segunda-feira, janeiro 03, 2011

O INACTUAL 56

"Je vous salue, Marie" - Jean-Luc Godard (1985)


Em "Ave Maria" (nome que o filme deveria ter em português, na medida em que o seu título original equivale ao primeiro verso dessa popular oração), Godard estabelece uma ligação entre a crença de que a vida terrena foi Criada por uma vontade transcendente e o mito da imaculada concepção. Na verdade, este deriva, acima de tudo, de uma firme continuidade lógica (Deus não poderia gerar o seu filho segundo as regras de geração deste mundo, mas sim reactivando o ex nihilo dos seus poderes demiúrgicos), e não propriamente de uma condenação cifrada da sexualidade.

A montagem da obra, organizada em torno de imagens de esferas (o sol, a lua, etc.), mais do que limitar-se a engendrar metáforas visuais do ventre prenhe, encena o progressivo abaixamento de toda essa Luz desde o Céu até à Terra, culminando no plano, de uma beleza de cortar a respiração, em que Maria e José se colocam ao lado de um candeeiro esférico em incandescência. A loucura de Maria (a loucura do cristão, melhor dizendo) é acreditar que não é o corpo que tem uma alma, mas a alma que tem um corpo.

De algum modo, essa parece ser também a loucura de Godard (seja qual for o seu teor religioso): os seres dos seus filmes, mais do que personagens numa narrativa realista (que é sempre reduzida a uma espécie de burlesco nonsense), são intermitentemente narrados pela pintura (é inesgotável o talento do realizador para o enquadramento e para a iluminação), pela música (uma colagem erudita de história da música com silêncio) e pela poesia (uma poesia sempre próxima do disparate, da caralhada lírica ou metafísica). Talvez seja isso que o tenha feito cair na tentação de celebrar uma Maria que, após o parto de Jesus, decide mesmo manter-se casta para conter o seu corpo dentro da plenitude do Espírito. É claro que Godard parece sempre algo assexuado, de tal modo é profunda e sincera a sua militância pelo amor (vi recentemente uma entrevista em que ele se gabava de só ter dormido com uma rapariga após os vinte anos...), mas esta ortodoxia causa-me uma certa repugnância ideológica. Se "Je vous salue, Marie" foi um escândalo, tal deveu-se ao facto de ele ser um filme de vanguarda em que, por exemplo, se usa a palavra "cu", ou a mãe de Cristo é uma basquetebolista, filme que os espectadores não foram capazes de compreender. Porque, por mim, o escândalo disto é isto não ser suficientemente escandaloso. Se Godard fala de Pascal, eu prefiro falar de Espinoza.

Infinitamente mais interessante é a alegoria do cubo de Rubik (espero que já haja um estudo sobre a inventividade alegórica deste autor), em que se revela que o par amoroso, por ser par amoroso, pode desvendar os mistérios teológicos a uma velocidade desmesurada. A aceitação da gravidez de Maria por José, o corno mais cósmico de todos os tempos, e a sua ainda mais inesperada aceitação de uma conjugalidade casta, são uma espécie de ponto alto (histérico) do "éloge du couple" por Godard. Histérica também a sua devoção à figura feminina: Godard tanto parece misógino em "A bout de souffle" (a mulher é a grande traidora) como aqui se dedica a um feminismo hiperbólico que chega a ser difícil de aceitar (também já o ouvi gabar-se de só ter um amigo do sexo masculino). Os diversos temas dos filmes (a actualidade política, o cinema, o sagrado neste caso, etc.), mais do que objectos de verdadeiras e definitivas análises, parecem ser pontos de vista diversos (desculpas) sobre a eterna imagem de Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg descendo, lado a lado, os Campos Elísios.

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