segunda-feira, janeiro 31, 2011

Partilha 112

voz de vanessa redgrave



o=57


hoje caminhei sobre as águas



desafio quem não acreditar
a travar comigo um duelo
sobre o mar vermelho do seu sangue
ou sobre o oceano morto do futuro

entretanto
tenho vindo a caminhar sobre o pacífico
e tenho-o até tomado por imagem da generosidade

a gente passa e diz lá vai o frei aster
lá desce a maradona, como flecha

porém eu sinto é falta dos meus meros
dos meus ecos
(cavalos marinhos)............................
das ostras livres de pérola

[no fundo
de mim mesmo
eu vejo apenas as solas dos pés
eu sou um macaquinho no meu sótão]

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Resumo do post anterior

O tradutor deve restituir, no texto traduzido, a integridade e a integralidade da potência semântica de um texto escrito numa outra língua. Mas, por definição, não o pode é fazer da mesma maneira (não é só o idioma que é distinto, mas também a cultura dos destinatários do novo texto, a época em que este é escrito, etc.). Em consequência, se, num acto de tradução, o sentido deve ser transposto em toda a sua amplitude (pelo menos numa perspectiva ideal), a forma tem de ser sempre filtrada. O tradutor é um escritor que não diz nada de novo, mas que tem de reorganizar (tudo) aquilo que outro disse.

Sublinhando a importância da palavra "quase", eu não defenderia que traduzir é "dizer quase a mesma coisa" (o que pode fazer todo o sentido no seio da teorização de Umberto Eco, que, como já mencionei, ainda não li), mas dizer a mesma coisa quase da mesma maneira.

Claro que a minha formulação contém dentro de si um logro lógico: a ideia de que forma e conteúdo podem não se equivaler. Mas é esta menoridade do tradutor perante o conteúdo do texto que sentencia toda a tradução ao falhanço.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Notas (preliminares) sobre tradução

Embora ainda não tenha lido as grandes obras de referência que reflectem sobre o trabalho do tradutor (Steiner, Eco, Ricoeur, etc.), a minha (ainda pequena) experiência nesse campo já me deixa entrever algumas tomadas de posição teórica que de forma mais ou menos consciente vão norteando o meu fazer. Não sou, de resto, favorável à ideia de que só se deve fazer depois de pensar, antes defendo que fazer e pensar devem ser contemporâneos na sua mútua iluminação.

A primeira evidência que se me impõe é a imperfeição insanável de todo o esforço de tradução. Alguns autores confessam que, se muito dificilmente aceitariam rescrever a sua própria obra, estão sempre dispostos a tentar uma nova versão de um texto que traduziram. De facto, ainda que seja por vezes possível fazer um texto com o valor da jóia (dureza, valor, coerência interna), o mesmo estado de graça nunca recai sobre uma tradução, não porque esta funcione como uma inevitável degenerescência do texto original, mas porque implica um conjunto de opções demasiado arriscadas e polémicas que lhe impedem a possibilidade de uma sedução universal. É preciso que o tradutor esteja preparado para falhar, e para falhar rotundamente. A humildade é a palavra de ordem em tal labor.

Dito isto, postulo que todo o texto é traduzível (isto é uma loucura, claro, mas a esperança racional é sempre uma loucura). O que não quer dizer que haja interesse em traduzir todos os textos. Pedro Tamen já defendeu que, por exemplo, uma tradução do "Finnegans Wake" de James Joyce é francamente desaconselhável. Aliás, neste caso, seria lícito perguntar qual é exactamente a língua do texto de origem... O livro do autor irlandês talvez seja uma babel que superou o próprio conceito de babel.

Penso, no entanto, que, pelo menos de um ponto de vista teórico, a riqueza semântica integral de um texto pode ser invariavelmente transposta para um outro texto numa língua diferente. Não pode é ser reproduzida da mesma maneira. Um exemplo: na minha versão do poema "Ode to concrete" de Joseph Brodsky, optei por dar ao texto português o título "Ode ao concreto" (ao conceito abstracto de concreto, passe o paradoxo), e mantive no corpo do poema a referência imediata do discurso do autor que é, claro, o cimento. Embora no português de Portugal não haja uma palavra que reúna, ambiguamente, esses dois significados no mesmo significante, a riqueza semântica do enunciado de Brodsky pôde, julgo eu, ser mantida.

Se me parece claro que o tradutor deve esgotar todos os seus esforços para transpor a plenitude semântica do texto no qual trabalha (para isso é necessário estar atento à investigação académica), as questões formais merecem talvez outro tipo de distância. O poema "Mémoire", de Rimbaud, foi muito relevante para a sua época enquanto estratégia de demolição do verso alexandrino a partir do seu interior, mas fará algum sentido "reencenar" esse golpe de rins para o leitor do século XXI, habituado que este está a uma total arbitrariedade métrica? Será legítimo fazer corresponder, à modalidade dialectal em que está escrito um texto, um dialecto da cultura que o vai receber, quando não há qualquer equiparação possível entre as duas culturas?

Não quero com isto dizer que privilegio traduções meramente semânticas. Muito pelo contrário. Penso é que o tradutor deve escolher com cautela quais são as dimensões formais que podem e devem ser disponibilizadas para o leitor a quem se dirige. Se a tradução de um soneto de Mallarmé deverá certamente pautar-se por uma atenção parnasiana à perfeição formal (a reflexão sobre a Forma, de resto, é um dos Conteúdos principais desse autor francês), não me parece tão necessário construir sonetos ortodoxos a partir dos textos que, em torno dessa forma, Shakespeare escreveu (até porque a métrica do inglês e a do português são algo incompatíveis). Shakespeare escreveu a partir de um molde cuja autoridade estética é francamente questionável para o leitor contemporâneo. Se um certo trabalho de regularidade rítmica e rimática poderá fazer parte do prazer investido no soneto traduzido, isso não deve levar a soluções artificiais.

De resto, o tradutor deve escolher se pretende traduzir o soneto shakespeariano de acordo com o português da época em que este foi escrito, ou se prefere tomar o leitor da sua própria época como destinatário. Sou completamente favorável a esta segunda opção (até porque a primeira não me parece estar ao alcance honesto de ninguém). Não se trata de pôr personagens elisabetanos a exprimirem-se com linguagem de rappers, claro, mas de procurar um texto que seja válido dentro da expressividade potencial do português a que o tradutor, na gestão do seu quotidiano linguístico, tem acesso.

Por fim, postulo que o texto traduzido deve ser um excelente texto na língua portuguesa. O tradutor é também um escritor. Apesar de isto parecer uma evidência, este é talvez o maior defeito com que por vezes o leitor se depara em alguns trabalhos: a mediocridade especificamente literária da tradução. Nunca averiguei qual o grau de rigor da versão que Álvaro Cunhal fez de "O Rei Lear" (se bem que me parece um pouco constrangida pelo pudor), mas a absoluta delícia oral do seu português dão ao texto a carta de alforria necessária para uma provável montagem em cena.

Acima de tudo, o tradutor é um ensaísta oblíquo. Humildade não significa ausência de ideologia. Não tenhamos ilusões sobre a invisibilidade do trabalho do tradutor (aliás, neste país onde ninguém quer aparecer, não há falta de convidados para programas televisivos de culinária). Se a grandeza criadora pertence obviamente ao autor original, o tradutor tem que investir o seu texto da sua concepção de literatura, da sua concepção de escrita, da sua concepção de língua portuguesa, da sua concepção de tradução e do seu entendimento do autor que está disponibilizar. Brancos são os votos para a Presidência da República.

domingo, janeiro 23, 2011

Partilha 111

voz de cesária évora

"De que árvore em flor
não sei
- mas que perfume!"
Matsuo Bashô




e= 51


espero muito, mesmo muito, estar enganado
e quero muito, mesmo muito, que deus exista
e me receba num país colossal

entretanto
neste mundo.....................
aprimoro esta minha conduta:
escolho a paisagem da viagem
do meu comboio desde a morte até ao fim:

alperceiros de néon em plena noite que
se acende num maço de rosas que
marca o modo como vemos a mudança da amen-
doeira em meio-dia

[e espero que a jornada
seja infinda]

Segunda instância

É preciso ser-se muito estável para se conseguir terminar, no orgasmo, a relação com quem se deseja.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Do blogger como besta sentimental



(É favor descontar-se a publicidade ao Montepio...)

Ética do comentador

Já mencionei, há uns posts atrás, que estava a ler o livro "Stratégies de Rimbaud", um conjunto de ensaios (de assunto evidente) da autoria de Steve Murphy, professor universitário francófono. Devo dizer que é uma leitura que me está a dar um gozo infinito (confesso que preferiria passar o resto da vida a ler ensaios sobre poesia do que a ler romances). Para além disso, a competência do autor é absolutamente notável. Trata-se, provavelmente, da mais intensa estratégia de close reading a que já tive acesso (o que só clarificará a triste pobreza das minhas leituras, claro).

No entanto, nenhuma erudição me assusta o suficiente para me abafar o sentido crítico. Passo a explicar. O artigo central do livro é uma análise do (excelente) poema "Mémoire", mais de cem páginas de investigação obsessiva sobre uns míseros quarenta versos. Algumas das intuições propostas têm, francamente, uma utilidade inesgotável. Por exemplo, na sua leitura dos versos "Elle / sombre, ayant le Ciel bleu pour ciel-de-lit, appelle / pour rideaux l'ombre de la colline et de l'arche" (tradução em baixo), Murphy defende que Rimbaud recorre ao discurso indirecto livre (ou seja, a voz de uma personagem imiscui-se, sem que isso seja directamente assumido, na voz do narrador) para mostrar a psicologia feminina do rio (que sonha uma felicidade doméstica). Não só essa tese adquire de imediato o peso de uma evidência interpretativa (legitimando o tipo de imagens atípicas e algo estereotipadas usadas por Rimbaud neste passo), como vai com certeza ao encontro das intenções perfeitamente conscientes e calculadas do poeta. O comentador fez, aqui, serviço público.

Noutro momento do seu ensaio, Murphy propõe que, depois do escritor comparar os vestidos verdes de umas meninas espectrais a um conjunto de salgueiros, os pássaros que se desprendem dessa ilusão figurada voam com o mesmo tipo de frustração que terá dispersado os pássaros que tomaram o trompe-l'oeil das uvas do pintor Zeuxis por uvas verdadeiras. Eis um momento em que o ensaio se torna um poema. Se a imagem de Rimbaud é potente, o seu prolongamento na imaginação do ensaísta adquire uma espécie de paroxismo expressivo. Mas a verdade é que, se a intuição não é, em si mesma, um erro de coerência na leitura de "Mémoire", nada no texto a parece legitimar. Se, em vez de salgueiros, os vestidos fossem comparados a videiras, ou se a palavra "trompés" estivesse associada a estas aves polémicas, a opinião de Murphy seria um achado científico. Assim sendo, é uma liberdade que aproveita mais à vaidade do comentador do que à justiça do comentado.

Li, uma vez, que o mundo estava tão velho que já não se escreviam comentários sobre os textos, mas comentários aos comentários sobre os textos... Mas o facto de o mundo ser um caos, isso não impede que não continuemos a pugnar por nele engendrarmos a nossa quota-parte de diamantes (falo de dureza, valor, coerência interna). Quero com isto dizer que não estou a comentar o comentário, mas a defender uma ética do comentário: pois postulo que só devemos ler num texto aquilo que ele nos oferece a ler (o que inclui as eventuais remissões intertextuais que ele prodigalize ou a cultura de lugares comuns da época em que ele foi escrito). De facto, Rimbaud podia muito bem ter pensado nos pássaros da lenda de Zeuxis. Mas se o pensou, não o escreveu, nem da maneira mais oblíqua possível. Assim sendo, nenhum leitor será auxiliado pelo ensaísta quando ele toma a sua liberdade (note-se que o objectivo não é pensar a partir do texto, mas simplesmente lê-lo, adivinhar as intenções do autor). Pelo contrário, o leitor pode até ser confundido, e induzido a entrar em delírios hermenêuticos noutras aventuras literárias por que decida passar. Como me parece que a utilidade do pensamento é incitar o seu receptor a continuar a pensar, talvez a função do leitor avalizado seja também a de incitar o seu leitor a ser melhor leitor. Nada mais.


(Tradução de Maria Gabriela Llansol: "Ela / tomba, tendo por dossel o Céu azul, chama, / para cortinas, a sombra da arca e da colina." - Outras das utilidades imensas do ensaio académico é o manancial de informação que ele fornece à actividade do tradutor. Tivesse Llansol, minha escritora tão cara, lido o texto de Murphy, e teria percebido que a palavra "arche", neste caso, se refere a um arco de ponte ou aqueduto por baixo do qual o rio passa, e não a uma putativa arca que só vem trazer confusão semântica à leitura de um poema que não prima, como é normal em Rimbaud, pela transparência imediata.)


Imagem retirada daqui

sexta-feira, janeiro 14, 2011

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Retórica de trazer por casa

Certa vez, fui acusado de ser misantropo (ou autista, ou lá o que era) por ter começado uma enumeração pela palavra "coisas", e só depois ter escrito a palavra "pessoas". Desde aí, sempre que faço uma enumeração, tenho o cuidado de ordenar os itens de modo a criar a perfeita ilusão da minha sanidade mental.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

"Copie conforme" - imagem

O ACTUAL 30

"Copie conforme" - Abbas Kiarostami



O mais recente filme do mestre iraniano retoma o mesmo discurso de "Shirin": o homem é o forjador da Cultura que só a mulher tenta verdadeiramente pôr em prática. Aqui está o intelectual-aparentemente-renitente que, perante a materialização à sua frente da cópia certificada que teorizou (Juliette Binoche, por quem milito), tem de estar na estação às nove horas... Perspectiva que algum feminismo considerará ofensiva, certamente, mas que revela um verdadeiro espírito de crítica da (suposta) mediocridade emocional masculina. Ao contrário do que defenderam alguns comentadores, esta viagem por Itália não está pasmada com as glórias da civilização, mas traz implícita uma real desconfiança da cultura: se o que diz uma criança disser o intelectual, o disparate adquire prestígio. O amor, de resto, é o disparate mais antigo da história.

O sucesso da obra reside na surpresa de se filmar o possível início de uma relação sentimental como se ela fosse um absurdo pleno de repercussões semânticas: eles representam, desde logo, o futuro distante do seu afecto ("O primeiro desejo dos amantes / É serem velhos amantes" - Regina Guimarães). O profundo incómodo assim criado (quase surrealista, bem mais próximo, de resto, de Antonioni que de Rossellini) nunca é corrigido pela verdade que os actores vão descobrindo-inventando. Os espectadores riem-se: esta é a renovação da comédia romântica que Hollywood não está a conseguir fazer. Repare-se como os dois protagonistas acertam na perfeição no filme um do outro, na medida em que os argumentos da chamada vida real são sempre clichés (há sempre um adormecer no dia do aniversário, e etc.). A distância do realizador tanto deve à paródia como à sabedoria.

Não será o mais perfeito Kiarostami (é talvez um filme demasiado falado), mas é o menos confortável, o menos consensual. "Copie conforme" termina numa vista, de quarto, sobre a cidade, na qual um par gémeo de sinos toca a intuição exaltada de que a provável reconciliação de um par equivale sempre a um milagre. Exactamente como no fim de "Viaggio in Italia", de que este filme nem sequer é uma cópia. Não há nada mais estranho do que retomar, uma vez mais, os caminhos do coração.

Cinefilia

Sempre me intrigou o mistério de alguns espectadores de cinema disponibilizarem preferencialmente a sua afeição por aqueles filmes que confirmam o seu sistema de crenças. O comunista tende a apreciar fitas de discurso militante, o católico elege obras de inquietação em torno do sagrado, o homossexual vibra com a estética queer, o médico quer ver a sua missão recriada no ecrã, e etc., e etc.

Quero crer que o espectador cinéfilo é aquele que, quando vai ver um filme, vai ver, em primeiro lugar, o cinema: a sua história, as suas possibilidades, o seu idiossincrático poder de sedução. Não quero com isto dizer que um cinéfilo se demite da sua relação com a vida quando está dentro da sala de projecção. Muito pelo contrário: o cinéfilo não é um freak que colecciona DVDs ou posters de vedetas, mas alguém que sinceramente aceita que o cinema lhe abra perspectivas sobre a vida.

Parte do meu fascínio pela teologia (eu, que sou agnóstico convicto) deve-se à casualidade de a história do cinema ser fértil em obras-primas de discurso religioso. Pelo contrário, a despeito de eu me dedicar à escrita poética, o cinema de Jane Campion diz-me muito pouco. Uma das poucas gloríolas que eu reclamo para a minha insignificante existência é, precisamente, este gosto do cinema.

sábado, janeiro 08, 2011

Crónica da Universidade

A minha experiência universitária resume-se a uma licenciatura no falhanço. Excelente aluno na área das Humanidades, fui-me encaminhado para o Curso de Direito na Universidade Católica do Porto, onde confirmei o meu total desinteresse pelas profissões sisudas, o meu agnosticismo de estimação, e uma saudável alergia aos ácaros da alta roda conservadora. Alcancei uma única nota memorável, um dezoito, na disciplina de Economia, porventura o ramo de todo o saber que menos me interessa. De resto, saí da aventura académica com depressão, menos inteligência e já outra profissão.

Talvez por causa disso, ou talvez não, a verdade é que acabei por formar uma imagem fantasiosa do que seria uma verdadeira vida académica. Assim como gostaria de ter escrito um livro intitulado "InterRail e outras coisas que não fiz" (especialmente dada a frustração heróica do decassílabo que o estrutura), poderia com toda a facilidade dedicar-me a um projecto "Entre Hogwarts e Salamanca". A universidade, como o Brasil ou a parentalidade, é uma daquelas existências que sempre idolatrei porque só delas participei enquanto turista acidental. Oxford, Cornell, Sorbonne, seduzem-me de maneira pueril como só as constelações de estrelas o conseguem, e nelas vejo-me rodeado de livros-que-eu-quero-de-facto-ler e de outonos-de-brochura, para sempre dedicado ao estudo e ao sexo com todas as protecções insulares que a gratuitidade, a civilidade e a inesgotável profusão nos podem oferecer.

Mas não é preciso ir para a universidade para poder, enfim, desconfiar da universidade. Estou neste momento a meio da leitura do excelente livro "Stratégies de Rimbaud", um conjunto de micro-leituras do autor do "Bateau ivre" pelo académico inglês de expressão francesa Steve Murphy. A erudição do estudo é exuberante, talvez sem mácula, a sua aplicação é invariavelmente eficaz, a clareza do discurso é total. No entanto, vive em mim a impressão de que essa erudição talvez esteja sempre a ser utilizada pelo ensaísta para defender a sua imagem (apriorista?) de um Rimbaud militante de esquerda. De qualquer modo, isso talvez seja o que todos fazemos. O que verdadeiramente me inquieta é a dúvida sobre qual a real utilidade literária de todo este esforço para um leitor que não seja um hamster de universidade.

Se não há sombra de dúvida sobre a utilidade das pesquisas altamente especializadas no âmbito das ciências (mais tarde ou mais cedo têm uma aplicação pragmática), eu já não estou tão certo de que um texto literário tenha uma maior repercussão sobre o seu potencial leitor se for observado com o auxílio de um microscópio ou de um telescópio. Quem escreve, fá-lo para encontrar uma brecha de troca directa com um receptor que não pode alcançar no espaço e/ou no tempo. Mas a distância a que o texto tem de estar do seu leitor é a distância do olho nu. Claro que a investigação académica pode contribuir, por exemplo, para uma anotação esclarecedora das obras, ou para um apoio pedagógico à sua circulação (nomeadamente quando se trate de obras de leitura pouco evidente). Tenho, contudo, a certeza absoluta de que Rimbaud não escreveu para ser estudado, mas para intervir no espírito generoso de quem com ele queira entabular uma conversa de café (no sentido nobre, tertuliano, da expressão). A utilidade das artes e das humanidades exerce-se num regime quase oposto (porque mais íntimo, essencial, e menos urgente) ao da utilidade das ciências de índole matemática.

Estamos numa época da história humana em que temos de (podemos?) assumir que o paradigma que nos rege é o da ignorância selectiva. Isto seria impensável noutros tempos, mas a verdade é que, dada a quantidade de conhecimento que foi produzido pelo homem, mais do que escolhermos o que queremos saber, temos hoje de escolher o que não poderemos nunca saber. Só o computador terá ainda hipótese de ser um sábio renascentista... E que difícil é equilibrar a curiosidade intelectual para não se descambar nem no diletantismo-trivial-pursuit nem na especialização deformadora. De qualquer modo, postulo que, ou os livros são abre-te-sésamos para todo e qualquer intelecto, ou então não vale a pena continuar a fazê-los.

Nos textos sobre cinema que tenho vindo a escrever no Cabo da Boa Tormenta, estou a tentar justificar o meu gosto cinéfilo ligeiramente impopular (ao que parece). É a Universidade Pedro Ludgero: se me dizem que não percebem o porquê da minha adesão a (ou o próprio conteúdo de) um filme, eu tento, em textos de clareza e dimensão legíveis, esgrimir as minhas razões objectivas e desvelar alguns aspectos da obra que podem parecer obscuros mas que, afinal, até nem o são. Não pretendo uma graduação académica, mas seguir um pouco o espírito de Agostinho da Silva, que dizia que uma Universidade deveria ser apenas um sítio onde íamos perguntar aquilo que não sabíamos. Tento ser tão útil quanto o médico, o bombeiro ou o agricultor.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

"Je vous salue, Marie" - imagem

O INACTUAL 56

"Je vous salue, Marie" - Jean-Luc Godard (1985)


Em "Ave Maria" (nome que o filme deveria ter em português, na medida em que o seu título original equivale ao primeiro verso dessa popular oração), Godard estabelece uma ligação entre a crença de que a vida terrena foi Criada por uma vontade transcendente e o mito da imaculada concepção. Na verdade, este deriva, acima de tudo, de uma firme continuidade lógica (Deus não poderia gerar o seu filho segundo as regras de geração deste mundo, mas sim reactivando o ex nihilo dos seus poderes demiúrgicos), e não propriamente de uma condenação cifrada da sexualidade.

A montagem da obra, organizada em torno de imagens de esferas (o sol, a lua, etc.), mais do que limitar-se a engendrar metáforas visuais do ventre prenhe, encena o progressivo abaixamento de toda essa Luz desde o Céu até à Terra, culminando no plano, de uma beleza de cortar a respiração, em que Maria e José se colocam ao lado de um candeeiro esférico em incandescência. A loucura de Maria (a loucura do cristão, melhor dizendo) é acreditar que não é o corpo que tem uma alma, mas a alma que tem um corpo.

De algum modo, essa parece ser também a loucura de Godard (seja qual for o seu teor religioso): os seres dos seus filmes, mais do que personagens numa narrativa realista (que é sempre reduzida a uma espécie de burlesco nonsense), são intermitentemente narrados pela pintura (é inesgotável o talento do realizador para o enquadramento e para a iluminação), pela música (uma colagem erudita de história da música com silêncio) e pela poesia (uma poesia sempre próxima do disparate, da caralhada lírica ou metafísica). Talvez seja isso que o tenha feito cair na tentação de celebrar uma Maria que, após o parto de Jesus, decide mesmo manter-se casta para conter o seu corpo dentro da plenitude do Espírito. É claro que Godard parece sempre algo assexuado, de tal modo é profunda e sincera a sua militância pelo amor (vi recentemente uma entrevista em que ele se gabava de só ter dormido com uma rapariga após os vinte anos...), mas esta ortodoxia causa-me uma certa repugnância ideológica. Se "Je vous salue, Marie" foi um escândalo, tal deveu-se ao facto de ele ser um filme de vanguarda em que, por exemplo, se usa a palavra "cu", ou a mãe de Cristo é uma basquetebolista, filme que os espectadores não foram capazes de compreender. Porque, por mim, o escândalo disto é isto não ser suficientemente escandaloso. Se Godard fala de Pascal, eu prefiro falar de Espinoza.

Infinitamente mais interessante é a alegoria do cubo de Rubik (espero que já haja um estudo sobre a inventividade alegórica deste autor), em que se revela que o par amoroso, por ser par amoroso, pode desvendar os mistérios teológicos a uma velocidade desmesurada. A aceitação da gravidez de Maria por José, o corno mais cósmico de todos os tempos, e a sua ainda mais inesperada aceitação de uma conjugalidade casta, são uma espécie de ponto alto (histérico) do "éloge du couple" por Godard. Histérica também a sua devoção à figura feminina: Godard tanto parece misógino em "A bout de souffle" (a mulher é a grande traidora) como aqui se dedica a um feminismo hiperbólico que chega a ser difícil de aceitar (também já o ouvi gabar-se de só ter um amigo do sexo masculino). Os diversos temas dos filmes (a actualidade política, o cinema, o sagrado neste caso, etc.), mais do que objectos de verdadeiras e definitivas análises, parecem ser pontos de vista diversos (desculpas) sobre a eterna imagem de Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg descendo, lado a lado, os Campos Elísios.

Obras de Santa Engrácia

Há um novo ensaio no meu site "Orfeu de corpo inteiro", e um novo texto no meu blogue/livro "três escrínios".

Contra o glamour do realisminho

É costume ouvir-se dizer que, se o homicídio existe de facto dentro da vontade de alguns homens, o mais provável é que ele exista, em potência, dentro de cada um de nós, por muito que isso nos cause um espanto e uma repulsa quase insustentáveis.

Ora o pensamento permite que passemos deste realisminho para um verdadeiro realismo: pois se é verdade que uma grande generosidade existe dentro de alguns homens, o mais provável é que uma grande generosidade exista, em potência, dentro de cada um de nós, por muito que isso choque a nossa velhice e a nossa sofisticação ocidental.