quarta-feira, janeiro 12, 2011

Cinefilia

Sempre me intrigou o mistério de alguns espectadores de cinema disponibilizarem preferencialmente a sua afeição por aqueles filmes que confirmam o seu sistema de crenças. O comunista tende a apreciar fitas de discurso militante, o católico elege obras de inquietação em torno do sagrado, o homossexual vibra com a estética queer, o médico quer ver a sua missão recriada no ecrã, e etc., e etc.

Quero crer que o espectador cinéfilo é aquele que, quando vai ver um filme, vai ver, em primeiro lugar, o cinema: a sua história, as suas possibilidades, o seu idiossincrático poder de sedução. Não quero com isto dizer que um cinéfilo se demite da sua relação com a vida quando está dentro da sala de projecção. Muito pelo contrário: o cinéfilo não é um freak que colecciona DVDs ou posters de vedetas, mas alguém que sinceramente aceita que o cinema lhe abra perspectivas sobre a vida.

Parte do meu fascínio pela teologia (eu, que sou agnóstico convicto) deve-se à casualidade de a história do cinema ser fértil em obras-primas de discurso religioso. Pelo contrário, a despeito de eu me dedicar à escrita poética, o cinema de Jane Campion diz-me muito pouco. Uma das poucas gloríolas que eu reclamo para a minha insignificante existência é, precisamente, este gosto do cinema.

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