sábado, fevereiro 26, 2011

Partilha 113

pobre a vaidade
dos que mandam no maná
no céu todas as estrelas
são michelin

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

No escrínio 52

Poema: "Do desperdício", de Armando Silva Carvalho:


limosa a boca verte
a frase verde e boa

do rasgo no vestido
o som pula do sangue

de um panfleto caído
a conversão suspensa

no caixote indefeso
as pobres mãos minando

mãos vivas como um giz
marcando a dor no seio

da luva podre sai
a perfeição de um dedo

o ranho do silêncio
molha a flor do nariz

o estrume deste porco
perfuma o lavrador

o fato sujo de óleo
condiz com a cantiga

aproveitei a folha
contente vou-me embora



Há uma piada que defende que um poema é um objecto tão inviável do ponto de vista económico que a sua disposição gráfica nem consegue aproveitar a integralidade de uma folha de papel. Armando Silva Carvalho, escritor de humor oblíquo, vem propor uma função económica para a poesia. Desde logo ao nível da gestão extremamente poupada da forma do seu texto, todo ele organizado em dísticos de modéstia, onde tudo condiz com tudo: veja-se como o segundo dístico é simétrico do penúltimo (ambos encenam roupa estragada, primeiro de mulher, depois de homem) ou como as quatro estâncias centrais se podem associar numa espécie de esquisso narrativo. De facto, o texto poético pode ser exemplar na racionalização do seu mercado de associações livres, o que só pode provocar inveja ao arrogante capitalismo.

"As pobres mãos" escavando no caixote do lixo, mais do que uma imagem panfletária, compõem a metáfora das mãos do próprio poeta, que busca na vida aquilo que os triunfadores desta (aqueles que não são mendigos, lavradores ou operários) deitam fora, busca aquilo que eles consideram desperdício. Mesmo o desperdício da história do lirismo. Carvalho não se impressiona com topoi recorrentes do discurso poético como a "flor" ou o "silêncio" (aqui dessacralizados pela sua associação ao ranho no nariz), e o "panfleto caído" pode ser entendido como uma paródia, eventualmente involuntária, ao livro "Folhas caídas" de Almeida Garrett. O poeta é "este porco" que propõe uma forma de estrume essencial à germinação, à conversão.

Os dois dísticos mais misteriosos do poema serão porventura os mais reveladores. "A conversão suspensa" é sinalizada pela ausência de uma acção verbal (é a única estância em que isso acontece, já que o particípio "caído" tem o valor próximo de um adjectivo). Ao mesmo tempo, "o ranho de silêncio" que "molha a flor do nariz" provoca uma suspensão (um silêncio) no olfacto. Ora, na medida em que o poema é um estrume destinado a perfumar o lavrador (o leitor), é preciso que este se assoe para captar a sua mensagem. Se o terceiro dístico pode indiciar uma certa desilusão com os proselitismos de ordem religiosa ou política, a verdade é que o texto faz uma verdadeira propaganda à acção de sair de si mesmo (ao devir do sujeito, portanto).

É o som "do rasgo no vestido" que "pula do sangue", é a fálica "perfeição de um dedo" saindo "da luva podre", é a boca limosa que "verte a frase verde e boa". A própria flor do nariz, chovida por dentro, está condenada a esta poética da ejaculação. Carvalho parece algo avesso à bidimensionalidade. O sair de si tem uma relação de simetria com o penetrar o outro, o conhecer o seu sangue, o seu ranho, a sua profundidade manchada (marcar a dor no seu seio). Ao contrário de Alexandre O'Neill, de quem é por vezes aproximado, este poeta não investe a superfície dos seus textos com calor humano. Os textos têm de ser minados, por vezes com paciência, para que possamos conhecer todo o erotismo do seu sentido. A poesia regula a produção, distribuição e consumo dos bens e serviços morais que permitem o viver em sociedade. Dito de outro modo, o Outro nunca pode ser tratado como um desperdício.

domingo, fevereiro 20, 2011



(Imagem de Gérard Castello-Lopes)

Qualidades-&-defeitos

Não sei se as predisposições de personalidade nos aproximam de uma certa postura política, ou se é esta que acaba por influenciar a maneira de ser, ou até se nada disto é relevante. O que eu sei é que, por ser um produto do Ocidente hegemónico, eu seria incapaz de o vender como o único modelo defensável de Civilização.

Tirando o caso de um crédito bancário,...

... a única maneira de me prenderem é com a liberdade.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Questiúncula

Numa das últimas edições da revista "PÚBLICA", um delicado sacerdote indispunha-se contra a Igreja Católica pelo facto de esta sempre ter demonizado o sexo na sua doutrina. Fico contente por os cristãos, ao fim de não sei quantos séculos de sotaina, estarem finalmente a perceber que o sexo, como o gelado de straciatella e os banhos no Oceano Índico, sabe bem. No entanto, Monsenhor Cujo Nome Se Me Escapa achava ainda que a Igreja devia assumir a posição moral de que "no sexo não vale tudo".

Alguém disse (e eu gostaria muito de saber quem foi, para lhe enviar um cartão de agradecimento) que a única regra ética a aplicar à vida sexual das pessoas é aquela que exige o verdadeiro e livre consentimento de toda a gente que nela se envolva. Não me consigo lembrar de mais nada para dizer sobre o assunto.

Ou melhor, consigo. Consigo dizer que, se é verdade que a solidão sexual é uma das tristezas mais agudas que se pode experimentar neste e noutros mundos, a solidão afectiva talvez consiga provocar um verdadeiro Inferno sobre a Terra. E que aqueles que não conseguem passar do sexo para o amor correm sempre o risco de embrutecer tanto a sua vida erótica (que se pode tornar mecânica) como a dimensão mais íntima e profunda da sua personalidade. Mas isto é um assunto para a psicologia, a psiquiatria, a psicanálise e outras ciências do bem-estar interior. A conversa não chega à retrete da religião: Cristo disse coisas tão bonitas, têm tanto que trabalhar...

Estupidez em série

Gasto algum do meu precioso tempo a ouvir música foleira, no meu caso duplamente foleira porque se trata de mero combustível para a minha predisposição delico-melanco-doce (se bem que este neologismo desfoleiriza um bocado a coisa). Ora, pelo menos ao nível dos prazeres fúteis e pouco nobres, gosto que os agentes desses prazeres sejam inequívocos na sua acção. Imagine-se que, de dentro de uma lâmpada mágica, apareciam às pessoas o Angélico ou a Pamela Anderson, e que afinal eles eram impotente e frígida (respectivamente?)... What's the point?

Já não me divirto no cinema desde o "Ocean's Eleven", que era puro champanhe e mais nada (eu gosto de champanhe, e o James Bond, mais bonito que está, é certo, já só tem explosões). Mas isto de séries televisivas, na sua idade de ouro ainda por cima, consegue ser bastante mais aborrecido. Em "Lie to me", onde espero que o Tim Roth esteja a ganhar balúrdios porque não está a fazer mais nada, decide-se da verdade dos discursos dos personagens a partir dos comprometedoríssimos esgares que estas libertam como quem não quer a coisa, uma verdadeira astro-psico-logia de grande requinte que deve ter sido inspirada nos comentários populares à culpa dos pais da pequena Maddie.

Um dia destes, vi um episódio do badalado "House" (eu gosto do Sherlock Holmes) e decidi que devo voltar às músicas foleiras. Uma criança, portadora do detalhe genético de ter células masculinas e femininas, sentia-se confusa ao nível do género porque tanto gostava de basquetebol como de dança. A ideia subjacente era que o gosto do básquete vinha directamente das células com piça e a dançofilia resultava das células com clitóris. Aparentemente, não há raparigas que preferem basquetebol a dança, nem rapazes na situação inversa. Aliás, se as raparigas preferirem o desporto de Magic Johnson, o mais provável é que estejam a revelar o rapaz que existe dentro delas, enquanto os viris amantes de pas de chat estarão provavelmente a um metro sexual de serem homossexuais. Mais, talvez até seja pouco provável que uma menina bailarina seja fufa, e toda a gente sabe que na NBA não há gays. Ou seja, a uma série do século XXI que reencena a figura do detective enquanto campeão da verdade (e desde Tales de Mileto que a verdade é o triunfo sobre as aparências e os clichés), não chegou ainda a ideia de que o sexo é um conceito biológico e o género uma construção cultural. Brilhante!

quarta-feira, fevereiro 09, 2011



El Greco - "Virgem da Imaculada Conceição"

Cadernos Rimbaldianos 4

Rimbaud terá sido um dos primeiros poetas a perceber o justo alcance funcional da polissemia (com ilustres percursores como William Blake). Os seus textos não são ilegíveis, não podem ser interpretados de qualquer maneira (o que aliás equivaleria a sentenciá-los à ilegibilidade...), não são literais, nem podem ser dissecados com a ambição de uma interpretação definitiva.

As "Illuminations" são um catálogo de procedimentos conceptuais de enorme repercussão semântica, textos onde o poeta apresenta de forma rigorosíssima as coordenadas do problema que quer debater, sem contudo apresentar de forma directa um ponto de vista limitado que nunca poderia abranger a complexidade de cada um desses problemas. Não se trata de uma estratégia de não-compromisso, mas a intuição de que é preciso exigir tudo à linguagem para que ela possa produzir um mínimo de honestidade discursiva.

Por exemplo, em "Démocratie", Rimbaud mostra como o sistema político que intitula o poema em prosa se define pela possibilidade (essencial e trágica ao mesmo tempo) de aqueles que usufruem da sua liberdade debitarem discursos profundamente anti-democráticos. Claro que o escritor não era um João Pereira Coutinho do século XIX, sinistramente defendendo a liberdade de se odiar homossexuais, negros ou estrangeiros (liberdade essa que não pode estar em causa, note-se), porque o conjunto de textos que compõem a sua obra são suficientemente explícitos quanto ao elevado grau de exigência utópica que o levava às mais desesperadas estratégias discursivas de irrisão.

Adendas a O INACTUAL 57

1. Que "Passion" tem pontos de contacto com "Le mépris", realizado pelo mesmo Jean-Luc Godard no início da sua carreira, isso é evidente. No entanto, talvez não seja menos produtivo aproximar o Fellini pós-"Oito e meio" da fita godardiana.

"Oito e meio" terminava com a exibição de um imenso cenário-esqueleto onde os actores se passeavam num número de circo, e essa será uma das chaves mais fecundas de entendimento da filmografia de Fellini (nomeadamente no que toca às suas irreverentes reconstituições históricas). Para além das semelhanças ao nível de argumento (um cineasta que não consegue filmar, a hesitação entre várias mulheres), "Passion" cita a obra-prima do italiano ao propor a encenação de uma deriva sem norte aparente dentro de um sumptuoso estúdio de cinema-pintura.



2. Dadas as diferenças entre cinema e pintura no que toca ao funcionamento da temporalidade, é interessante analisar os diversos modos como Godard combate a cristalização pictórica através dos meios da arte que pratica, e as consequências que daí advêm (espero que um crítico de artes plásticas já se tenha dedicado ao exercício).

Ora o realizador acentua as tensões de ordem formal entre as duas criatividades: a famosa iluminação da menina d'"A ronda da noite" de Rembrandt, que no filme se pode acender e apagar; o súbito (e exaltante) aparecimento em campo da extremidade inferior direita da "Entrada dos cruzados em Constantinopla" de Delacroix (imagem deste post), como se os fragmentos do quadro pudessem ser analiticamente apresentados numa perspectiva diacrónica, etc.

Ora o realizador inquere as possibilidades de desvio semântico: em "Os fuzilamentos de 3 de Maio", a câmara passa pela frente do pelotão de execução, colocando o espectador na posição de vítima; toda a sequência de Goya, de resto, apresenta os diversos quadros do pintor em simultâneo, explorando os seus ecos intertextuais na profundidade de campo cinematográfica (a noção de história de uma Obra individual não é estranha a Godard; em "Passion" evoca-se a evolução de Delacroix, que começou por pintar guerreiros e acabou a representar flores), etc.

domingo, fevereiro 06, 2011

"Passion" - imagem

O INACTUAL 57

"Passion" - Jean-Luc Godard (1982)




"Passion" é uma paródia à concepção de cinema enquanto arte total. A grande Pintura que o filme re-encena (a sétima arte, de resto, sempre se sentiu tentada pela possibilidade de dar vida a quadros célebres) perde as suas coordenadas canónicas para regressar à condição de esboço. O objectivo de Godard é despintar as obras de arte e, no seguimento desse gesto radical, descinematizar o cinema e desmundar o mundo. Não porque o realizador não ame os quadros que antologia (muito pelo contrário), mas para os reactivar, para os livrar da estagnação do museu, para lhes dar a chance de intervirem na vida.

O próprio filme, uma super-produção à escala godardiana, parece inacabado (o que é, obviamente, provocatório). Os efeitos de des-sincronização, mais do que simbolizarem as dificuldades da comunicação humana, obrigam os espectadores a seguirem uma ética pictórica: não devemos procurar uma narrativa congregante do sentido antropológico, devemos simplesmente olhar as pessoas, os seus olhos, os seus lábios. É o (eterno) primeiro passo. Godard, o extremo oposto de Fukuyama, defende que a humanidade ainda não viveu o suficiente ou suficientemente bem para poder contar uma História. É esse, de resto, o sentido de "Je vous salue Marie": o casal terá de regressar, por intromissão do sagrado mítico, à condição de esquisso de casal.

Por aqui já se vê que há, em "Passion", uma sobreposição de discursos de esperança. Há o discurso sentimental, claro (as personagens gostariam de amar apaixonadamente), mas também o discurso político (o respeito pela condição operária, o interesse pelos acontecimentos que, à época, estavam a revolucionar a Polónia), e até o discurso teológico. Essas são, de resto, as temáticas dos quadros filmados, e a sinceridade godardiana (ou de Goya, por exemplo) passa por essa ausência de especialização utópica. Não é por ingenuidade que Jerzy, o realizador-personagem, fala de "trabalhar a amar" e "amar a trabalhar". O presente é precisamente esse lugar da gaguez em que as várias dimensões do Homem estão artificialmente dissociadas, e por isso nem o filme dentro do filme se pode fazer (não é uma maquinaria paga a peso de ouro que consegue criar a luz sonhada) nem os amantes se podem encontrar de forma exemplar. Há toda uma deriva da luxúria que não se distingue do burlesco das lutas laborais.

É preciso decidir para onde se quer ir, onde é a nossa casa. Se, na citação da pintura de Watteau, o barco do embarque para Cítera (ilha onde haveria um templo dedicado a Afrodite, deusa do amor) está encalhado em terra, não é tomando o avião para Hollywood que se resolvem os problemas da Paixão (em sentido crístico também). Jerzy e as mulheres entre quem ele balança (a noite e o dia) partem para a Polónia a bordo de um carro poeticamente transformado pela metáfora do tapete voador. Será talvez este o veículo (o real transformado pelo pensamento, o investimento militante) que permitirá encontrar o mágico traço de luz que, no início do filme, cruza o céu com borrões de nuvens como se fosse uma pincelada em acção.

Se "Passion" é uma das obras mais originais da história do cinema (desde logo porque a esta se opõe), ela brinca com as nossas expectativas de prazer como um gato desfaz um novelo. Godard não atende a súplicas (vindas dos habitantes da Constantinopla de Delacroix), antes entra em combate com os seus destinatários (como Jacob e o anjo, citando o mesmo pintor). Se não se consegue encontrar uma frase definitiva, também não há crescendo musical que garanta um clímax, nem evocação plástica que nos conforte (e que infinitamente belas são as imagens-pinturas encontradas pelo cineasta). Mesmo a reconstituição da "Virgem da Imaculada Conceição" de El Greco, provavelmente um dos quadros mais belos de sempre, tem de ser violentamente interrompida, para nos deixar sem soberania entre os ruídos, para sempre nostálgicos e combatentes pela paixão.

A minha solidariedade para com...

... Otar Iosseliani, e para com este seu lindíssimo último filme, "Chantrapas", onde o realizador vem sugerir que, para aqueles que não distinguem maturidade de intensidade infantil, o cinema só pode ser uma fonte de profundo desespero.

O georgiano toma o prazer como matriz do seu cinema. O prazer adulto, claro (como Renoir), mas essencialmente aquele prazer cujas portas infinitas a infância uma vez abriu (Fellini, mas também Tarkovsky) e que só fechamos por mediocridade burguesa. Mas não há ingenuidade em Iosseliani: tanto na União Soviética como no mundo capitalista, os homens de negócios são ricos mas infelizes. Mesmo o seu aparente reaccionarismo se deverá não tanto a uma idealização da vida aristocrática, mas a uma reivindicação de aristocracia de espírito.

Mas que homem de negócios, que homem de política, que espectador burguês terá generosidade, imaginação e sentido de risco para se perder em imagens de puro deleite como a formidável cena pejada de cães do filme dentro do filme em "Chantrapas"? Iosseliani faz o meu tipo de cinema.

Uma inquietação (ovo e galinha)

Talvez o maior erro de Marx tenha sido a maneira desajeitada como previu a dimensão pragmática da filosofia. Os assombrosos erros provocados pelo marxismo, mas também pelo cristianismo, vieram trazer-nos uma evidência que, essa sim, deveria ter sido o cerne da pós-modernidade: a de que a realização vital do pensamento deve ser um diálogo com a contemporaneidade filosófica dessa realização, um vaivém de mútuo ajuste, e não uma imitação de (grandes) visões passadas e individuais. Longe de mim querer desconsiderar o pensamento antigo. Simplesmente, esse pensamento só poderá gerar pensamento (e aí a sua fertilidade é inesgotável), porque a filosofia com impacto político tem de pertencer à mesma época desse impacto, não lhe pode ser anterior nem posterior, nem causa nem efeito, mas par.