sábado, janeiro 08, 2011

Crónica da Universidade

A minha experiência universitária resume-se a uma licenciatura no falhanço. Excelente aluno na área das Humanidades, fui-me encaminhado para o Curso de Direito na Universidade Católica do Porto, onde confirmei o meu total desinteresse pelas profissões sisudas, o meu agnosticismo de estimação, e uma saudável alergia aos ácaros da alta roda conservadora. Alcancei uma única nota memorável, um dezoito, na disciplina de Economia, porventura o ramo de todo o saber que menos me interessa. De resto, saí da aventura académica com depressão, menos inteligência e já outra profissão.

Talvez por causa disso, ou talvez não, a verdade é que acabei por formar uma imagem fantasiosa do que seria uma verdadeira vida académica. Assim como gostaria de ter escrito um livro intitulado "InterRail e outras coisas que não fiz" (especialmente dada a frustração heróica do decassílabo que o estrutura), poderia com toda a facilidade dedicar-me a um projecto "Entre Hogwarts e Salamanca". A universidade, como o Brasil ou a parentalidade, é uma daquelas existências que sempre idolatrei porque só delas participei enquanto turista acidental. Oxford, Cornell, Sorbonne, seduzem-me de maneira pueril como só as constelações de estrelas o conseguem, e nelas vejo-me rodeado de livros-que-eu-quero-de-facto-ler e de outonos-de-brochura, para sempre dedicado ao estudo e ao sexo com todas as protecções insulares que a gratuitidade, a civilidade e a inesgotável profusão nos podem oferecer.

Mas não é preciso ir para a universidade para poder, enfim, desconfiar da universidade. Estou neste momento a meio da leitura do excelente livro "Stratégies de Rimbaud", um conjunto de micro-leituras do autor do "Bateau ivre" pelo académico inglês de expressão francesa Steve Murphy. A erudição do estudo é exuberante, talvez sem mácula, a sua aplicação é invariavelmente eficaz, a clareza do discurso é total. No entanto, vive em mim a impressão de que essa erudição talvez esteja sempre a ser utilizada pelo ensaísta para defender a sua imagem (apriorista?) de um Rimbaud militante de esquerda. De qualquer modo, isso talvez seja o que todos fazemos. O que verdadeiramente me inquieta é a dúvida sobre qual a real utilidade literária de todo este esforço para um leitor que não seja um hamster de universidade.

Se não há sombra de dúvida sobre a utilidade das pesquisas altamente especializadas no âmbito das ciências (mais tarde ou mais cedo têm uma aplicação pragmática), eu já não estou tão certo de que um texto literário tenha uma maior repercussão sobre o seu potencial leitor se for observado com o auxílio de um microscópio ou de um telescópio. Quem escreve, fá-lo para encontrar uma brecha de troca directa com um receptor que não pode alcançar no espaço e/ou no tempo. Mas a distância a que o texto tem de estar do seu leitor é a distância do olho nu. Claro que a investigação académica pode contribuir, por exemplo, para uma anotação esclarecedora das obras, ou para um apoio pedagógico à sua circulação (nomeadamente quando se trate de obras de leitura pouco evidente). Tenho, contudo, a certeza absoluta de que Rimbaud não escreveu para ser estudado, mas para intervir no espírito generoso de quem com ele queira entabular uma conversa de café (no sentido nobre, tertuliano, da expressão). A utilidade das artes e das humanidades exerce-se num regime quase oposto (porque mais íntimo, essencial, e menos urgente) ao da utilidade das ciências de índole matemática.

Estamos numa época da história humana em que temos de (podemos?) assumir que o paradigma que nos rege é o da ignorância selectiva. Isto seria impensável noutros tempos, mas a verdade é que, dada a quantidade de conhecimento que foi produzido pelo homem, mais do que escolhermos o que queremos saber, temos hoje de escolher o que não poderemos nunca saber. Só o computador terá ainda hipótese de ser um sábio renascentista... E que difícil é equilibrar a curiosidade intelectual para não se descambar nem no diletantismo-trivial-pursuit nem na especialização deformadora. De qualquer modo, postulo que, ou os livros são abre-te-sésamos para todo e qualquer intelecto, ou então não vale a pena continuar a fazê-los.

Nos textos sobre cinema que tenho vindo a escrever no Cabo da Boa Tormenta, estou a tentar justificar o meu gosto cinéfilo ligeiramente impopular (ao que parece). É a Universidade Pedro Ludgero: se me dizem que não percebem o porquê da minha adesão a (ou o próprio conteúdo de) um filme, eu tento, em textos de clareza e dimensão legíveis, esgrimir as minhas razões objectivas e desvelar alguns aspectos da obra que podem parecer obscuros mas que, afinal, até nem o são. Não pretendo uma graduação académica, mas seguir um pouco o espírito de Agostinho da Silva, que dizia que uma Universidade deveria ser apenas um sítio onde íamos perguntar aquilo que não sabíamos. Tento ser tão útil quanto o médico, o bombeiro ou o agricultor.

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