segunda-feira, dezembro 20, 2010

Adenda a "O INACTUAL 28"

Já falei aqui sobre o "Aniki-Bobó". Mas ao revê-lo ontem, na reposição que um cinema do Porto lhe dedicou, surgiu-me uma pista de leitura oblíqua face à anteriormente proposta.

Que o filme tem uma superfície de discurso moral, isso é evidente. Mas o conteúdo desse discurso é bem ambíguo. O roubar da boneca é o indício figurado da vontade que Carlitos tem de roubar a namorada ao amigo. É uma paixão pura e dura, alheia a frios cavalheirismos. No entanto, a culpa imaginária que, a propósito disso, sobre ele se instala (na magnífica cena do jogo de polícias e ladrões) é completamente curada pela injusta acusação real que posteriormente o atinge. Oliveira terá os seus negócios com a Transcendência, mas parece convicto de que nem todos os Mandamentos terão o mesmo peso: cobiçar a mulher do próximo não equivale, de modo algum, a matar. E no fim, Carlitos fica com Teresinha...

Em concordância estética, os miúdos representam o que acham que é representar (nesse sentido, o filme não tem nada a ver com a naturalidade procurada pelo posterior neo-realismo). Estes sorrisos de cromos japoneses ou os beiços amuados de forma hiperbólica (imitação bacoca dos adultos) são o tipo de subtileza que Oliveira tem na abordagem aos actores que, ainda hoje, lhe vale desaforos e incompreensões. O esplendor dessa maneira será atingido no "Acto da Primavera", na medida em que o artifício é radical e plenamente assumido em todos os aspectos da realização. Pena que, nos últimos anos, Oliveira tenha perdido a firmeza do seu sistema.

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