domingo, dezembro 26, 2010

Ainda dentro do espírito natalício...

... um post de grande singeleza:

Há uns tempos atrás, uma pessoa disse-me que conhecia um casal em que um dos cônjuges se tinha filiado no PS e o outro no PSD para terem sempre garantida a aprovação de todos os seus projectos. Dizia-o com admiração babada. Ao mesmo tempo, essa médica criticava, com indignação, o Estado português, por aqueles gastos irreflectidos e inúteis no Sistema Nacional de Saúde que comprometiam a essência benéfica desse serviço público cuja bondade se lhe afigurava inquestionável. Ora, eu não sei se esta pessoa não merece o Estado que tem, e vice-versa. Apesar de me encontrar próximo das ideologias de esquerda, nunca me senti vocacionado para uma consciência de classe, porque não tenho bem a certeza da validade daquilo que pretendem os indivíduos que compõem as classes (todas as classes, sem excepção).

Disse-o o intelectual que conhecemos como Cristo (eu avisei que isto era singelo), mas disseram-no muitos outros homens e mulheres. Algo muito simples, que toda a gente proclama (políticos, pais natais, a Cristina Caras Lindas) mas ninguém, mesmo ninguém, pensa levar a sério: não haverá ultrapassagem da crise-em-sentido-amplo (esse estádio perene do capitalismo, como disse recentemente António Guerreiro no EXPRESSO), se a honestidade, em todas as suas manifestações e consequências, não for um valor pragmático universal. Isto parece discurso de púlpito, ingenuidade de criança, inanidade de Praça da Alegria, mas a porra toda é que é mesmo verdade.

Claro que nunca ninguém aderirá a esta mínima. Até porque é tão simples que não tem glamour (os cristãos, aliás, preferiram ocupar os últimos dois mil anos com o puritanismo sexual). De resto, a maior parte dos homens nem sequer tem a percepção da sua própria desonestidade entranhada. Mas também garanto que não haverá Prémio Nobel de Tudo e Mais Alguma Coisa (de esquerda ou de direita) que consiga um dia resolver a sempiterna crise, porque a solução teria de começar no intelecto moral de cada um de nós, ou não seria uma solução.

Claro que há políticos de grande talento, sobretudo prático, e que sabem agir com alguma eficácia em momentos difíceis (falam-me de Sá Carneiro e Mário Soares, mas o Cavaco já não me conseguem impingir). Claro que de vez em quando chovem pennies from heaven (ouro do Brasil, petróleo, a CEE). Mas, da próxima vez que lhe vier a tentação de desejar um homem providencial ou um maná ex machina, olhe para dentro da sua própria responsabilidade.

Voltarei, em breve, aos posts de bom gosto.

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