domingo, dezembro 05, 2010

Nota "En la ciudad de Sylvia"

Não fiquei especialmente cliente deste filme (do ano de 2007) do espanhol José Luis Guerín, se bem que lhe reconheça admiráveis qualidades.

Como não partilho da teoria de que uma forma exuberante possa revolucionar um conteúdo medíocre (já aqui expliquei como, em "Touch of evil" de Orson Welles, entendo forma e conteúdo como sendo plenamente solidários), fico bastante inquieto com o lirismo adolescente (se é que, de facto, isto é lirismo) proposto pelo realizador. Compreendo que o seu filme seja uma parábola, e por isso não tenha de ser verosímil. Mas as parábolas não estão isentas de, em si mesmas, terem de apresentar um entusiasmo narrativo (falo de entusiasmo, não de estrutura), e, a esse respeito, "En la ciudad de Sylvia" é um filme delico-doce, previsível e pueril. Apesar de ser usual aproximar-se criticamente este autor da criatividade de Victor Erice, é precisamente ao nível do rigor do conteúdo que os dois se afastam irremediavelmente.

No entanto, há que reconhecer que Guerín é um pintor notável (ou talvez deva dizer "desenhador", para estar de acordo com o cliché proposto). "En la ciudad de Sylvia" vale pela extrema atenção assumida pela câmara perante as inúmeras possibilidades de enquadrar o feminino numa paisagem urbana. Toda a sequência do café, em que o autor nos obriga a olhar para esta ou aquela mulher através dos interstícios deixados pelo movimento de outros corpos, e que culmina com a visão da protagonista (é o café do Conservatoire d'art dramatique...) através de um vidro onde se acumulam os reflexos (fantasmas) de outras candidatas-a-protagonista, é simplesmente maravilhosa. E há momentos de verdadeiro êxtase, neste filme: seja a cena em que o travelling da câmara parece estar apoiado sobre os carris do eléctrico (como se a capacidade de criar imagens estivesse plenamente sintonizada com os movimentos urbanos), seja o breve instante em que a rapariga caminha sob a intensa sonoridade dos sinos da cidade, seja toda a sequência do vento no final...

Dentro do género, já se fez francamente melhor (o Hitchcock de "Vertigo", o Godard de Anna Karina, o Antonioni eternamente tentando identificar uma mulher). Mas este é o género de filme falhado que eu aconselharia a um amigo.

2 comentários:

petit paysan disse...

;)

completamente de acordo.

Pedro Ludgero disse...

Juro que a última frase do post foi completamente inconsciente... :)

Muito obrigado por todos estes filmes!