domingo, dezembro 26, 2010

Cadernos Rimbaldianos 3 & Pessoanos 1

À primeira impressão, Rimbaud parece ser um poeta de irracionalidades evidentes e histéricas, paralelas à dispersão mal-comportada da sua biografia, enquanto Fernando Pessoa se nos apresenta como um mestre do auto-controlo reflexivo.

A maior parte dos comentadores da obra do francês apressam-se, contudo, a sublinhar a importância da palavra "raisonné" na sua famosa expressão programática "raisonné dérèglement de tous les sens". Na verdade, Rimbaud sempre procurou trabalhar com método, mesmo que esse método lhe servisse precisamente para tornar consciente aquilo que (ainda) era inconsciente. A sua leitura atenta mostra um artesão com perfeito domínio das várias ferramentas da sua arte, pesando e sopesando todos os níveis da inesgotável polissemia dos textos que estava a produzir.

Pelo contrário, Pessoa é um pensador superficial e incoerente quando comparado com Rimbaud (este fez uma das mais subtis críticas de sempre ao capitalismo). "O livro do desassossego" é uma obra-prima do politicamente incorrecto (no sentido pejorativo da expressão), e vale sobretudo como esplendor de disparates geniais (é a minha opinião). Ao mesmo tempo, a despeito do tom filosofante dos seus poemas e do fingimento assumido da emoção, Pessoa está constantemente a revelar as suas exemplares fragilidades. Mesmo quando assume as máscaras heteronímicas (ou sobretudo quando as assume...). A obra pessoana é um drama psíquico vibrando, sem qualquer sentimentalismo, nas entrelinhas de uma pseudo-filosofia.

Rimbaud sabia como escrever bem. Foi um poeta e um pensador. Pessoa escrevia bem sem o querer. Foi um poeta, maravilhoso, mas apenas poeta.

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