tem uma inevitável relação de dependência com a literatura (mais a ficção e o texto teatral do que a poesia e o ensaio, o que é, desde já, criticável), mas também com a pintura, a fotografia, a música e até a dança.

Más relações, em todo o caso. Ainda hoje a maioria dos filmes dão preferência a bandas sonoras que não passam de requentadas sopas pseudo-sinfónicas, a pintura é quase sempre usada como caução cultural, etc. Com a literatura, a relação não é menos fértil em equívocos. Ao ponto de a crítica ter acabado por acolher a ideia de que raramente um grande texto dá origem a um grande filme, e de haver cineastas muito lúcidos que trabalham geralmente a partir de material literário considerado menor. Ideia que se tornou algo dogmática, mas que não surgiu sem fundamento.

Por exemplo, nunca li o romance "To have and have not", de Hemingway, mas diz quem o conhece que a sua adaptação para cinema dirigida por Howard Hawks (um filme curioso, de resto) é, enquanto adaptação strictu sensu, um desastre. Aliás, é de tal modo leviana a relação dos cineastas com a literatura que o mesmo realizador pode ser responsável por uma das piores ("Under the volcano") e uma das melhores ("The dead") adaptações da história da sétima arte: falo de John Huston. O inacreditável rol de disparates que têm sido as adaptações de Saramago só nos pode obrigar a pensar e a agir com cautela neste campo.

Normalmente, o conceito de adaptação de um livro costuma ser entendido como sinónimo de uso da sua narrativa para construção de um argumento (com eventual cuidado colocado na definição psicológica dos personagens de acordo com o espírito do escritor). O estilo literário é raramente tomado em consideração, e mesmo quando é (como em "Les herbes folles" de Alain Resnais), o resultado fílmico pode ser um pouco desarmante.

Ora, é só a partir do momento em que se começa a tratar literatura e cinema de igual para igual (o que implica uma total seriedade no tratamento de todas as dimensões do texto, mas também a consciência de que o objecto visual tem uma profunda independência da sua fonte) que os resultados começam, obviamente, a ser justos para ambas as artes. Isso já está presente no Shakespeare de Orson Welles, mas acaba por se aperfeiçoar no Resnais de "L'année dernière à Marienbad", no Rohmer de "Die Marquise von O", no Oliveira de "Amor de perdição", no "Othon" de Straub/Huillet ou no "Querelle" de Fassbinder (em todos estes casos é notória a diferença de visão, de fundo e de forma, entre o autor do texto original e o autor do filme). Claro que há todo um conjunto de evoluções formais (o artificialismo da encenação, o estilo declamatório, a tentativa de materialização visual da palavra, etc.) que foram essenciais nessa gesta de emancipação tanto do cinema como da literatura. No entanto, é lógico que não existe uma essência do cinema literário, e que a continuidade da relação entre as duas artes só pode ter um fundo experimental, de descoberta contínua. O cinema literário não é uma caricatura de cinema português ou francês.

Acima de tudo, na expressão de Godinho está implícita a ideia de que, no cinema não nos podemos aborrecer, enquanto que a literatura pressupõe um certo tédio (não estou a afirmar que ele pense de facto isto, apenas que foi isso que deixou transparecer). Isto afigura-se-me absolutamente inaceitável. Não vou ao cinema para andar na montanha russa (para isso, vou à montanha russa), mas também não abordo um livro com o espírito do produtor Paulo Branco, que diz que, para que um filme seja bom, temos de dormitar uns minutos na cadeira da sala de projecção... O que me move, tanto numa criatividade como noutra, é um misto de paixão e reflexão sobre a vida que é tudo menos compatível com histerias de feira ou snobismos de intelectual.

O trabalho de relação com a literatura é tão delicado e difícil como todos os outros trabalhos que o cinema implica (e por vezes, quão magistrais são os resultados: "Sayat Nova" de Paradjanov!). Fico sempre espantado quando alguém sem grande relação com a literatura anda à procura de um contozinho para fazer uma curta-metragem: mais vale filmar os gestos do seu bebé, um jogo de futebol, uma conversa entre amigos. Tenho, na minha arca de projectos delirantes, a noção exacta de como gostaria de filmar, caso pudesse, "As cidades invisíveis" de Italo Calvino. Mas já não faço a menor ideia (pelo menos por enquanto) de como poderia encenar outras obras que muito estimo, e que até gostaria de ver num ecrã: "Finisterra" de Carlos de Oliveira, os diários de Llansol, "A gaivota" e o "O cerejal" de Tchékhov, "O artista da fome" de Kafka ou "O nadador" de John Cheever... Nesse caso, mais me vale estar quieto. O amor sem vacilação pelas duas artes a tal me obriga.

terça-feira, março 08, 2011

No site "Orfeu de corpo inteiro"...

... postei a minha tradução do longo poema "Goblin market" da escritora pré-rafaelita Christina Rossetti.

Trata-se de um texto que me parece adequado essencialmente ao público infantil (é um excelente conto de fadas).

Sublinho apenas que, dada a ausência de uma regra formal, no texto de origem, no que se refere à rima e à métrica, tentei construir a minha versão de acordo com o ritmo enumerativo que estrutura a escrita de Rossetti. De resto, espero ter obtido algum sucesso ao nível da produção de um prazer de leitura, que me parece um valor essencial nesta história de frutos proibidos e sensualidades oblíquas.


(O original pode ser lido aqui)

En abyme

O aforismo tem a beleza física da lei científica e a beleza moral da anarquia humanista.

sábado, março 05, 2011

O coleccionador 15

No filme "Prénom Carmen", quando Joseph, transtornado de ciúmes e ao som da canção "Ruby's arms" de Tom Waits, se agarra a um televisor invadido apenas por grainha azul, é evidente que Godard pretende insinuar que o personagem está a sofrer de blues sentimentais.

No entanto, o gesto formal é um pouco mais complexo do que isso. O facto de a canção falar de uma rapariga chamada Ruby, e de essa evocação verbal-sonora da cor vermelha ser aposta a um ecrã invadido pela cor azul, faz lembrar o combate entre feminino e masculino que o filme, na sua globalidade, propõe. Godard sempre teve uma preferência plástica pelas cores primárias, mas o que nesta cena releva é o facto de o vermelho estar apenas presente enquanto palavra, ou seja enquanto fantasma de uma ausência. É um momento de pintura conceptual que só o meio audiovisual permite (e que, obviamente, os artistas plásticos já exploraram).

Para além disso, não consigo deixar de ver, neste azul que preenche todo um enquadramento, a imagem do oceano, que fora o elemento rítmico central das estratégias de montagem na parte do filme que abordara a aprendizagem sentimental de Carmen e Joseph (a grainha azul sugere o movimento das ondas). De novo, é o audiovisual que permite esta espécie de pintura metafórica (que pode constituir uma das brechas a explorar pelo jovem cinema), conjugando o figurativo (a mão) e o abstracto (o azul-mar) numa emotividade semântica singular.

Adenda a "O INACTUAL 58"

Um dos indícios de que a releitura que Godard faz do mito de Carmen pretende ser uma reflexão sobre a heterossexualidade é o facto de que o relacionamento entre o personagem de Maruschka Detmers e o seu tio cineasta, interpretado pelo próprio realizador, é evocativo do freudiano Complexo de ... Electra (se bem que aqui também se pretenda sugerir a complexidade da relação que se estabelece entre um personagem e o seu criador).

quinta-feira, março 03, 2011

"Prénom Carmen" - imagem

O INACTUAL 58

"Prénom Carmen" - Jean-Luc Godard (1983)


O mais provável é que a pulsão heterossexual, inevitavelmente transformada em cultura, tenha obrigado o homem a diferenciar a mulher de si mesmo mais do que aquilo que seria antropologicamente justo. A petite différence ter-se-á tornado uma trop grande différence. No seu retorno ao cinema, Godard parece ter-se apercebido de que ele próprio não era imune a essa prisão fantasmática (ele está xexé, ao fim e ao cabo), e decidiu reencenar a relação heterossexual esticando a mitologia até aos seus extremos: ou a mulher é a Virgem Maria ("Je vous salue Marie") ou é esta Carmen, o protótipo da femme fatale (que é uma maneira francesa de se dizer puta). Em ambos os casos, o que está em causa é o que uma mulher consegue fazer a um homem, a sua capacidade para o desviar da modorra de uma vida cobarde.

Ora, a aposição de um nome a uma mulher, neste caso o lendário nome da cigana de Mérimée-Bizet, cria-lhe um destino cultural que de modo algum ela merece. Carmen não se deveria chamar Carmen, até porque o que existe antes da escravatura de preconceito que todos herdamos com o baptismo é nada menos que o nome de Deus... Na Terra só há paraísos fiscais, e por isso não é possível saber com certeza quem são os inocentes e quem são os culpados. Se Carmen é maldita, se Godard é maldito, é porque eles vêm trazer ao mundo uma luz de verdade terrorista que destrói toda a paz podre da société générale (basta pensar na rapariga armadilhada com livros no muito recente "Notre musique").

Carmen não é Carmen, mas sim Elektra, a luminosa (nomeadamente a Elektra do dramaturgo Jean Giraudoux). E por isso a música da banda sonora não é a insuportável carnavalada de Bizet, mas os quartetos para cordas de Ludwig van Beethoven. Como em "Passion", Godard fragmenta a referência canónica de modo a que esta possa voltar ao vigor do ensaio, ou do improviso. Improviso de cinema (small movie feito por amantes do amadorismo), ensaio do casal (que na casa vazia do tio cineasta aprende a descobrir-se, em todos os sentidos que esta palavra comporta). Claro que o amor é uma questão de fluxo e refluxo (o mar é aqui objecto de uma metáfora muito simples), e não se consegue fundir com a eternidade para que parece apelar (outras metáforas singelas: as duas carruagens que se cruzam na noite, os dois barcos que se cruzam ao crepúsculo: quem disse que Godard é complicado?). Mais do que propriamente acabar, o amor muda.

O cineasta lembra que Van Gogh, quando o sol se punha, continuava a procurar no mundo um pouco de amarelo. É preciso procurar, procurar no meio das trevas que nos cercam (esta é que é a verdadeira ética). E é o que faz este pintor munido de uma câmara-musical com a solidariedade do seu director de fotografia (Raoul Coutard): vejam-se as magníficas imagens dos faróis dos automóveis a dourarem, por instantes, a estrada azul-nocturna, a luz natural sobre os corpos despidos dos amantes (vinda da janela como na arte de Vermeer), ou as cintilações dos candelabros na cena do golpe final. É aliás nessa cena de pura revolta contra as perversões do mundo que Carmen encontra, na morte, o esplendor dourado que se chama "a aurora". Haverá outro Universo no qual a luz seja a regra e não a excepção?

Auto-retrato como Sherlock Holmes

pedro, pedra menos de roseta que de rosácea