quarta-feira, janeiro 26, 2011

Notas (preliminares) sobre tradução

Embora ainda não tenha lido as grandes obras de referência que reflectem sobre o trabalho do tradutor (Steiner, Eco, Ricoeur, etc.), a minha (ainda pequena) experiência nesse campo já me deixa entrever algumas tomadas de posição teórica que de forma mais ou menos consciente vão norteando o meu fazer. Não sou, de resto, favorável à ideia de que só se deve fazer depois de pensar, antes defendo que fazer e pensar devem ser contemporâneos na sua mútua iluminação.

A primeira evidência que se me impõe é a imperfeição insanável de todo o esforço de tradução. Alguns autores confessam que, se muito dificilmente aceitariam rescrever a sua própria obra, estão sempre dispostos a tentar uma nova versão de um texto que traduziram. De facto, ainda que seja por vezes possível fazer um texto com o valor da jóia (dureza, valor, coerência interna), o mesmo estado de graça nunca recai sobre uma tradução, não porque esta funcione como uma inevitável degenerescência do texto original, mas porque implica um conjunto de opções demasiado arriscadas e polémicas que lhe impedem a possibilidade de uma sedução universal. É preciso que o tradutor esteja preparado para falhar, e para falhar rotundamente. A humildade é a palavra de ordem em tal labor.

Dito isto, postulo que todo o texto é traduzível (isto é uma loucura, claro, mas a esperança racional é sempre uma loucura). O que não quer dizer que haja interesse em traduzir todos os textos. Pedro Tamen já defendeu que, por exemplo, uma tradução do "Finnegans Wake" de James Joyce é francamente desaconselhável. Aliás, neste caso, seria lícito perguntar qual é exactamente a língua do texto de origem... O livro do autor irlandês talvez seja uma babel que superou o próprio conceito de babel.

Penso, no entanto, que, pelo menos de um ponto de vista teórico, a riqueza semântica integral de um texto pode ser invariavelmente transposta para um outro texto numa língua diferente. Não pode é ser reproduzida da mesma maneira. Um exemplo: na minha versão do poema "Ode to concrete" de Joseph Brodsky, optei por dar ao texto português o título "Ode ao concreto" (ao conceito abstracto de concreto, passe o paradoxo), e mantive no corpo do poema a referência imediata do discurso do autor que é, claro, o cimento. Embora no português de Portugal não haja uma palavra que reúna, ambiguamente, esses dois significados no mesmo significante, a riqueza semântica do enunciado de Brodsky pôde, julgo eu, ser mantida.

Se me parece claro que o tradutor deve esgotar todos os seus esforços para transpor a plenitude semântica do texto no qual trabalha (para isso é necessário estar atento à investigação académica), as questões formais merecem talvez outro tipo de distância. O poema "Mémoire", de Rimbaud, foi muito relevante para a sua época enquanto estratégia de demolição do verso alexandrino a partir do seu interior, mas fará algum sentido "reencenar" esse golpe de rins para o leitor do século XXI, habituado que este está a uma total arbitrariedade métrica? Será legítimo fazer corresponder, à modalidade dialectal em que está escrito um texto, um dialecto da cultura que o vai receber, quando não há qualquer equiparação possível entre as duas culturas?

Não quero com isto dizer que privilegio traduções meramente semânticas. Muito pelo contrário. Penso é que o tradutor deve escolher com cautela quais são as dimensões formais que podem e devem ser disponibilizadas para o leitor a quem se dirige. Se a tradução de um soneto de Mallarmé deverá certamente pautar-se por uma atenção parnasiana à perfeição formal (a reflexão sobre a Forma, de resto, é um dos Conteúdos principais desse autor francês), não me parece tão necessário construir sonetos ortodoxos a partir dos textos que, em torno dessa forma, Shakespeare escreveu (até porque a métrica do inglês e a do português são algo incompatíveis). Shakespeare escreveu a partir de um molde cuja autoridade estética é francamente questionável para o leitor contemporâneo. Se um certo trabalho de regularidade rítmica e rimática poderá fazer parte do prazer investido no soneto traduzido, isso não deve levar a soluções artificiais.

De resto, o tradutor deve escolher se pretende traduzir o soneto shakespeariano de acordo com o português da época em que este foi escrito, ou se prefere tomar o leitor da sua própria época como destinatário. Sou completamente favorável a esta segunda opção (até porque a primeira não me parece estar ao alcance honesto de ninguém). Não se trata de pôr personagens elisabetanos a exprimirem-se com linguagem de rappers, claro, mas de procurar um texto que seja válido dentro da expressividade potencial do português a que o tradutor, na gestão do seu quotidiano linguístico, tem acesso.

Por fim, postulo que o texto traduzido deve ser um excelente texto na língua portuguesa. O tradutor é também um escritor. Apesar de isto parecer uma evidência, este é talvez o maior defeito com que por vezes o leitor se depara em alguns trabalhos: a mediocridade especificamente literária da tradução. Nunca averiguei qual o grau de rigor da versão que Álvaro Cunhal fez de "O Rei Lear" (se bem que me parece um pouco constrangida pelo pudor), mas a absoluta delícia oral do seu português dão ao texto a carta de alforria necessária para uma provável montagem em cena.

Acima de tudo, o tradutor é um ensaísta oblíquo. Humildade não significa ausência de ideologia. Não tenhamos ilusões sobre a invisibilidade do trabalho do tradutor (aliás, neste país onde ninguém quer aparecer, não há falta de convidados para programas televisivos de culinária). Se a grandeza criadora pertence obviamente ao autor original, o tradutor tem que investir o seu texto da sua concepção de literatura, da sua concepção de escrita, da sua concepção de língua portuguesa, da sua concepção de tradução e do seu entendimento do autor que está disponibilizar. Brancos são os votos para a Presidência da República.

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