domingo, fevereiro 06, 2011

O INACTUAL 57

"Passion" - Jean-Luc Godard (1982)




"Passion" é uma paródia à concepção de cinema enquanto arte total. A grande Pintura que o filme re-encena (a sétima arte, de resto, sempre se sentiu tentada pela possibilidade de dar vida a quadros célebres) perde as suas coordenadas canónicas para regressar à condição de esboço. O objectivo de Godard é despintar as obras de arte e, no seguimento desse gesto radical, descinematizar o cinema e desmundar o mundo. Não porque o realizador não ame os quadros que antologia (muito pelo contrário), mas para os reactivar, para os livrar da estagnação do museu, para lhes dar a chance de intervirem na vida.

O próprio filme, uma super-produção à escala godardiana, parece inacabado (o que é, obviamente, provocatório). Os efeitos de des-sincronização, mais do que simbolizarem as dificuldades da comunicação humana, obrigam os espectadores a seguirem uma ética pictórica: não devemos procurar uma narrativa congregante do sentido antropológico, devemos simplesmente olhar as pessoas, os seus olhos, os seus lábios. É o (eterno) primeiro passo. Godard, o extremo oposto de Fukuyama, defende que a humanidade ainda não viveu o suficiente ou suficientemente bem para poder contar uma História. É esse, de resto, o sentido de "Je vous salue Marie": o casal terá de regressar, por intromissão do sagrado mítico, à condição de esquisso de casal.

Por aqui já se vê que há, em "Passion", uma sobreposição de discursos de esperança. Há o discurso sentimental, claro (as personagens gostariam de amar apaixonadamente), mas também o discurso político (o respeito pela condição operária, o interesse pelos acontecimentos que, à época, estavam a revolucionar a Polónia), e até o discurso teológico. Essas são, de resto, as temáticas dos quadros filmados, e a sinceridade godardiana (ou de Goya, por exemplo) passa por essa ausência de especialização utópica. Não é por ingenuidade que Jerzy, o realizador-personagem, fala de "trabalhar a amar" e "amar a trabalhar". O presente é precisamente esse lugar da gaguez em que as várias dimensões do Homem estão artificialmente dissociadas, e por isso nem o filme dentro do filme se pode fazer (não é uma maquinaria paga a peso de ouro que consegue criar a luz sonhada) nem os amantes se podem encontrar de forma exemplar. Há toda uma deriva da luxúria que não se distingue do burlesco das lutas laborais.

É preciso decidir para onde se quer ir, onde é a nossa casa. Se, na citação da pintura de Watteau, o barco do embarque para Cítera (ilha onde haveria um templo dedicado a Afrodite, deusa do amor) está encalhado em terra, não é tomando o avião para Hollywood que se resolvem os problemas da Paixão (em sentido crístico também). Jerzy e as mulheres entre quem ele balança (a noite e o dia) partem para a Polónia a bordo de um carro poeticamente transformado pela metáfora do tapete voador. Será talvez este o veículo (o real transformado pelo pensamento, o investimento militante) que permitirá encontrar o mágico traço de luz que, no início do filme, cruza o céu com borrões de nuvens como se fosse uma pincelada em acção.

Se "Passion" é uma das obras mais originais da história do cinema (desde logo porque a esta se opõe), ela brinca com as nossas expectativas de prazer como um gato desfaz um novelo. Godard não atende a súplicas (vindas dos habitantes da Constantinopla de Delacroix), antes entra em combate com os seus destinatários (como Jacob e o anjo, citando o mesmo pintor). Se não se consegue encontrar uma frase definitiva, também não há crescendo musical que garanta um clímax, nem evocação plástica que nos conforte (e que infinitamente belas são as imagens-pinturas encontradas pelo cineasta). Mesmo a reconstituição da "Virgem da Imaculada Conceição" de El Greco, provavelmente um dos quadros mais belos de sempre, tem de ser violentamente interrompida, para nos deixar sem soberania entre os ruídos, para sempre nostálgicos e combatentes pela paixão.

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