quarta-feira, novembro 17, 2010

O ACTUAL 29

"Lola" - Brillante Mendoza



A Justiça é uma avó imemorial, uma preocupação quase tão antiga como a consciência do humano. No entanto, a expectativa da sua eficaz organização social, que coroa a última parte da "Oresteia" de Ésquilo, já se encontra ironizada no "Don Quijote de la Mancha". Em continuidade com a lucidez cervantina, o belo filme "Lola" alicia o seu espectador para a ideia de que a verdadeira justiça talvez seja independente das formas instituídas (polícia, tribunal) de a praticar.

Mas fá-lo sem incorrer numa tónica maldita. Veja-se o tratamento afectivo dado à figura do dinheiro, bem mais próximo da magia redentora de "La leggenda del santo bevitore" de Ermanno Olmi do que do (provavelmente) diabólico "L'argent" de Bresson. Ele é o modo real como se dão as trocas entre as pessoas: se neste filme houvesse uma acção de suborno, ela confundir-se-ia provavelmente com um acto de amor.

A antiguidade da justiça ganha corpo na velhice corpórea das duas avós que protagonizam a obra. E a forma que Mendoza decidiu trabalhar cola-se a esse impositivo peso físico, a esse exemplar escrúpulo de locomoção. Seja a nível da narrativa (que se reduz ao conjunto de procedimentos necessários para resolver os problemas levantados por uma morte por homicídio), seja ao nível da coreografia da câmara, ou da lentidão rítmica. Só que essa lentidão é o oposto exacto dos nossos problemas actuais com a Justiça: nós é que já não sabemos que actos devem ser praticados em allegro, e que actos em adagio.

Vento, chuva, água omnipresente, detritos, alimentos... "Lola" parece desenvolver uma poética do húmus, num sentido muito semelhante ao que Raul Brandão trabalhou. É claro que as imagens documentam a miséria da sociedade filipina (e com certeza muitas das nuances do contexto nos passarão despercebidas), mas, mais do que isso, elas configuram um estádio existencial de mistura entre morte e vida cuja fermentação (lenta, secreta) só pode descambar numa esperança de fertilidade. Em pleno funeral, as crianças apanham peixes que servirão de futuro almoço. Lá para o oriente, parece que eles continuam a saber caminhar em frente...

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