domingo, novembro 28, 2010

Cadernos Rimbaldianos 2

O professor Cavaco tem muito que andar para conseguir expressar silêncios tão ensurdecedores como os do adolescente de Charleville. Que gangrena terá levado a que um poeta de excepção tenha prematuramente amputado a escrita da sua vida? Eis uma dúvida que assombra muitas almas sensíveis, e que tem feito correr rios de tinta, talvez até alguns afluentes de vil metal, e uma horda inesgotável de macaquinhos de imitação.

Pela minha parte, demarco-me da hagiografia com os dois únicos comentários que se me afiguram úteis:

1. Ao ter desistido de escrever com cerca de vinte anos (as razões são suas), Rimbaud mostrou como perdeu o interesse por toda e qualquer sombra de carreira nas letras. Sinto-me constrangido quando vejo a comunicação social celebrar o milagre do tempo associado a uma paixão com parangonas do género "cinquenta anos de vida literária". E ele é prémios, comendas, homenagens, prefácios e outras cagadas honoris causa. Ora, o autor de "Illuminations" escreveu enquanto lhe apeteceu, enquanto isso constituiu uma necessidade vital para a sobrevivência do seu espírito, e parou quando outros valores, nem mais altos nem mais baixos, se levantaram.

2. Em continuidade com esta ideia, quer-me parecer que, para Rimbaud (e nisso sou absolutamente solidário com ele), a poesia não estava restrita a uma prática de escrita, mas implicava a experiência da vida por inteiro. Haverá certamente razões que fazem com que a arte que, por definição, nos impele para o fazer (poesia não será poiesis mas evidência que leva à poiesis) seja aquela que prescreve uma acumulação de palavras sobre folha de papel. Mas o jovem autor terá preferido perder o seu lugar de excepção dentro dessa gesta e entrar na vivência poética comum a todos os homens. De resto, continuou a não saber viver. Mas entre tantas imaturidades, essa honestidade absoluta na relação com a escrita seria o suficiente para o fazer ganhar o Prémio Nobel da Economia.

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