quarta-feira, janeiro 12, 2011

O ACTUAL 30

"Copie conforme" - Abbas Kiarostami



O mais recente filme do mestre iraniano retoma o mesmo discurso de "Shirin": o homem é o forjador da Cultura que só a mulher tenta verdadeiramente pôr em prática. Aqui está o intelectual-aparentemente-renitente que, perante a materialização à sua frente da cópia certificada que teorizou (Juliette Binoche, por quem milito), tem de estar na estação às nove horas... Perspectiva que algum feminismo considerará ofensiva, certamente, mas que revela um verdadeiro espírito de crítica da (suposta) mediocridade emocional masculina. Ao contrário do que defenderam alguns comentadores, esta viagem por Itália não está pasmada com as glórias da civilização, mas traz implícita uma real desconfiança da cultura: se o que diz uma criança disser o intelectual, o disparate adquire prestígio. O amor, de resto, é o disparate mais antigo da história.

O sucesso da obra reside na surpresa de se filmar o possível início de uma relação sentimental como se ela fosse um absurdo pleno de repercussões semânticas: eles representam, desde logo, o futuro distante do seu afecto ("O primeiro desejo dos amantes / É serem velhos amantes" - Regina Guimarães). O profundo incómodo assim criado (quase surrealista, bem mais próximo, de resto, de Antonioni que de Rossellini) nunca é corrigido pela verdade que os actores vão descobrindo-inventando. Os espectadores riem-se: esta é a renovação da comédia romântica que Hollywood não está a conseguir fazer. Repare-se como os dois protagonistas acertam na perfeição no filme um do outro, na medida em que os argumentos da chamada vida real são sempre clichés (há sempre um adormecer no dia do aniversário, e etc.). A distância do realizador tanto deve à paródia como à sabedoria.

Não será o mais perfeito Kiarostami (é talvez um filme demasiado falado), mas é o menos confortável, o menos consensual. "Copie conforme" termina numa vista, de quarto, sobre a cidade, na qual um par gémeo de sinos toca a intuição exaltada de que a provável reconciliação de um par equivale sempre a um milagre. Exactamente como no fim de "Viaggio in Italia", de que este filme nem sequer é uma cópia. Não há nada mais estranho do que retomar, uma vez mais, os caminhos do coração.

Sem comentários: