segunda-feira, novembro 01, 2010

Casting 14

O realizador chileno Raúl Ruiz parece ter mais talento para imaginar personagens do que para escolher os actores que lhes hão-de dar corpo.

Em "Os mistérios de Lisboa", filme ao qual não consegui aderir, há vários erros de casting. É o caso de Joana de Verona, actriz que desconhecia, e que na saga camiliana representa o papel de uma criada que rouba o marido à patroa, para, mais tarde, já respeitavelmente casada com outro homem, se ver obrigada a enfrentar a amante do seu marido.

O primeiro aspecto do erro resulta de, perante aquela pessoa, ser difícil acreditar que a sua personagem é originária de um meio social desfavorecido (o mesmo acontece com Ricardo Pereira, que não é por ter uma cicatriz de caracterização que consegue expor uma cicatriz social). Mas a maior dificuldade deve-se ao facto de Verona ser claramente muito mais oliveiriana do que ruiziana, como provam a sua tendência para uma declamação demasiado pura e a fragilidade do seu corpo-pronto-a-ser-habitado-por-um texto.

Ao meu lado, dizia-se que ela era uma má actriz. Não me parece, parece-me deslocada do projecto, o que é uma coisa diferente. Aliás, Joana protagoniza mesmo um dos melhores momentos dos "Mistérios de Lisboa". Quando, no frente a frente com a magistral Clotilde Hesme, Ruiz a enquadra em grande plano, a sua insegurança física perante a adversária é exponenciada pela agitação descontrolada dos brincos que está a usar. Eis um pormenor que tenho a certeza de que ninguém previu, e que contribui de forma radical para a expressividade e o sentido do filme.

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