quarta-feira, novembro 24, 2010

O INACTUAL 55

"Hamsarayan" - Abbas Kiarostami (1982)



A. Recentemente, tive a oportunidade de ver quatro curtas-metragens que Kiarostami realizou no âmbito da sua colaboração com o Instituto (iraniano) para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens Adultos (forneço as traduções dos títulos para a língua inglesa, porque não conheço as soluções correspondentes em português): "Noon va Koucheh" ("Bread and alley", 1970), "Zang-e Tafrih" ("Breaktime", 1972), "Do Rahehal Baraye yek Masaleh" ("Two solutions for one problem", 1975) e "Hamsarayan" ("The chorus"). Pude re-observar algumas características temáticas e formais que compõem uma espécie de espinha dorsal da sua obra:

1. A maior parte dos filmes decalca a sua ficção-documento a partir de um lugar comum alegórico: o caminho com obstáculos. É um lugar comum completamente despido, frontal, directo (não está disfarçado por uma pseudo-sofisticação), e com consequências ao nível da organização visual das obras. Talvez esta obsessão tenha sido em parte sugerida pelo urbanismo enviesado das urbes iranianas. De qualquer modo, o cineasta tem uma manifesta predilecção pela passagem estreita, como se estivesse sempre a glosar o tema do labirinto do conto infantil.

2. A despeito de ser um autor que se mantém próximo do quotidiano, este aparece intensificado até atingir uma dimensão para-épica: na mais bela daquelas curtas-metragens, "Hamsarayan", há um cavalo puxando uma carroça que corre como um louco pelo labirinto citadino. Todos os filmes de Kiarostami registam a dificuldade extrema de realizar uma acção muito simples: por exemplo, entregar um caderno a um colega em "Onde é a casa do meu amigo?".

3. Perante cada obstáculo pequeno-grande que se apresenta no caminho, há sempre dois pontos de vista igualmente válidos e que não se excluem mutuamente. A didáctica de "Noon va Koucheh" não é nada simplista: com a simples arma de um pão, uma criança faz com que um animal passe de ameaça de agressão a vítima emocional. Em "Hamsarayan", o gesto de tirar o aparelho que mitiga a surdez tanto pode constituir uma defesa (contra os ruídos desagradáveis) como pode tornar o seu portador indefeso (não ouve o cavalo que se aproxima, não ouve as netas que o chamam). Nessa grande síntese que é "O sabor da cereja", o espectador assiste à reticência com que os homens auxiliam uma pulsão mortal e à naturalidade com que é acolhida a tendência oposta.


B. "Hamsarayan" parece-me ser uma pequena obra-prima. É uma parábola simples, mas sem mácula, que nos diz que, a despeito do progresso (de que a tecnologia do aparelho para a surdez é sinédoque), a voz infantil (em sentido amplo) continua a não ser ouvida.

O filme é um festim para os sentidos. Por um lado, a fotografia (luz intensificada, cores saturadas), evoca um excesso de evidência da realidade, como se, em paralelismo com a deficiência auditiva do protagonista, o espectador fosse parcialmente cego perante o mundo. Por outro lado, e naquela atitude de flirt subtil com a vanguarda que só Kiarostami consegue gerir, "Hamsarayan" é uma peça de música concreta, onde um coro de gritos ritmados de crianças é instrumentalmente acompanhado por uma perfuradora.

Sentir, por fim, aquilo para que estávamos circunstancialmente surdos? É a poesia.

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