domingo, novembro 28, 2010

Partilha 105

voz de delphine seyrig



(e=45)

não há deus que acolha o teu gesto
num universo de materna compreensão
nem paraíso que te recompense
com rios de leite, luz e sangue azul
não há glória social que valha a pena
não há gratidão eterna
nem mesmo uma amizade
que resista a trinta dinheiros
(ou até a um pouco menos)

mesmo assim
és por vezes decente com o outro
e o outro decente contigo


[por vezes]

Cadernos Rimbaldianos 2

O professor Cavaco tem muito que andar para conseguir expressar silêncios tão ensurdecedores como os do adolescente de Charleville. Que gangrena terá levado a que um poeta de excepção tenha prematuramente amputado a escrita da sua vida? Eis uma dúvida que assombra muitas almas sensíveis, e que tem feito correr rios de tinta, talvez até alguns afluentes de vil metal, e uma horda inesgotável de macaquinhos de imitação.

Pela minha parte, demarco-me da hagiografia com os dois únicos comentários que se me afiguram úteis:

1. Ao ter desistido de escrever com cerca de vinte anos (as razões são suas), Rimbaud mostrou como perdeu o interesse por toda e qualquer sombra de carreira nas letras. Sinto-me constrangido quando vejo a comunicação social celebrar o milagre do tempo associado a uma paixão com parangonas do género "cinquenta anos de vida literária". E ele é prémios, comendas, homenagens, prefácios e outras cagadas honoris causa. Ora, o autor de "Illuminations" escreveu enquanto lhe apeteceu, enquanto isso constituiu uma necessidade vital para a sobrevivência do seu espírito, e parou quando outros valores, nem mais altos nem mais baixos, se levantaram.

2. Em continuidade com esta ideia, quer-me parecer que, para Rimbaud (e nisso sou absolutamente solidário com ele), a poesia não estava restrita a uma prática de escrita, mas implicava a experiência da vida por inteiro. Haverá certamente razões que fazem com que a arte que, por definição, nos impele para o fazer (poesia não será poiesis mas evidência que leva à poiesis) seja aquela que prescreve uma acumulação de palavras sobre folha de papel. Mas o jovem autor terá preferido perder o seu lugar de excepção dentro dessa gesta e entrar na vivência poética comum a todos os homens. De resto, continuou a não saber viver. Mas entre tantas imaturidades, essa honestidade absoluta na relação com a escrita seria o suficiente para o fazer ganhar o Prémio Nobel da Economia.

quarta-feira, novembro 24, 2010

"Hamsarayan" - parte 2

"Hamsarayan" - parte 1

O INACTUAL 55

"Hamsarayan" - Abbas Kiarostami (1982)



A. Recentemente, tive a oportunidade de ver quatro curtas-metragens que Kiarostami realizou no âmbito da sua colaboração com o Instituto (iraniano) para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens Adultos (forneço as traduções dos títulos para a língua inglesa, porque não conheço as soluções correspondentes em português): "Noon va Koucheh" ("Bread and alley", 1970), "Zang-e Tafrih" ("Breaktime", 1972), "Do Rahehal Baraye yek Masaleh" ("Two solutions for one problem", 1975) e "Hamsarayan" ("The chorus"). Pude re-observar algumas características temáticas e formais que compõem uma espécie de espinha dorsal da sua obra:

1. A maior parte dos filmes decalca a sua ficção-documento a partir de um lugar comum alegórico: o caminho com obstáculos. É um lugar comum completamente despido, frontal, directo (não está disfarçado por uma pseudo-sofisticação), e com consequências ao nível da organização visual das obras. Talvez esta obsessão tenha sido em parte sugerida pelo urbanismo enviesado das urbes iranianas. De qualquer modo, o cineasta tem uma manifesta predilecção pela passagem estreita, como se estivesse sempre a glosar o tema do labirinto do conto infantil.

2. A despeito de ser um autor que se mantém próximo do quotidiano, este aparece intensificado até atingir uma dimensão para-épica: na mais bela daquelas curtas-metragens, "Hamsarayan", há um cavalo puxando uma carroça que corre como um louco pelo labirinto citadino. Todos os filmes de Kiarostami registam a dificuldade extrema de realizar uma acção muito simples: por exemplo, entregar um caderno a um colega em "Onde é a casa do meu amigo?".

3. Perante cada obstáculo pequeno-grande que se apresenta no caminho, há sempre dois pontos de vista igualmente válidos e que não se excluem mutuamente. A didáctica de "Noon va Koucheh" não é nada simplista: com a simples arma de um pão, uma criança faz com que um animal passe de ameaça de agressão a vítima emocional. Em "Hamsarayan", o gesto de tirar o aparelho que mitiga a surdez tanto pode constituir uma defesa (contra os ruídos desagradáveis) como pode tornar o seu portador indefeso (não ouve o cavalo que se aproxima, não ouve as netas que o chamam). Nessa grande síntese que é "O sabor da cereja", o espectador assiste à reticência com que os homens auxiliam uma pulsão mortal e à naturalidade com que é acolhida a tendência oposta.


B. "Hamsarayan" parece-me ser uma pequena obra-prima. É uma parábola simples, mas sem mácula, que nos diz que, a despeito do progresso (de que a tecnologia do aparelho para a surdez é sinédoque), a voz infantil (em sentido amplo) continua a não ser ouvida.

O filme é um festim para os sentidos. Por um lado, a fotografia (luz intensificada, cores saturadas), evoca um excesso de evidência da realidade, como se, em paralelismo com a deficiência auditiva do protagonista, o espectador fosse parcialmente cego perante o mundo. Por outro lado, e naquela atitude de flirt subtil com a vanguarda que só Kiarostami consegue gerir, "Hamsarayan" é uma peça de música concreta, onde um coro de gritos ritmados de crianças é instrumentalmente acompanhado por uma perfuradora.

Sentir, por fim, aquilo para que estávamos circunstancialmente surdos? É a poesia.

domingo, novembro 21, 2010

Excerto de uma carta de amor 5

.......olhe, devem ter sido os suiços que inventaram o amor (só pode), esse amor-de-cuco em que aparece pontualmente um pássaro a dizer "terra de ninguém" "terra de ninguém". Os amantes chocam nele um mostrador que não é seu, e onde se lêem disparates como "joão menos paula", "carla e um aurélio", "luís em ponto". Um bebé codorniz dentro de um ovo avestruz? Certamente, mas só os ponteiros deste canivete nos valem para cortar o silêncio ........

quarta-feira, novembro 17, 2010

"Lola" - imagem

O ACTUAL 29

"Lola" - Brillante Mendoza



A Justiça é uma avó imemorial, uma preocupação quase tão antiga como a consciência do humano. No entanto, a expectativa da sua eficaz organização social, que coroa a última parte da "Oresteia" de Ésquilo, já se encontra ironizada no "Don Quijote de la Mancha". Em continuidade com a lucidez cervantina, o belo filme "Lola" alicia o seu espectador para a ideia de que a verdadeira justiça talvez seja independente das formas instituídas (polícia, tribunal) de a praticar.

Mas fá-lo sem incorrer numa tónica maldita. Veja-se o tratamento afectivo dado à figura do dinheiro, bem mais próximo da magia redentora de "La leggenda del santo bevitore" de Ermanno Olmi do que do (provavelmente) diabólico "L'argent" de Bresson. Ele é o modo real como se dão as trocas entre as pessoas: se neste filme houvesse uma acção de suborno, ela confundir-se-ia provavelmente com um acto de amor.

A antiguidade da justiça ganha corpo na velhice corpórea das duas avós que protagonizam a obra. E a forma que Mendoza decidiu trabalhar cola-se a esse impositivo peso físico, a esse exemplar escrúpulo de locomoção. Seja a nível da narrativa (que se reduz ao conjunto de procedimentos necessários para resolver os problemas levantados por uma morte por homicídio), seja ao nível da coreografia da câmara, ou da lentidão rítmica. Só que essa lentidão é o oposto exacto dos nossos problemas actuais com a Justiça: nós é que já não sabemos que actos devem ser praticados em allegro, e que actos em adagio.

Vento, chuva, água omnipresente, detritos, alimentos... "Lola" parece desenvolver uma poética do húmus, num sentido muito semelhante ao que Raul Brandão trabalhou. É claro que as imagens documentam a miséria da sociedade filipina (e com certeza muitas das nuances do contexto nos passarão despercebidas), mas, mais do que isso, elas configuram um estádio existencial de mistura entre morte e vida cuja fermentação (lenta, secreta) só pode descambar numa esperança de fertilidade. Em pleno funeral, as crianças apanham peixes que servirão de futuro almoço. Lá para o oriente, parece que eles continuam a saber caminhar em frente...

terça-feira, novembro 16, 2010

Cena falhada

Quando estava a esboçar o post anterior, enganei-me e escrevi:

"Não há provas irrefutáveis a favor de nenhuma solidão"

Cadernos Rimbaldianos 1

1. Não partilho da inquietação dos estudiosos da poesia de Rimbaud quanto à verdadeira ordenação cronológica das suas duas últimas obras. Não há provas irrefutáveis a favor de nenhuma solução, pelo que o exercício especulativo costuma ser utilizado para fabricar uma determinada imagem do poeta adolescente (mais rebelde ou mais genial, conforme os gostos). Aliás, nem sequer me parece que a oposição "Une saison en enfer" - "Illuminations" seja particularmente relevante. Podemos conceber os dois textos como duas estações do percurso do autor, uma qualquer a seguir à outra qualquer - e depois muitas outras terá havido (mas sem escrita). Parece-me que é bem mais produtivo contrapor os delírios do período da vidência (com seu soneto "Voyelles") às "Illuminations" (e sua bem muda prosa intitulada "H"), ou seja, contrapor a defesa lapidar do "Je est un autre" à sua mutação, após o falhanço da ambiciosa experiência sentimental com Paul Verlaine, para algo que se poderia formular por "Je est je et un autre".

2. Nas "Illuminations", é sintomático que o poema "Ville", com título no singular, evoque uma metrópole idealizada mas entediante, enquanto que os outros dois textos que descrevem urbanismos mas partem de uma intitulação plural estejam impregnados de possibilidades e esperanças. Rimbaud poderia não saber muito bem o que queria, mas sabia que não queria estar parado. Toda a cidade deve ser cidade(s). O saisons!

3. Ainda na mesma recolha, o famoso poema "Départ" parece aderir claramente à forma do telegrama. É o telegrama de alguém que, eventualmente, já partiu (como "H" é a fala de quem talvez já se tenha calado).

4. O "Génie" que conclui as "Illuminations" não é, obviamente, o Zuckerberg do facebook. Não é a inteligência que apaixona Rimbaud. Ele defende, romanticamente, a genialidade, sim, mas esta implica a plena expressão do ser, a sua máxima e completa potência: amor, ética, devir, harmonia, inquietação...

Fala do homem de meia idade

"Quando eu era bom como o milho, toda a gente queria fazer de mim pipocas."

domingo, novembro 14, 2010

Partilha 104

cronocromia


ler poesia é fácil (ler-me)
é como em tempo de caderneta de cromos:
as palavras que posso dar sem as perder
troco-as
pelas que o leitor quer sofrer sem lhes ganhar
golo após golo
vou marcando goles

também eu me dedico à oração
rezo à diabetes ao coração ao colesterol
que me dêem baba e ranho muito longos
- assim o quer meu andamento caracol
(não anotei a data em que surgiu
o meu primeiro
............................verso branco)

quarta-feira, novembro 10, 2010

"The night of the hunter" - imagem

O INACTUAL 54

"The night of the hunter" - Charles Laughton (1955)



O filme único de Charles Laughton oferece-nos uma das visões mais duras sobre a infância que a história do cinema é capaz de aguentar (outros exemplos serão "Germania anno zero" de Roberto Rossellini e "El espíritu de la colmena" de Victor Erice). Basicamente, a alegoria encena o peso excessivo daquilo que impomos a cada criança durante a sua jornada de preparação para o mundo. Os dez mil dólares metidos numa boneca são o indício dessa responsabilidade adulta (ser fiel ao pai até às últimas consequências, guardar um segredo como só um túmulo o faria, cuidar da irmã mais nova) cuja violência só por via de um esquecimento medíocre nos parece suportável quando nos tornamos, de facto, adultos.

Nenhuma criança consegue, portanto, ver os seus pais tal como eles são. Volto a sublinhar aqui o carácter fortemente alegórico de "The night of the hunter": os dois miúdos encontram a mãe adoptiva depois de partirem à deriva no rio onde a mãe real se encontra sepultada, e o rapaz chega a confundir a prisão do padrasto com a prisão do seu próprio pai. É preciso inventar os progenitores, mitificá-los. Se o pai verdadeiro legou aos seus filhos a imagem de um amor imenso mas desequilibrado, as crianças têm de o reconstruir como um desequilíbrio de sinal inverso. Só assim conseguem sobreviver. E em contraste, a fragilidade da mãe verídica, visivelmente mais interessada em namorar do que em cuidar dos filhos, tem de ser redimida na fantasia de uma super-mãe, que defende a sua prole com armas de fogo e cujo amor tem a força rude de tudo o que não vacila.

O que está aqui em causa é o problema da educação, certamente um dos assuntos mais relevantes com o qual nos temos de confrontar na nossa passagem por este mundo, mas cujo aparato de soluções instituídas costumamos aceitar como consensual. Não é, é uma polémica interminável. Note-se como, neste filme, tanto o Pai-vilão como a Mãe-heroína têm exactamente o mesmo discurso, o discurso cristão. E, no entanto, as repercussões da sua aplicação são diametralmente opostas. Como na vida, de resto: a maior parte das pessoas partilham uma mundividência burguesa-cristã, mas os resultados das educações que fornecem aos filhos são brutalmente diversos.

Portanto, o essencial da formação de um ser passará não tanto pelo catecismo de valores que ele é obrigado a decorar, mas pelo exemplo da sua execução levado a cabo pelas figuras adultas míticas que orientam esse ser. Ao mesmo tempo, Laughton põe o dedo na ferida da América do seu tempo, perdida numa histeria ideológica que a levou à vergonha da caça às bruxas. Com a clarividência do meu amigo John Ford, estou cada vez mais convicto de que a execução ética de um pensamento é mais importante do que a eventual perfeição desse pensamento. Veja-se: o puritanismo sexual da personagem de Robert Mitchum tem um carácter evidentemente patológico, mas quando a mãe galinha diz que as mulheres são tontas sentimentais, ela está a dizer uma verdade. E, no entanto, partem os dois da mesma moral, o cristianismo, que foi fundada sobre o sentimento do amor, mas que se tornou bem mais ambiciosa, bem mais pesada, do que esse sentimento.

"The night of the hunter" não é um filme sobre a fragilidade das crianças na era da Depressão dos anos 30. A fragilidade aqui debatida é a que resulta da própria condição infantil. Na inesquecível sequência de viagem pelo rio, os animais (aranhas, sapos, coelhos) velam pela segurança dos meninos, como num conto de fadas. No fim, tenho a certeza de que todos queremos ser filhos de Lillian Gish. E como ela é a grande mãe do cinema (embalando o berço da humanidade em "Intolerance" de David W. Griffith), ela faz de nós todos ciné-fils. E quem será capaz de garantir que não foi (também) educado pelo cinema?

Creep

Se bem percebo esta narrativa de gestação do facebook defendida (com pouco talento) no filme "The social network" de David Fincher, ela ecoa aquilo que argumentei no meu ensaio sobre a presença do filósofo Sócrates no livro "O banquete" de Platão: muito do que hoje constitui a nossa cultura social deriva da influência decisiva que sobre ela tiveram um conjunto de homens sem grandes talentos sociais. O mais curioso, e assumo isto confessando que a minha personalidade se aproxima daquilo a que vulgarmente se chama um nerd, é que as pessoas com uma capacidade de sociabilização equilibrada talvez não precisassem propriamente do legado desses visionários...

O facebook (do qual participo) parece-me, contudo, bastante inócuo (ao contrário da blogosfera, por exemplo). A verdade é que continuo a ver a geração da internet (os adolescentes contemporâneos) a constituir relações sociais de facto e em presença. No máximo, a rede social pode servir para enganar um pouco alguma solidão real, mas não está a transformar a humanidade numa distopia geek. E tem vantagens: já encontrei amigos do passado por essa via... Aliás, pelas suas próprias características, o facebook acabará por passar rapidamente de moda, pois é disso que se trata, e não nos nos assombrará durante milénios como o platonismo. Até porque, seja qual for a nossa adesão a este filão filosófico (eu não adiro), ele foi fundado a partir de uma preocupação ética profunda, e o achado de Zuckerberg não passou de uma ambição de um jovem emocionalmente imaturo (quero lá saber do seu Q.I.).

Continuemos a brincar um pouco no facebook, nada mais.



Imagem retirada daqui

domingo, novembro 07, 2010

Telegrama

O professor Diogo Freitas do Amaral, uma espécie de Zita Seabra mas em bumerangue, disse que não apoiava a candidatura de Manuel Alegre à presidência da república porque, apesar deste ser um excelente poeta, os poetas costumam andar na lua.

Discordo.

Por várias razões.

Manuel Alegre, com todas as qualidade que possa ter, não me interessa nada como escritor.

Quem foi à lua, foram os americanos, não foram os poetas.

A poesia ou tem relevância política, ou não tem relevância nenhuma.

Ser presidente da república deve ser um dos postos menos políticos de uma nação.

Perante esta expulsão da república, poupem então os poetas às homenagens, comendas, grãs-cruzes e demais alfinetes de trazer na lapela.


P.S. - Manuel Alegre também não me interessa nada como político.

Confissão 29

Sou tão absolutamente ambicioso que não me comove nenhum dos modelos de reconhecimento que o mundo tem para me oferecer.

Leveza sustentável

Tudo o que compõe o poema (imagens, figuras, sonoridades...) deve ter a consistência de uma cintilação breve.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Gostaria de ter escrito 9

Parágrafo


Sou dado às coisas assim prontas, como quando uma coisa alude a outra e tudo flui em harmonia; um futuro rodeado na ciranda que deita rodas gigantes em carrosséis, assegurando-me giros sem alturas. As coisas assim prontas surgem do meu anexionismo: o que me é compreensível é porque também me compreende, o resto ignoro; os que insistem, construo divisas e isolo.

Rafael Costa

segunda-feira, novembro 01, 2010

Casting 14

O realizador chileno Raúl Ruiz parece ter mais talento para imaginar personagens do que para escolher os actores que lhes hão-de dar corpo.

Em "Os mistérios de Lisboa", filme ao qual não consegui aderir, há vários erros de casting. É o caso de Joana de Verona, actriz que desconhecia, e que na saga camiliana representa o papel de uma criada que rouba o marido à patroa, para, mais tarde, já respeitavelmente casada com outro homem, se ver obrigada a enfrentar a amante do seu marido.

O primeiro aspecto do erro resulta de, perante aquela pessoa, ser difícil acreditar que a sua personagem é originária de um meio social desfavorecido (o mesmo acontece com Ricardo Pereira, que não é por ter uma cicatriz de caracterização que consegue expor uma cicatriz social). Mas a maior dificuldade deve-se ao facto de Verona ser claramente muito mais oliveiriana do que ruiziana, como provam a sua tendência para uma declamação demasiado pura e a fragilidade do seu corpo-pronto-a-ser-habitado-por-um texto.

Ao meu lado, dizia-se que ela era uma má actriz. Não me parece, parece-me deslocada do projecto, o que é uma coisa diferente. Aliás, Joana protagoniza mesmo um dos melhores momentos dos "Mistérios de Lisboa". Quando, no frente a frente com a magistral Clotilde Hesme, Ruiz a enquadra em grande plano, a sua insegurança física perante a adversária é exponenciada pela agitação descontrolada dos brincos que está a usar. Eis um pormenor que tenho a certeza de que ninguém previu, e que contribui de forma radical para a expressividade e o sentido do filme.